7 obras importantes de Monteiro Lobato comentadas


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

1. O Picapau Amarelo é a obra mais famosa de Monteiro Lobato

O picapau amarelo

Publicado em 1939, o livro mais famoso de Monteiro Lobato começa com uma carta escrita pelo Pequeno Polegar para a Dona Benta. No texto, ele fala sobre a mudança definitiva dos personagens que habitam o Mundo da Fábula para o tal Sítio do Picapau Amarelo.

Prezadíssima Senhora Dona Benta Encerrabodes de Oliveira: Saudações. Tem esta por fim comunicar v.Ex.ª que nós, os habitantes do Mundo da Fábula, não aguentamos mais as saudades do Sítio do Picapau Amarelo, e estamos dispostos a mudar-nos para aí definitivamente. O resto do mundo anda uma coisa das mais sem graça. Aí é que é bom. “Em vista disso, mudar-nos-emos todos para a sua casa - se a senhora der licença, está claro…”

Depois de concordar com a mudança, Dona Benta, a avó que é a autoridade da casa, bola uma série de regras para os dois mundos coexistirem. Quem ajuda a fazer a ponte entre esses dois universos - um real e um mágico - é a boneca de pano Emília que foi costurada para a sua neta Narizinho e ganhou vida.

Vale lembrar que Monteiro Lobato foi o primeiro escritor na literatura infantil a usar personagens da nossa cultura (personagens folclóricos, de histórias tradicionais especialmente contadas no interior do Brasil). É o caso da Cuca e do Saci Pererê, por exemplo.

Esse projeto literário patriótico, voltado para as crianças, estava estreitamente ligado com a ideologia do escritor, que era um entusiasta da cultura nacional e tinha como um dos principais lemas ajudar a divulgar a cultura brasileira.

No livro O Picapau Amarelo, Lobato mistura personagens do universo real com seres ficcionais (nacionais e internacionais). O que a vovó Dona Benta sugere para não causar confusão na convivência entre dois mundos tão diferentes é que, com a mudança, cada grupo fique do seu lado de uma cerca posta. E assim se mudam os famosos personagens Pequeno Polegar, Chapeuzinho Vermelho, Peter Pan, Branca de Neve e as princesas Rosa Branca e Rosa Vermelha entre outras criaturas do universo fantástico.

Esses seres são tanto personagens da nossa cultura como da mitologia grega (caso de Pégaso e Quimera) e dos clássicos da literatura europeia (como Dom Quixote).

Para se conectar com as crianças, Monteiro Lobato além de trazer esses personagens já conhecidos do imaginário infantil faz também questão de escrever com uma linguagem simples e clara, acessível e cativante para todos.

Pouca gente sabe, mas esse lugar mítico inventado por Monteiro Lobato, o famoso Sítio do Picapau Amarelo existiu, de fato. A propriedade estava localizada em Taubaté, em São Paulo, e entrou para o imaginário de grande parte dos brasileiros que leram esses clássicos durante a infância.

A obra O Picapau Amarelo já se encontra em domínio público e está disponível em formato pdf.

2. Reinações de Narizinho conta as primeiras histórias passadas no sítio

Reinações de Narizinho

Foi no primeiro capítulo do que viria a ser Reinações de Narizinho, publicado em 1920, que Monteiro Lobato reuniu as histórias iniciais do famoso sítio do Picapau Amarelo.

Já no princípio do livro ficamos conhecendo os celebrados personagens de Monteiro Lobato:

Numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:

— Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto...

Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas — Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem.

É em Reinações de Narizinho que encontramos a origem do universo mais conhecido de Lobato. É aqui, por exemplo, que Emília afinal deixa de ser só uma boneca de pano feita pela tia Nastácia para Narizinho e ganha voz. O pó de pirlimpimpim, dado por Peninha, também é usado pela primeira vez.

Esse universo mágico que Lobato criou servirá de abrigo para os personagens que irão se aventurar por inúmeras outras obras. É em Reinações de Narizinho que encontramos a gênese da magia do escritor ao fundir com tanta maestria dois mundos tão diferentes. De um lado estão os personagens do mundo real (de onde saem Dona Benta, Pedrinho, tia Nastácia, Narizinho), do outro os da imaginação (onde habitam a Cuca, o Saci, a Cinderela, etc).

Leia Reinações de Narizinho na íntegra em formato pdf.

3. Histórias de Tia Nastácia reúne muito da sabedoria popular brasileira

Histórias de Tia Nastácia

Publicado em 1937, o livro que é contado por Tia Nastácia, traz como narradora uma senhora negra e mais velha que cozinha como ninguém. É ela que conta a história e é o fio condutor dos 43 contos reunidos na obra.

A personagem, que é conhecida por ter uma enorme sabedoria popular, será a grande responsável por mostrar para as crianças do Sítio do Picapau Amarelo um pouco do rico folclore brasileiro.

Tia Nastácia é a porta-voz desse conhecimento coletivo partilhado, ela é simbolicamente uma representante do povo, de uma classe negra que veio de um contexto mais desprivilegiado se comparada com outros moradores do sítio.

