Livro O Bem-Amado, de Dias Gomes


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O Bem-Amado foi uma peça escrita por Dias Gomes (1922-1999) no ano de 1962 (primeira versão). O texto foi encenado no teatro profissional somente oito anos mais tarde, por volta de 1970.

A escrita faz um perspicaz retrato e uma crítica social do funcionamento da política brasileira. Sucupira, a cidade fictícia da trama, vem sendo considerada por muitos como uma metáfora do Brasil. Com uma redação permeada de muito humor, vemos no protagonista Odorico Paraguaçu uma caricatura do típico político brasileiro.

O Bem-Amado, composto originalmente para o espaço do teatro, foi duas vezes adaptado para a televisão e uma vez para o cinema. 

[Cuidado, o texto abaixo contém spoilers]

Resumo

A ideia da criação de um cemitério

Sucupira, uma cidade a beira-mar muito pequena situada da Bahia, vive da pesca e principalmente dos veranistas. Trata-se de uma região carente, em Sucupira claramente não há muitos recursos.

A narrativa começa quando um pescador anônimo morre e precisa ser transportado para a cidade vizinha porque em Sucupira não há cemitério: 

Isto é uma terra infeliz, que nem cemitério tem. Pra se enterrar um defunto é preciso ir a outra cidade.

O protagonista Odorico, um sujeito esperto e cheio de lábia, vê na morte do pescador uma oportunidade de fazer campanha política.

Odorico sobe então no palanque e propõe a construção de um cemitério se o eleitorado o levar ao cargo de prefeito.

Por fim, o político se elege e deseja realizar a sua maior promessa de campanha: a construção do tal cemitério em Sucupira.

Odorico eleito, o novo prefeito de Sucupira

Vemos, aos poucos, como Odorico tem uma personalidade oportunista, que trava alianças com quem quer que seja para conseguir aquilo que quer. Ele diz ao eleitorado, por exemplo: 

E, quem votou em mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema- unção, que tem enterro e cova de graça, conforme o prometido.

Paternalista, Odorico Paraguaçu é um retrato dos políticos brasileiros populistas, que fazem acordos escusos segundo os seus próprios interesses pessoais, desviam verbas, não medem os meios para alcançar os fins.

Se na política Odorico não é lá muito ético, na vida pessoal então deixa muito a desejar. A bela Dulcinéia é mulher de Dirceu, assessor do prefeito. Odorico é, aliás, padrinho de casamento do casal. No entanto, Odorico e Dulcinéia são amantes. A história dos dois (ou dos três) corre em paralelo com a narrativa da construção do cemitério.

O problema da falta de defuntos

Depois de algum tempo o cemitério finalmente fica pronto. Eis então que surge o mais grave problema do prefeito: não há ninguém para enterrar - e sem enterro não é possível inaugurar o cemitério.

Vendo a obra fracassada de Odorico, os opositores preparam um processo de impeachment. O principal opositor do prefeito é Neco Pedreira, um jornalista dono do pasquim A Trombeta.

Para salvar a sua própria pele e permanecer com o cargo que tanto almejava, o prefeito precisa de toda forma inaugurar o cemitério. Mas como, se em Sucupira ninguém morre?

DOROTÉA – Não há ninguém doente na cidade?

ODORICO – Em estado de dar esperança, parece que ninguém. Em todo caso, mandei o coveiro fazer uma verificação.

DOROTÉA – Quase todo ano há sempre um veranista que morre afogado.

ODORICO – Este ano o mar está que é uma lagoa. Nunca vi tanto azar.

Odorico cogita muitas soluções. Primeiro pensa em comprar em Salvador um cadáver na Faculdade de Medicina, mas logo desiste porque tem medo que a oposição descubra a origem do corpo. 

Os problemas do prefeito parecem resolvidos quando Juju, uma aliada, avisa que um primo virá da capital com uma Pneumonia galopante, desenganado pelos médicos. Odorico respira aliviado e custeia a vinda do doente, na expectativa que ele seja o primeiro morador do cemitério. 

Felizmente (ou infelizmente para prefeito), o doente se cura. O cemitério segue, portanto, vazio, assim como a delegacia. Em Sucupira ninguém morre e ninguém comete crimes.

A chegada de Zeca Diabo

Odorico já se sentindo pressionado pela falta de defuntos tem a ideia de mandar vir Zeca Diabo, um jagunço, matador profissional.

Não satisfeito em trazer um criminoso para o município, Odorico ainda o nomeia para um alto posto da administração municipal: Zeca Diabo torna-se Delegado de Polícia e ganha do prefeito "carta branca pra sacudir a marreta".

Surpreendentemente, e para a desgraça de Odorico, Zeca se regenera e não deseja mais matar ninguém. O cemitério, portanto, continua vazio.

