Conto Venha ver o pôr do sol, de Lygia Fagundes Telles


Reunido na antologia Venha ver o pôr do sol e outros contos, publicado em 1988, a narrativa breve de Lygia Fagundes Telles tem apenas dois personagens centrais: Ricardo e Raquel, um o antigo casal de namorados. Após o rompimento, Ricardo convida Raquel para um último passeio um tanto quanto sinistro, em um cemitério abandonado. 

Resumo

Ricardo e Raquel mantiveram um relacionamento amoroso durante cerca de um ano e, após o rompimento, Ricardo seguiu magoado com a situação. Havia um claro desnível entre o par: enquanto Raquel dizia gostar de Ricardo, Ricardo afirmava veementemente que amava Raquel. 

Incomodada com a situação financeira do rapaz e com o futuro, Raquel pôs um ponto final na relação e o trocou por um namorado mais bem sucedido na vida. 

Após enorme insistência, Raquel aceitou encontrar-se com Ricardo as escondidas. O lugar sugerido pelo ex-namorado foi um cemitério abandonado e distante. A moça estranhou o lugar escolhido, mas por fim cedeu a pressão e foi ao seu encontro. Ricardo prometeu mostrar o pôr do sol mais bonito do mundo.

Os dois foram conversando cemitério adentro e se afastaram cada vez mais das poucas pessoas que lá haviam. Raquel usou todas as oportunidades que teve para humilhar o ex companheiro sempre sublinhando a sua falta de dinheiro. 

Durante o passeio, Ricardo lembrou Raquel que, na altura em que estiveram juntos, a moça estava lendo o romance A dama das Camélias, do escritor francês Alexandre Dumas. É curioso que esse título específico tenha sido mencionado porque o enredo da obra gira justamente em torno de uma cortesã parisiense que se apaixona por um jovem estudante.

Ricardo permaneceu ouvindo, sem reagir, ao longo do passeio, todas as humilhações que vinham sendo feitas pela moça. Até que chegou a um lugar bastante afastado onde disse haver o túmulo da própria família. O rapaz desabafou:

Sabe, Raquel, andei muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com ela e ficávamos por aí, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.

Raquel estranhou o fato da prima do rapaz, Maria Emília, tão jovem, estar morta. Ele argumentou que a prima havia morrido com apenas quinze anos e que tinha uns olhos verdes parecidos com os de Raquel. Apontou o lugar onde a moça havia sido enterrada, uma capela abandonada e com péssimo aspecto, desceram para a catacumba, onde supostamente estaria o retrato da tal prima. 

Raquel estranhou ao ler a inscrição perto da fotografia da suposta prima, dizia: "Maria Emília, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e falecida...". Era impossível que essa moça tivesse sido prima de Ricardo e andado de mãos dadas com ele. Por fim, Ricardo trancou a ex namorada na catacumba: 

- Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco. - Detesto este tipo de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais estúpida!

- Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois vai se afastando devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.

O final do conto é trágico, Ricardo se afasta cada vez mais do local do crime até ouvir ao longe a voz de Raquel. 

Personagens

Ricardo

Descrito como esguio e magro, o rapaz possuía cabelos crescidos e desalinhados e tinha um ar de estudante. Vivia em uma pensão horrenda, que pertencia a dona Medusa. Pelas caracterizações presentes no conto percebemos que tratava-se de um jovem com poucos recursos financeiros e que manteve um rancor após o final da relação com Raquel, moça que amava perdidamente.  

Raquel

Arrogante, autocentrada, interesseira, Raquel troca o ex namorado Ricardo por um pretendente rico. A jovem a todo momento sublinha a condição financeira de Ricardo e o humilha seguidas vezes. 

Publicação do conto

O conto "Venha ver o pôr do sol" dá nome a antologia, publicada pela primeira vez em 1988, pela editora Ática. O livro vem sendo reeditado até os dias de hoje e já foi adotado em uma série de concursos.   

Primeira edição

Quem é Lygia Fagundes Telles?

Nasceu em São Paulo no dia 19 de abril de 1923, filha de Durval de Azevedo Fagundes (um advogado e promotor público) e de  Maria do Rosário (uma pianista). Advogada, assim como o pai, Lygia Fagundes Telles foi procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo.

Apaixonada pela literatura, começou a escrever aos 15 anos. Em 1954, lançou um de seus grandes livros (Ciranda de Pedra).  Desde então manteve intensa atividade literária. Venceu o prêmio Jabuti em 1965, 1980, 1995 e 2001. Foi eleita imortal (Cadeira nº 16) da Academia Brasileira de Letras em 1985. Em 2005, recebeu o Prêmio Camões, prêmio mais importante da literatura de língua portuguesa. Em 2016, foi indicada para o Prêmio Nobel de Literatura.

Lygia Fagundes Telles

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