Conto A cartomante, de Machado de Assis


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O conto A cartomante, do gênio da literatura brasileira Machado de Assis, conta a história do triângulo amoroso composto por Vilela, Rita e Camilo. Originalmente publicado no jornal Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 28 de novembro de 1884, o conto acabou sendo recolhido mais tarde na coletânea do autor Várias Histórias (1896).

Resumo

Uma paixão proibida

A história começa numa sexta-feira de novembro de 1869. Rita, angustiada com a sua situação amorosa, resolve consultar, às escondidas, uma cartomante que serve como uma espécie de oráculo. Apaixonada pelo amante Camilo, amigo de infância do marido, Rita teme pelos relacionamentos correrem em paralelo. Camilo zomba da atitude da amante porque não acredita em nenhuma superstição.

Rita, Vilela e Camilo eram bastante próximos, especialmente após a morte da mãe de Camilo.

Rita e o marido viviam em Botafogo e, quando conseguia escapar da casa, ia encontrar o amante às ocultas na Rua dos Barbonos.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di feminina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal.

Camilo se sentiu seduzido por Rita e, fato é, que se instalou um triângulo amoroso.

A ameaça das cartas anônimas

O problema surge quando Camilo recebe cartas anônimas de alguém que revela ter conhecimento da relação extraconjugal. Camilo, sem saber como reagir, se afasta de Vilela, que estranha o desaparecimento súbito do amigo.

Desesperado após receber um bilhete de Vilela convocando-o para um encontro em sua casa, Camilo recupera as antigas crenças herdadas da mãe e, assim como Rita, segue em busca da cartomante.

A reviravolta

Após a consulta, Camilo se acalma e vai, tranquilo, encontrar o amigo, crente que o caso não havia sido descoberto.

O twist do conto se dá no último parágrafo quando se revela o final trágico do casal de amantes. Ao adentrar na casa de Vilela, Camilo se depara com Rita assassinada. Por fim, toma dois tiros do amigo de infância, também caindo morto no chão.

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

Análise

A forte presença da cidade no texto

Um traço comum na literatura machadiana é a forte presença da cartografia da cidade no texto literário. Em A cartomante não é diferente, vemos ao longo das páginas uma série de referências às ruas da cidade e aos caminhos que os personagens percorriam habitualmente:

A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

São menções pontuais que ajudam a situar o leitor no tempo e no espaço e, ainda que uma enorme parcela do público não conheça detalhadamente a zona sul do Rio de Janeiro, a narrativa desenha um mapa da cidade a partir dos caminhos feitos pelos personagens. Essa é uma maneira generosa e criativa do escritor dar a conhecer a cidade aos leitores que desconheciam até então o Rio de Janeiro.

A história se encerra em aberto

Outra característica da prosa de Machado de Assis é o fato do escritor brasileiro deixar muitos mistérios suspensos no ar. Em A cartomante, por exemplo, chegamos ao final do conto sem entender como Vilela efetivamente descobriu a traição.

Teria sido a cartomante a contar o caso extraconjugal? O marido teria interceptado uma das cartas trocadas entre os amantes? Como leitores seguimos com as dúvidas em aberto.

Outra pergunta que paira no ar quando escolhemos acreditar que o caso foi descoberto através da leitura de uma das cartas é: se, de fato, a cartomante tinha o dom da vidência, porque ela fez Camilo crer que a história terminaria com um final feliz? Não caberia a ela - que detinha a função de oráculo na narrativa - alertá-lo para o perigo iminente?

A denúncia da hipocrisia

No conto tragicômico de Machado lemos uma série de críticas sociais e uma denúncia da hipocrisia que reinava na sociedade burguesa daquela época. Paira em torno de A cartomante o tema do assassinato, do adultério e da sustentação de um casamento vazio em prol da manutenção da ordem social.

O leitor percebe, por exemplo, como o casamento é baseado na conveniência e não no amor que, de fato, deveria unir um casal. A sociedade burguesa e o matrimônio são, na prosa de Machado, movidos exclusivamente por interesses financeiros.

Mas não é só a personagem Rita que se demonstra hipócrita na história, Camilo mantém igualmente o véu das aparências ao alimentar uma amizade supostamente verdadeira com Vilela quando, na verdade, traía o melhor amigo com a sua respectiva esposa.

A inspiração para a criação de Machado de Assis teria surgido de uma série de casos que vinham sendo denunciados nos jornais daquela época. Vale lembrar que o adultério era um tema recorrente na sociedade burguesa do século XIX.

A complexidade dos personagens

Os personagens machadianos são ricos justamente por se apresentarem como seres complexos, dotados de contradições, com atitudes ao mesmo tempo boas e más, generosas e sórdidas. Não podemos dizer, por exemplo, que no conto há um heroi ou um vilão, todos os protagonistas carregam aspectos positivos e negativos.

Todos interpretam um papel social e são, ao mesmo tempo, vítimas e algozes dos personagens com quem se relacionam. Se Rita, por exemplo, traía o marido, por outro lado cabia a ela carregar o fardo de interpretar o papel de mulher socialmente adequada mantendo um casamento de fachada.

É importante também frisar como, ao longo do texto, não encontramos praticamente nenhum juízo de valor sobre as atitudes apresentadas. O narrador transfere para o leitor, portanto, a responsabilidade de julgar o comportamento dos personagens em questão.

Personagens principais

Rita

Aos trinta anos, é descrita como uma dama formosa, tonta, graciosa, viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Rita é casada com Vilela e amante de Camilo, amigo de infância do marido. Trata-se de uma típica mulher da sociedade burguesa, que mantém um casamento de aparências e cumpre o seu papel social de esposa apesar de estar em um casamento que não a faz feliz.

Vilela

Magistrado, abre um escritório de advocacia no Rio de Janeiro. Tem vinte e nove anos e vive em uma casa em Botafogo. É casado com Rita e cumpre aquilo que é esperado de um homem burguês: provedor, Vilela tem um bom emprego e ostenta uma bela mulher.

Camilo

Funcionário público de vinte e seis anos, Camilo não seguiu o desejo do pai, que queria vê-lo médico. Tem como amigo de infância o advogado Vilela e acaba se apaixonando por Rita, a mulher do melhor amigo, com quem desenvolve um amor clandestino.

A cartomante

Uma mulher com cerca de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos, descritos como sonsos e agudos. A cartomante era tida por Rita - e depois por Camilo - como uma espécie de oráculo capaz de adivinhar o futuro, mas na prática não conseguiu prever os acontecimentos trágicos que resultariam do caso extraconjugal.

Filme A cartomante

Dirigido por Marcos Farias, o filme baseado na história do conto A cartomante foi lançado no ano de 1974. A história se divide em duas partes, a primeira se passa no ano de 1871 (assim como o conto), a segunda já conta com o cenário moderno, da década de 1970. O elenco é composto por Mauricio do Valle, Itala Nandi, Ivan Cândido, Célia Maracajá e Paulo Cesar Pereio.

A cartomante em quadrinhos

A adaptação do conto de Machado para HQ foi feita por Flávio Pessoa e Maurício Dias através de pinturas em aquarela. Os cenários exteriores não são desenhados, ao invés de pinturas vemos fotografias que servem como ambientação do Rio de Janeiro do final do século XIX. As imagens são de Marc Ferrez e Augusto Malta.

A cartomante HQ

A cartomante vira ópera

No dia 31 de julho de 2014, em Brasília, o maestro Jorge Antunes apresentou a sua adaptação do breve conto Machadiano para ópera.

Leitura do conto na íntegra

O conto A cartomante se encontra em domínio público e está disponível na íntegra em versão PDF.

Prefere ouvir? A cartomante também está disponível em audiolivro

O que você sabe sobre Machado de Assis?

Nascido em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, Joaquim Maria Machado de Assis teve origem humilde. Era filho de dois ex-escravos alforriados, o pai era o pintor de paredes Francisco José de Assis e a mãe era a lavadeira açoreana Maria Leopoldina Machado de Assis. Ficou órfão de mãe logo cedo e foi criado pela madrasta Maria Inês.

Mestiço, teve imensa dificuldade para permanecer no ensino formal. Nunca chegou a cursar uma universidade, foi autodidata e começou a trabalhar como tipógrafo aprendiz na Imprensa Nacional. Aos 19 anos tornou-se revisor em uma editora e aos 20 anos foi trabalhar no jornal Correio Mercantil. Aos 21 anos começou a colaborar no Jornal do Rio.

Foi um intelectual bastante ativo, publicou nove romances, cerca de 200 contos, cinco coleções de poemas e sonetos, mais de 600 crônicas e algumas peças teatrais. Trabalhou também como funcionário público.

Casou-se em 1869 com Carolina Xavier de Novais, seu amor até o final da vida. Foi membro fundador e presidente da Academia Brasileira de Letras. Ocupou a cadeira número 23 e escolheu como patrono seu grande amigo José de Alencar.

Morreu no dia 29 de setembro de 1908, aos 69 anos.

machado e carolina
O casal Carolina Xavier de Novais e Joaquim Maria Machado de Assis.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).