Uma reviravolta? A quase inauguração do cemitério

Dulcinéa engravida do amante Odorico, o que o deixa desesperado. Como Dirceu, marido de Dulcinéa, havia feito voto de castidade, ele rapidamente descobriria o adultério.

Pressionado por todos os lados, Odorico inventa para Dirceu que a mulher o trai com Neco, seu inimigo número um. Para conseguir resolver o seu problema pessoal e político, ele ainda empresta a sua arma para que Dirceu vá atrás de Neco. Com o crime, o cemitério de Sucupira finalmente teria o seu primeiro inquilino e o seu opositor estaria morto.

Quando Dirceu chega na redação para tirar satisfação com Neco acaba atirando acidentalmente na irmã de Dorotéa.

Haveria então, finalmente, um enterro para se realizar em Sucupira. Não era o morto desejado - Neco - mas ao menos o local poderia ser inaugurado.

Tudo pronto para o evento até que Tio Hilário chega com uma carta do pai da moça que foi assassinada. A tal carta pedia que as três filhas fossem todas enterradas no mausoléu da família, no Cemitério de Jaguatirica. E foi assim que Sucupira ficou subitamente sem defuntos novamente, para desespero do prefeito.

Por fim, um morto

Odorico se nega a acatar o pedido do pai da falecida e não deixa o corpo ser transportado. 

Neco, o jornalista, sabendo de todas as tramoias de Odorico, resolve publicá-las no seu pasquim. Zeca quando descobre fica revoltado e decide dar cabo do prefeito, que considera um traidor:

ZECA – Seu Dotô-Coroné-Prefeito, eu mandei vosmincê pegar no revólver não foi pra dar tiro pra cima, foi pra se defender, porque eu vou lhe matar.

Odorico sente que ele está falando sério. Apavora-se.

ODORICO – Oxente... que brincadeira é essa?!

ZECA – Não é brincadeira não, seu Dotô-Coroné-Prefeito. Traidor não merece viver, quanto mais traidor de moça donzela. Se tem bala nesse revólver, atire em mim, que meu Padim Pade Ciço é testemunha que eu nunca matei ninguém que antes não quisesse me matar.

Por fim, quem morre é Odorico Paraguaçu, assassinado por Zeca. Por uma ironia do destino é ele o eleito para inaugurar o próprio cemitério que mandou construir. 

Personagens principais

Odorico Paraguaçu

Cheio de lábia, Odorico é descrito como um demagogo por natureza. O político é um oportunista falante e teatral, tem o poder do convencimento. É uma caricatura dos políticos brasileiros, um típico representante do coronelismo.

Neco Pedreira

Opositor de Odorico, jornalista, o dono do jornal denuncia os abusos do prefeito no pasquim A Trombeta. Ele representa a imprensa e o seu desejo de investigação.

Dorotéia

Professora do grupo escolar e uma espécie de ajudante de Odorico. É apoiadora fiel do prefeito e fez campanha para que ele se elegesse. Dorotéia não recebe salário há meses e vê a degradação da escola, ela sabe do desvio de verba da educação para a construção do cemitério e ainda assim se mantém pacífica e ao lado de Odorico. Dorotéia é a imagem de uma parcela do povo brasileiro, que sabe dos desvios e se deixa enganar. 

Dulcinéa

É mulher de Dirceu e também amante do prefeito. A ingênua Dulcinéa engravida e acaba causando um grande problema para Odorico. Como o marido havia feito voto de castidade, rapidamente se saberia que ela praticou o adultério. 

Dirceu

Assessor do prefeito, que é seu padrinho de casamento. Dirceu confia piamente em Odorico e chega a confessar a ele o voto de castidade que fez antes de se casar. Impulsionado pelo prefeito, ele vai tirar a limpo a história da traição com o jornalista. No final acaba assassinando uma inocente e indo parar na cadeia. Dirceu é um retrato de um inocente ingênuo e facilmente manipulável.

Moleza

O coveiro que não tem trabalho porque na cidade de Sucupira ninguém morre. Ele é nomeado como coveiro porque ajudou na campanha do prefeito. Moleza é um símbolo daqueles que são colocados no poder público em troca de um apoio fornecido durante a campanha eleitoral.

Análise

  • Humor

O Bem-Amado é um livro conhecido pelo seu extremo senso de humor. A graça está na maneira espontânea e desavergonhada como os personagens se comunicam e na forma como a crítica social velada é feita.

Logo no início da peça, por exemplo, quando dois amigos queriam comentar que mestre Leonel investia em todas as moças, um dos pescadores diz: 

Quando era moço, de saia mesmo mestre Leonel só respeitava padre e santo de andor.

São pequenas piadas ou momentos descontraídos que vão sendo inseridos ao longo do texto dando leveza à peça que faz um retrato da vida política brasileira.

Outro momento de humor - para se ter ideia do tom da comédia de Dias Gomes - acontece numa conversa de bar entre dois pescadores:

Quando ele viu aquele mulherão pela frente (Janaína), toda nua, mulher do umbigo pra cima e peixe do umbigo pra baixo, perguntou: “Siá dona será que vosmicê não tem uma irmã que seja ao contrário?”

Para além desses breves trechos que conferem leveza ao texto, que trata no fundo de um assunto sério, é de se sublinhar o humor oriundo do discurso de Odorico Paraguaçu.

A fala do prefeito é grandiloquente, extremamente verborrágica, rebuscada, e almeja uma pompa, sendo muitas vezes vazia em termos de conteúdo. A sua fala é como o canto da sereia, que deseja seduzir os ouvidos os marujos (nesse caso, dos eleitores).

É como se ele procurasse falar difícil para ludibriar aqueles que pouco compreendem. Odorico chega a inventar palavras e expressões que não existem só para tornar o seu discurso mais convincente:

ODORICO – Vejam este pobre homem: viveu quase oitenta anos neste lugar. Aqui nasceu, trabalhou, teve filhos, aqui terminou seus dias. Nunca se afastou daqui. Agora, em estado de defuntice compulsória, é obrigado a emigrar; pegam seu corpo e vão sepultar em terra estranha, no meio de gente estranha. 

  • O cemitério como uma crítica aos projetos políticos vazios

A obra do cemitério, suntuosa, é um exemplo da ineficiência do poder público que elenca projetos que não são propriamente uma necessidade da região. Para levar a cabo aquele que se torna o seu projeto, em última instância, pessoal, Odorico faz uma série de desvios de verbas. Construir o cemitério de Sucupira torna-se uma questão de honra para o prefeito. 

Fazendo uso do famoso jeitinho brasileiro, ele então desvia o dinheiro da educação e das obras emergenciais para conseguir concluir aquela que será a sua maior obra pública. 

A prefeitura chega a financiar a vinda de um primo moribundo que seria, supostamente, o primeiro defunto a inaugurar o cemitério. Odorico, no cargo de prefeito, custeia com dinheiro público todo o tratamento do doente, dá uma "guaribada" no cemitério e orienta a banda a ensaiar a marcha fúnebre para o seu grande evento: a inauguração do tão prometido cemitério de Sucupira. 

Dias Gomes critica essa atitude política tão frequente no Brasil de colocar os seus próprios projetos pessoais a frente das necessidades reais da região. O desvio de verbas e o uso da máquina pública para defender os próprios interesses dos políticos é um tema que permanece extremamente atual.

  • Uma crítica à peça, o excesso de personagens

Uma das maiores críticas que Dias Gomes recebeu quando criou O Bem-Amado foi em relação ao excesso de personagens. Essa característica do texto muitas vezes dificultava - ou até mesmo inviabilizava - a realização do espetáculo. 

Ao todo, a história contada pelo dramaturgo contém catorze personagens nomeados, são eles: Chico Moleza, Dermeval, Mestre Ambrósio, Zelão, Odorico, Dorotéa, Judicéa, Dulcinéa, Dirceu Borboleta, Neco Pedreira, Vigário, Zeca Diabo, Ernesto, Hilário Cajazeira. Esse excesso de personagens que faz com que se tenha a necessidade de um elenco muito grande.

Alguns críticos apontaram para o fato do excesso de personagens potencialmente confundir o público espectador. Como são muitos personagens, também não é possível tem um aprofundamento na personalidade de cada um deles. Sabemos bastante sobre o protagonista Odorico, em relação à todos os outros ficamos conhecendo apenas alguns aspectos ou elementos mais superficiais.

Adaptações para o audiovisual

A Novela

A novela O Bem-Amado foi transmitida pela Rede Globo de 24 de janeiro a 9 de julho de 1973, no horário das vinte e duas horas. Foram 177 capítulos escritos pelo próprio Dias Gomes, autor do texto original. 

O Bem-Amado foi a primeira telenovela a cores da televisão brasileira. Na trama, Odorico Paraguaçu era interpretado pelo ator Paulo Gracindo. 

A minissérie

A minissérie, por sua vez, foi exibida entre 18 de janeiro de 2011 e 21 de janeiro de 2011. Com apenas quatro capítulos, o roteiro assinado por Guel Arraes e Claudio Paiva foi baseado na peça de Dias Gomes.

A minissérie foi gravada na cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas, e o protagonista Odorico Paraguaçu foi interpretado por Marco Nanini.

Cinema

No filme lançado em julho de 2010, Odorico Paraguaçu é interpretado por Marco Nanini (a minissérie apresentada pela rede Globo é um desdobramento do filme). 

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).