“Tia Nastácia é o povo. Tudo o que o povo sabe e vai contando, de um para outro, ela deve saber.”, resume Pedrinho.

É Tia Nastácia - uma importante contadora de histórias da turma - que vai narrando uma série de contos brasileiros típicos cheios de aventura para entreter a garotada. Mais tarde, Dona Benta aproveita também para contar histórias infantis de outros lugares do mundo.

Aos poucos, as crianças vão percebendo que tanto as histórias da Tia Nastácia como as de Dona Benta afinal falam de questões universais, apesar das diferenças pontuais que existem em cada região.

É interessante reconhecer que as duas figuras mais velhas da turma - Tia Nastácia e Dona Benta - representam classes completamente diferentes da população brasileira.

Dona Benta, branca, letrada, que pertence a uma classe social mais alta e tem acesso a outras culturas, contrasta com Tia Nastácia, que veio de uma origem humilde, é negra e não teve muito acesso à educação formal. A literatura de Monteiro Lobato além de entreter as crianças reproduz nos livros também grupos muito distintos da sociedade.

4. A menina do narizinho arrebitado foi o primeiro livro infantil publicado por Monteiro Lobato

A menina do narizinho arrebitado

Foi em 1920 que Monteiro Lobato publicou o seu primeiro livro infantil, A menina do narizinho arrebitado.

O livro é a primeira obra passada no sítio do Picapau Amarelo e é o primeiro título de uma série que viria a ter mais de duas dezenas de obras.

O título escolhido pelo autor faz menção a uma das personagens principais da história:

Chama-se Lucia, mas ninguém a trata assim. Tem apelido. Yayá? Nenê? Maricota? Nada disso. Seu apelido é Narizinho “Rebitado”, - não é preciso dizer porque.

A primeira impressão - de 500 exemplares, um marco para a época - foi parar em escolas paulistas, onde começaram a ganhar o coração das crianças. A coleção foi crescendo até chegar a 23 títulos com os personagens que encantaram várias gerações: a boneca de pano Emília, o menino Pedrinho, as contadoras de história Tia Nastácia e Dona Benta, a menina Narizinho, entre outros.

Monteiro Lobato foi um visionário para o seu tempo e, ao notar que não havia literatura infantil original de qualidade no Brasil, colocou as mãos na massa e começou a publicar obras específicas para esse público que estava, até então, desassistido.

Foi a partir da experiência na criação dos próprios filhos, diante da ausência de boas obras, que o criador percebeu essa lacuna editorial no Brasil. Idealista, com o intuito de entreter os pequenos, mas também educar, Lobato incluiu uma série de histórias da nossa literatura em formato de obra literária para as crianças pequenas.

5. O saci reúne histórias desse importante personagem da cultura brasileira

O saci

O livro que tem como personagem principal o Saci-Pererê, um símbolo da nossa cultura nacional, foi publicado em 1921.

A obra, que contém 28 capítulos, tinha não só o objetivo de entreter as crianças como também de divulgar a cultura do interior do nosso país para as capitais apresentando personagens caboclos importantes e pouco conhecidos até então.

O saci — começou ele — é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. Traz sempre na boca um pito aceso, e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, como a força de Sanção estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravo.

O desejo de escrever sobre o saci para crianças não surgiu de uma vontade ligeira ou simplesmente lúdica. Antes de compor o livro infantil, o intelectual fez um inquérito com mais de trezentas páginas onde analisava esse personagem importante para a nossa cultura. Monteiro Lobato fez uma extensa pesquisa reunindo uma série de contos populares envolvendo o personagem misterioso.

Para apresentar o saci para as crianças de modo não assustador, o escritor precisou lapidar e adaptar uma série de histórias tradicionais do saci que poderiam amedrontar os mais novos.

Como muitas dessas histórias originais tinham um conteúdo pesado, possivelmente lido como ameaçador, Lobato alterou as histórias para que as crianças apenas se encantassem com o personagem e não tivessem medo dele.

O idealista Monteiro Lobato pretendia, com a ajuda das crianças, divulgar a cultura nacional não só através do saci como também de outros personagens importantes como a Cuca e o Boitatá.

Conheça a versão completa da obra O Saci em formato pdf.

6. A chave do tamanho tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial

A chave do tamanho

Em A chave do tamanho (1942) Monteiro Lobato novamente mistura ficção e realidade, mas aqui de uma forma ainda mais original. O mundo assistia à Segunda Guerra Mundial correr quando o escritor resolveu se apropriar desse assunto difícil para servir de tema de fundo da sua obra infantil.

— Novo bombardeio de Londres, vovó. Centenas de aviões voaram sobre a cidade. Um

colosso de bombas. Quarteirões inteiros destruídos. Inúmeros incêndios. Mortos à beca.

O rosto de Dona Benta sombreou. Sempre que punha o pensamento na guerra ficava tão triste que Narizinho corria a sentar-se em seu colo para animá-la.

Na história presente em A chave do tamanho, a boneca de pano falante Emília tenta encontrar a “casa das chaves”, um espaço onde estariam todas as chaves do planeta. A sua ideia era encontrar a chave da guerra para desligar o confronto e salvar a vida de milhares de pessoas.

O desejo de Monteiro Lobato era apresentar a dura situação política que o mundo estava vivendo para as crianças, mas de uma forma com que elas conseguissem se relacionar. Ao colocar Emília como participante ativa, capaz de “desligar” a guerra, Monteiro Lobato transmitiu uma mensagem de esperança para os pequenos.

A obra A chave do tamanho se encontra em domínio público e pode ser lida gratuitamente.

7. Caçadas de Pedrinho foi adaptado por conter trechos considerados racistas e que estimulam a violência contra os animais

Caçadas de Pedrinho

Lançado em 1933, em Caçadas de Pedrinho vemos o menino neto da Dona Benta com uma postura ao mesmo tempo corajosa e arrogante. Pedrinho vai a procura do animal de “miado esquisito”, do “tamanho dum bezerro”, com rastos que “também eram de gato, mas muito maiores” com quem se cruzou por acaso nas redondezas do sítio do Picapau Amarelo.

Com a suspeita de que teria visto uma onça, o menino aventureiro convoca os amigos Narizinho, Rabicó, Emília e Visconde de Sabugosa para irem atrás do animal, apesar do medo de se tratar de uma fera brava.

Pedrinho convence os amigos a irem juntos à procura da tal onça pintada dizendo que os adultos da casa teriam medo da grande aventura:

Vovó e Tia Nastácia são gente grande e, no entanto, correm até de barata. O que vale não é ser gente grande, é ser gente de coragem,… (...) Vou organizar a caçada e juro que hei de trazer essa onça aqui para o terreiro, arrastada pelas orelhas. Se você e os outros não tiverem coragem de me acompanhar, irei sozinho.

A obra Caçadas de Pedrinho é uma das mais polêmicas de Monteiro Lobato e ganhou recentemente uma adaptação feita por Maurício de Souza e Regina Zilberman. A nova versão suaviza trechos mais complicados que tocam na questão do racismo e da agressão aos animais.

O contexto em que Monteiro Lobato escreveu era completamente distinto do mundo em que vivemos hoje e alguns trechos da sua obra entram em conflito com as nossas lutas atuais.

Em Caçadas de Pedrinho, por exemplo, vemos as crianças se juntarem e agredirem a fera, cenas que nos dias de hoje causam espanto e desconforto nos leitores.

Outro assunto delicado que a obra de Monteiro Lobato desperta é em relação ao racismo, uma vez que em algumas passagens a Tia Nastácia é chamada de forma pejorativa pelos outros membros do sítio devido à cor da sua pele.

Na tentativa de atualizar a obra, a nova edição de Caçadas de Pedrinho lida de uma nova forma com esses trechos.

Um pouco da vida de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato

Monteiro Lobato (1882-1948) foi o principal impulsionador da literatura infantil brasileira. Inovador, o intelectual se propôs a escrever para crianças numa época em que praticamente não havia nenhuma produção voltada para esse público, quer no Brasil, quer na América Latina.

Nascido em Taubaté, São Paulo, Monteiro Lobato foi alfabetizado pela mãe e cresceu cercado das muitas histórias que leu na biblioteca do avô, o Visconde de Tremembé.

Formado em Direito, o escritor se casou com Maria Pureza da Natividade, com quem teve quatro filhos.

Enquanto trabalhava como promotor, em paralelo escrevia, como hobby, para uma série de jornais e revistas. Além de criar com as palavras, Lobato também fazia caricaturas, pinturas e desenhos.

Em 1918 o autor lançou o seu primeiro livro, chamado Urupês, que fez enorme sucesso. Pouco mais tarde, começou a escrever para crianças e a trabalhar também como editor.

A sua vontade de publicar literatura infantil, tarefa que empreendeu entre 1920 e 1945, surgiu enquanto acompanhava a formação dos filhos. Monteiro Lobato rapidamente reparou que as crianças só tinham acesso a adaptações de obras estrangeiras (especialmente europeias) ou a material didático.

Pioneiro, ele se propôs a criar obras para crianças que tivessem o DNA brasileiro e exaltassem a nossa cultura, ajudando a divulgar personagens importantes para os brasileiros.

Numa das cartas dirigida ao amigo Godofredo Rangel partilhou a ideia que o movia:

Ando com várias ideias. Uma: vestir à nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. [...] Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa.

Monteiro Lobato foi capaz de levar de forma consistente a frente o seu projeto e foi autor de uma série de obras infantis importantes para o nosso país. Saiba mais sobre o seu percurso pessoal e artístico lendo o artigo A incrível literatura de Monteiro Lobato.

Se você é fã do trabalho do autor achamos que também irá se interessar pelo artigo Fábulas de Monteiro Lobato com interpretação e moral.

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).