Conto A moça tecelã, de Marina Colasanti: análise e interpretação


Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

A moça tecelã é um conto da escritora ítalo-brasileira Marina Colasanti (1937-) que foi publicado em 2003.

A narrativa se tornou muito conhecida e traz como protagonista uma mulher que tece a própria vida, materializando seus desejos e construindo uma nova realidade para si.

A bela história apresenta um contexto diferente do que é esperado das mulheres e pode ser usada como recurso educativo para tratar conteúdos gramaticais e interpretativos em sala de aula.

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.

Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.

Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.

Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.

Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.

Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.

Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.

Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.

Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponto dos sapatos, quando bateram à porta.

Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando em sua vida.

Aquela noite, deitada no ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.

E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.

— Uma casa melhor é necessária — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.

Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente.

— Para que ter casa, se podemos ter palácio? — perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.

Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.

— É para que ninguém saiba do tapete — ele disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!

Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.

E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.

Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.

Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha.

E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.

A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura acordou, e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.

Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

COLASANTI, Marina: Contos brasileiros contemporâneos . São Paulo: Moderna, 1991.

Interpretação e análise do conto

A moça tecelã traz uma bela narrativa sobre os desejos e a autonomia feminina. Com uma atmosfera de conto de fadas, a autora consegue transmitir a mensagem sobre um universo muito particular que se refere, sobretudo, às mulheres.

A personagem de Colasanti é uma mulher que, através de seus bordados, ou seja, de sua veia criativa, passa a materializar seus anseios. Assim, essa é uma metáfora para mostrar como podemos ser também responsáveis pela criação de nosso mundo e realizações pessoais.

A moça tece e cria uma nova realidade para si, inserindo em sua vida um companheiro que, a princípio, se mostra amoroso e agradável. Entretanto, com o tempo, o homem se torna egoísta, exigindo dela uma dedicação e entrega além de suas forças.

Podemos interpretar essa passagem como uma analogia a relações em que a mulher se doa tanto para agradar o parceiro que esquece de alimentar seus próprios desejos, perde-se no papel de "esposa dedicada" e deixa de olhar para si, entrando em uma espiral de frustrações e infelicidade.

Além disso, no conto, o companheiro se torna agressivo, mantendo a moça numa clausura ao prendê-la em uma torre, é o que chamamos de relacionamento abusivo. A torre é simbólica, existem muitas maneiras de bloquear a liberdade de uma mulher.

Marina Colasanti nos brinda então com um final feliz, exibindo uma mulher que consegue enxergar a situação desfavorável em que se encontra e decide "desfazer" esse laço, esse nó, essa tecitura amorosa. Assim, ela se desliga de seu parceiro e volta às suas origens, resgatando seu lar interno e criatividade genuína.

Quem é Marina Colasanti?

Marina Colasanti é uma renomada escritora que nasceu em 1937 na Eritréia, pequeno país localizado no nordeste da África. Ainda criança veio com a família para o Brasil.

Se formou em artes plásticas e trabalhou como jornalista, tradutora, além de atuar em programas televisivos e publicidade.

Na literatura desenvolveu poesias, contos, crônica e romances, escrevendo também para o público infanto-juvenil, ganhando prêmios importantes e reconhecimento da crítica e do público.

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Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.