Estou Pensando em Acabar com Tudo: explicação do filme


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Com direção de Charlie Kaufman, Estou Pensando em Acabar com Tudo é um filme norte-americano de drama e suspense psicológico, lançado em 2020. O enredo foi inspirado no livro homônimo, do escritor canadense Iain Reid, publicado quatro anos antes.

Na história, acompanhamos a viagem de Lucy até a casa dos pais de Jake, o seu namorado. Com problemas na relação, a protagonista começa a perceber que existem coisas muito estranhas acontecendo por ali. O longa-metragem pode ser assistido na Netflix.

Atenção! A partir deste ponto, você vai encontrar spoilers!

Final do filme explicado: o que aconteceu?

Toda a ação culmina quando Jake resolve visitar a antiga escola, apesar dos pedidos de Lucy, que apenas quer regressar a casa. A partir daí, assistimos à jovem caminhando pelos corredores, confusa, até encontrar o zelador do local.

Quando volta a se cruzar com o suposto namorado, ambos são substituídos por jovens bailarinos que encenam o musical Oklahoma!. Durante a coreografia, Jake acaba morto. Logo depois, podemos vê-lo mais velho, agradecendo um prêmio.

Jake, mais velho, agradecendo um premio no palco.

Suas falas remetem para o célebre discurso que encerra o filme Uma Mente Brilhante (2001). Algum tempo antes, vemos que Jake tem um DVD da obra em casa.

Na plateia, estão os seus pais e Lucy, claramente envelhecidos. A cena termina com um monólogo dele, no quarto da sua juventude. O espaço está repleto de livros, quadros e filmes: esta parece ser uma das chaves para desvendarmos a narrativa complexa.

Estou Pensando em Acabar com Tudo exige um olhar atento do espectador: é preciso procurar pistas, unir informações e preencher os espaços em branco. Numa entrevista ao Indie Wire, em 2020, o diretor da obra enigmática forneceu a seguinte explicação:

O filme fala sobre a experiência de alguém que absorve as coisas que vê , sobre o modo como elas se tornam parte de sua psique...

Podemos depreender que a ação está ocorrendo na mente de alguém que não consegue distinguir entre sonho e realidade. Aquilo que vemos são as alucinações de um homem triste e solitário que usa a ficção como um refúgio para ignorar a própria vida.

Sem laços humanos ou sociais, ele une referências de diversas fontes e cria um romance, uma companheira e até um futuro de grande sucesso para si mesmo. No entanto, dizer que tudo aconteceu na cabeça de Jake não é suficiente para compreendermos esta trama.

Jake e o zelador são a mesma pessoa

O velho zelador que trabalha na escola pode ser visto em várias cenas do filme, sempre descontextualizado e sozinho. Isso nos leva a questionar, diversas vezes, quem é aquele homem e qual é a sua importância para a história que estamos assistindo.

Zelador vendo casal dançando no corredor da escola

Trata-se do motor da ação: enquanto executa tarefas e rotinas solitárias, a sua mente vai produzindo fantasias influenciadas por aquilo que assiste. Por exemplo, a peça Oklahoma!, que está sendo ensaiada pelos alunos do local, inspira o derradeiro encontro entre Lucy e Jake.

Algo semelhante acontece quando ele assiste uma comédia romântica, na qual a protagonista é uma garçonete. Momentos depois, Jake conta para os pais que conheceu a namorada enquanto ela trabalhava numa lanchonete, contradizendo a história que narrou antes.

Zelador da escola assistindo uma comédia romântica.

Ou seja, aquilo que o zelador assiste acaba reformulando os seus devaneios. Uma frase que Jake fala para Lucy parece explicar isso mesmo, justificando o seu amor pelo cinema:

Encho o meu cérebro de mentiras para passar o tempo...

Extremamente desiludido com a vida que leva, ele já não tenta mudar o seu destino. Em vez disso, sucumbe às alucinações e inventa uma namorada.

Vai mais longe, imaginando outra versão de si mesmo: um homem mais jovem, com uma carreira de sucesso e um relacionamento estável. Para ele, "um pensamento pode ser mais real que uma ação".

A obra também cita Uma Mulher sob Influência (1974), um longa-metragem cuja protagonista sofre de distúrbios mentais e cai numa espiral descendente. O personagem demonstra se identificar com ela, no isolamento e na falta de esperança.

Lucy é apenas uma fantasia

Logo no começo do filme, Lucy afirma que namora Jake há algumas semanas, mas sente que o conhece há mais tempo. Durante a viagem de carro, ela se demonstra confusa e não consegue lembrar da última vez que viajou.

Em vários momentos, temos a impressão de que ele consegue ouvir seus pensamentos e até comunicam por telepatia. A casa dos pais de Jake lembra o local onde ela cresceu e quando vê uma foto dele na infância, Lucy acredita que é ela que está no retrato. Mais adiante, a jovem chega a confessar que não sabe mais "onde um começa e o outro acaba".

Lucy com uma expressão confusa no rosto, com Jake do lado

O estado de confusão da moça vai se agravando ao longo da narrativa. As palavras de Jake contribuem para a situação, já que ele vai chamando a namorada por vários nomes diferentes (Lucy, Lucia, Louisa, Amy). Suas ocupações também se alteram: estudante, cientista, poeta, artista visual, garçonete, especialista em cinema...

Na verdade, a personagem é o resultado da mistura de referências que habitam na mente do zelador. O poema que ela declama no carro foi, na verdade, escrito por Eva H.D.; mais adiante, podemos avistar o livro da autora pousado em cima da cama de Jake.

Já os quadros que mostra aos sogros, afirmando que ela mesma pintou, também podem ser vistos nas paredes do quarto. Assim, estamos assistindo à fantasia através da perspectiva de Lucy, que é apenas fruto da imaginação de alguém. É por isso que, ao longo do enredo, ela tem tantas dúvidas acerca da sua identidade e do próprio passado.

Lucy e Jake sentados no sofá, olhando um para cada lado.

Ainda que esta figura tenha sido idealizada por Jake, ele não é capaz de controlá-la. Lucy rejeita o seu parceiro, provando que não conseguirá um final feliz nem sequer no mundo que inventou.

Ao perceber que a alucinação está chegando ao fim, Jake tenta prolongar a viagem. No entanto, quando Lucy e o zelador se encontram no corredor da escola, a mentira tem um desenlace.

Durante o diálogo entre os dois, descobrimos que ela foi criada à imagem de uma mulher que ele viu num bar, mas com quem nunca conversou. A partir daí, o zelador passou a imaginar a vida que poderiam ter tido juntos.

Solidão e desejo de "acabar com tudo"

Sabemos, desde o início do filme, que Lucy "está pensando em acabar com tudo". A personagem fala que aquela parece uma ideia antiga, que se infiltrou na sua cabeça e foi se tornando cada vez mais presente.

Aquilo que nos parece o término de uma relação esconde uma mensagem bem mais sombria: o zelador está pensando em tirar a própria vida. Aliás, não é por acaso que Jake menciona, durante a viagem de carro, o autor David Foster Wallace e o modo como ele morreu (suicídio).

A velhice e a morte dos seus pais, memórias que assistimos durante o jantar, deixaram este homem ainda mais sozinho e sem ligações com o resto da humanidade. Embora demonstrasse grandes capacidades durante a juventude, ele não conseguia se relacionar com os outros. Em algum ponto, passou a sofrer de distúrbios mentais que o levaram a imaginar um mundo aparte.

Zelador indo atrás de um porco no corredor.

O final desta fantasia surge como um modo do zelador confrontar a realidade. Pouco depois, ao entrar no carro, ele começa a tremer e passa mal. Como se assistisse uma retrospectiva da sua vida, vê memórias da sua infância projetadas numa tela de cinema.

Em seguida, sem roupas, passa aseguir um porco pelos corredoresda escola. Esta parece ser uma analogia para uma lembrança sinistra do seu passado: os porcos da fazenda que, mesmo vivos, estavam sendo devorados por larvas.

A cena, cheia de simbologia, deixa uma mensagem em aberto. Contudo, a interpretação mais consensual é que ele teria morrido de infarte, no carro. Já no final do livro, escrito por Iain Reid, isso fica evidente quando o seu corpo é encontrado.

Personagens e elenco

Lucy (Jessie Buckley)

Jovem mulher de cabeços cacheados, com uma expressão enigmática no rosto.

A protagonista da história é chamada por diversos nomes, ao longo do filme: Lucy, Lucia, Amy, entre outros. Suas ocupações e interesses também vão se alterando durante a narrativa. Envolta em mistério, a personagem está confusa e abalada durante toda a história.

Jake (Jesse Plemons)

Homem loiro, sentado, com as mãos cruzadas em cima dos joelhos

Jake é o namorado da protagonista que a convida para viajar e conhecer a casa dos seus pais. Embora eles só estejam juntos há três semanas, ele já pensando num futuro com a sua parceira. Percebendo a frieza e o distanciamento dela, sua conduta se torna cada vez mais controladora, tentando prolongar a estadia, para evitar o regresso e a separação.

Suzie (Toni Collette)

Mulher loira, com expressão zangada

Empolgada com a perspectiva de uma futura nora, a mãe de Jake revela histórias do passado do filho que o envergonham e enfurecem. Em algumas cenas, podemos vê-la mais jovem e energética, mas durante o filme percebemos o modo como vai ficando cada vez mais doente e debilitada.

Dean (David Thewlis)

Homem de boca aberta e olhando para o lado, com espanto.

O pai de Jake é afável, mas também faz perguntas invasivas e tem opiniões controversas. Durante a narrativa, descobrimos que o homem sofre de demência e começa a esquecer tudo que existe ao seu redor.

Zelador da escola (Guy Boyd)

Homem idoso, com roupa de trabalho, limpando uma parede

Presente ao longo de todo o filme, trata-se de um homem que tem um trabalho solitário, como zelador de uma escola. Em vários momentos, percebemos que se distraí com filmes e peças de teatro que acabam mudando o curso da história.

Ficha técnica do filme

Título I’m Thinking of Ending Things (original)
Estou Pensando em Acabar com Tudo (Brasil)
Ano da produção 2020
Dirigido por Charlie Kaufman
Lançamento setembro de 2020
País de origem Estados Unidos da América
Gênero Drama, suspense
Duração 134 minutos
Classificação Maiores de 16 anos

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.