Livro Amar, