Soneto Ora direis ouvir estrelas (Via Láctea), de Olavo Bilac


Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Ora (direis) ouvir estrelas pertence a coleção de sonetos Via Láctea que, por sua vez, está inserido livro de estreia do escritor brasileiro Olavo Bilac. 

O soneto é o número XIII de Via Láctea e ficou consagrado como a parte mais famosa da antologia intitulada Poesias, publicada em 1888.

Os versos de Bilac são um típico exemplar da lírica parnasiana.

Ora direis ouvir estrelas na íntegra

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Análise

Ora (direis) ouvir estrelas é o soneto número XIII da coletânea de sonetos Via Láctea. No livro Poesias, Via Láctea se encontra entre Panóplias e Sarças de fogo.  

Diz-se que o tema do amor, mote inspirador dos versos de Bilac, foi fruto da paixão que o poeta teve pela poetisa Amélia de Oliveira (1868-1945), irmã de Alberto de Oliveira (1857-1937).

Os versos apaixonados transparecem o afeto de um recém apaixonado que dialoga com as estrelas. Quem o ouve acusa o eu-lírico de devaneio:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!”

O eu-lírico não liga para a acusação e ainda sublinha a sua necessidade de conversar com as estrelas deixando, inclusive, as janelas abertas para melhor ouvi-las. A conversa com os astros é longa, se estende noite adentro:

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. 

A tristeza aparece quando nasce o sol e torna-se impossível vê-las. O apaixonado então recolhe-se a sua tristeza e agonia a espera que a noite caia novamente.

A meio do poema são inseridas aspas para indicar a presença do interlocutor, que o acusa novamente de se desconectar da realidade para conversar com as estrelas. O eu-lírico então devolve uma resposta cabal:

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Ao mesmo tempo que fala de um sentimento particular - o encantamento provocado pela amada, o sentimento de enamoramento - o poema é construído de modo universal, de forma a alcançar os ouvidos de qualquer pessoa que já tenha se sentido em tal estado. 

Trata-se, por isso, de versos eternos, que não perdem a validade, porque retratam sentimentos tipicamente humanos e genuínos, independentes de qualquer tempo e lugar.

A amada aludida nos versos de Ora (direis) ouvir estrelas não é nomeada, nem sequer conhecemos qualquer característica física sua. 

O amor cantado pelo poeta recebe heranças da contenção neoclássica, uma oposição ao sentimentalismo derramado romântico de outrora.

Em termos formais, Bilac como representante típico do Parnasianismo segue um rigor formal e estilístico. A rima, por sua vez, está presente em Via Láctea.

Quem foi Olavo Bilac

Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac conhecido nas rodas literárias apenas como Olavo Bilac, nasceu no dia 16 de dezembro de 1865, no Rio de Janeiro, e faleceu na mesma cidade em 28 de dezembro de 1918, aos 53 anos.

Em 1881, entrou para o curso de Medicina influenciado pelo pai, que fora médico e serviu o Exército durante a Guerra no Paraguai. No entanto, Bilac acabou por desistir do curso no quarto ano de faculdade e passou a investir o seu tempo trabalhando com literatura e jornalismo.

Em 1883, cinco anos antes do lançamento do livro Poesias, Olavo Bilac publicava os seus primeiros poemas no jornal dos estudantes da Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro. No ano a seguir, seu soneto Neto foi publicado no jornal Gazeta de Notícias. Daí em diante, Bilac conseguiu emplacar diversos versos em periódicos regionais e nacionais.   

Em 1885, o poeta começou a namorar com Amélia, que foi uma inspiração para os seus versos de amor. O rapaz também teve bastante sucesso na vida artística, durante as duas primeiras décadas do século XX, os seus sonetos foram bastante declamados nos saraus e salões literários.

A obra poética de Bilac enquadra-se no Parnasianismo, porém o autor fez questão de que os seus versos fossem híbridos e mesclassem a tradição francesa com um toque lusitano.

Olavo Bilac foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL) e criou a cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias.

Uma curiosidade: o poeta foi autor da letra do Hino à Bandeira.

A sua obra poética reúne as seguintes publicações:

  • Poesias, 1888
  • Crônicas e novelas, 1894
  • Sagres, 1898
  • Crítica e fantasia, 1904
  • Poesias infantis, 1904
  • Conferências literárias, 1906
  • Tratado de versificação, com Guimarães Passos, 1910
  • Dicionário de rimas, 1913
  • Ironia e piedade, 1916
  • Tarde, 1919

Poesia declamada

Leia Via Láctea na íntegra

Os versos de Via Láctea estão disponíveis para download gratuito em formato PDF.

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Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.