10 poemas preciosos de Mario Quintana


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Mario Quintana (1906-1994) foi um dos maiores poetas da literatura brasileira e seus versos reverberam ao longo de gerações.

Autor de poemas simples, acessíveis, que estabelecem com o leitor uma espécie de conversa, Quintana foi o criador de uma série de versos ecléticos que narram a própria origem, falam de amor ou tratam da própria criação literária.

Selecionamos dez dos seus maiores poemas na tentativa de fazer um resumo da sua preciosa obra. Desejamos à todos uma boa leitura!

1. Deixa-me seguir para o mar

Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma... Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar, as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...

toda a tristeza dos rios é não poderem parar!

Nos primeiros três versos o eu-lírico pede que o seu desejo seja plenamente respeitado, isto é, que ele possa ser aquilo que é e que possa ir embora quando desejar.

Logo a seguir, na segunda passagem, o sujeito poético identifica-se com um rio e pinta o cenário ao seu redor (as nuvens sobre si, as margens, as crianças que se divertem na água).

Desejando identificar-se ainda mais com a imagem do rio, o eu-lírico usa a metáfora para dizer que não se pode guardar o que está em movimento. O espelho não guarda a imagem daquilo que reflete (e lembremos que o próprio rio contém uma espécie de espelho, o espelho d'água), assim como impõe o movimento de passagem. O rio, assim como o eu-lírico, flui. Vemos também, através da comparação do sujeito poético, a consciência da passagem do tempo.

2. Matinal

O tigre da manhã espreita pelas venezianas.
O Vento fareja tudo.
Nos cais, os guindastes domesticados dinossauros - erguem a carga do dia.

Profundamente imagético, Matinal é um poeminha poderoso que contém apenas três versos. No primeiro deles o sol é comparado à um tigre, que supostamente observa do lado de fora, tentando entrar em nossas casas através do olhar.

No verso a seguir, vemos outra figura de linguagem uma vez que ao vento é atribuído o gesto de farejar, uma ação característica dos animais. Também aqui a comparação se alinha a do tigre, apresentada na primeira linha da criação.

Por fim, somos transportados para um cais, onde os guindastes - devido à magnitude - são comparados aos dinossauros, uma visão poética de enxergar como as cargas são manipuladas.

Em apenas três versos somos convidados à observar o mundo a partir de um olhar mais criativo e fresco.

3. O tempo

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

O tempo é dos mais famosos poemas de Mario Quintana. Ao longo dos versos o eu-lírico expõe questões relacionadas com a transitoriedade do tempo.

O passar das horas, dos dias e dos anos mobilizam o sujeito poético que reflete, olhando para trás, sobre o que fez da vida.

Em tom de diálogo - com versos livres e uma estrutura informal - ele se direciona ao leitor e procura partilhar um conselho a partir da experiência do vivido.

É como se o eu-lírico não pudesse voltar atrás, mas pudesse partilhar com os mais jovens, a partir da sua sabedoria, aquilo que realmente interessa.

Confira o poema recitado:

Conheça uma análise aprofundada do Poema O Tempo de Mario Quintana.

4. Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

É partindo de duas dicotomias que se constrói o poema Presença: por um lado vemos os pares opositores passado/presente, por outro lado observamos o segundo par opositor que serve como base da escrita (ausência/presença).

Pouco ou nada ficaremos sabendo dessa misteriosa mulher que provoca nostalgia cada vez que a sua lembrança é evocada. Aliás, tudo o que saberemos dela ficará a cargo dos sentimentos originados no eu-lírico.

Entre esses dois tempos - o passado marcado pela plenitude e o presente pela falta - ergue-se a saudade, mote que faz com que o poeta cante os seus versos.

5. Espantos

Neste mundo de tantos espantos,
cheio das mágicas de Deus,
O que existe de mais sobrenatural
São os ateus...

Em somente quatro versos, Mario Quintana levanta a questão da religiosidade e da importância de se crer em algo superior.

O eu-lírico aqui admira como há eventos inacreditáveis e como há quem não acredite em alguma espécie de divindade mesmo diante desses acontecimentos.

O título do poema (Espantos) se repete no primeiro verso e traduz a incredulidade do sujeito poético, que não consegue perceber como alguém não atribui à Deus eventos fascinantes que acontecem no dia a dia.

Nos dois últimos versos há um jogo de palavras, os ateus - que não acreditam no sobrenatural - acabam por ser aquilo que existe de mais sobrenatural.

6. O pobre poema

Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos seqüestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
Poema, menininho condenado,

bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.

E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

O pobre poema é um metapoema, isto é, um poema que fala sobre a sua própria construção. É como se o eu-lírico tirasse o véu que cobre o processo de criação e convidasse o leitor a espreitar o que se passa na oficina da escrita.

O poema aqui parece ganhar vida própria e o eu-lírico, sem jeito, não sabe bem o que fazer com ele.

Comparando o poema com uma criança doente, o sujeito poético parece estar perdido, sem saber como conduzir a situação e como lidar com aquela criatura (o poema) que saiu de dentro dele.

A meio de uma crise de desespero, sem saber o destino daquilo que criou sabendo-o incompatível com a realidade do mundo, o poeta resolve rasgar o poema em muitos pedaços.

7. A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

A Rua dos Cataventos é um soneto, construído a partir de uma linguagem simples e informal. Nos versos vemos o passado do sujeito poético e a explicação de como ele se transformou naquilo que é.

Trata-se, portanto, de uma lírica sobre a transitoriedade do tempo e sobre as mudanças inerentes ao nosso percurso pelo mundo.

O poema é também uma celebração da vida, daquilo em que o sujeito se transformou depois de ter sofrido tudo o que sofreu.

8. Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Como se convidasse o leitor para se sentar ao seu lado para refletir sobre a vida, é assim que Mario Quintana conduz a sua Canção do dia de sempre.

Já no primeiro verso somos orientados a viver um dia de cada vez, extraindo beleza de cada instante e vivendo-o como se fosse único. Conseguindo encontrar encanto no cotidiano a vida fica mais fácil, é o que garante o poeta.

Outra imagem muito cara à lírica de Quintana que também se apresenta no poema é a presença do rio como algo em permanente mudança e que nunca é capaz de ser capturado. O rio é considerado, portanto, uma metáfora da vida, um constante mutação.

9. Poeminha do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Quem é que nunca ouviu falar nesses versinhos de Quintana? O Poeminha do Contra, que reúne apenas quatro versos, é das mais celebradas criações do poeta gaúcho.

Todos nós algum dia já nós relacionamos com uma situação em que nada parece ir à frente. É tendo em conta esse cenário que o eu-lírico se comunica com o leitor, garantindo que os empecilhos serão superados.

Os últimos dois versos apresentam um jogo de palavras: passarão, o futuro do verbo passar, é colocado logo antes de passarinho, um tipo de ave que evoca delicadeza, liberdade.

Conheça também a análise completa do Poeminho do Contra, de Mario Quintana.

10. Relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

O relógio é um objeto que transmite a noção da passagem do tempo. Especialmente o relógio de parede é um utensílio intimamente ligado ao passado, às antigas gerações que o utilizavam dentro do espaço da casa.

Ao longo dos versos, o eu-lírico, para se referir ao relógio de parede, o compara a um agressivo animal doméstico.

Ao invés de colocar em palavras duras e frias o fato dos parentes terem falecido, o sujeito poético prefere, através de um olhar criativo e lúdico, dizer que o tal animal feroz (o relógio) já engoliu três gerações da família.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).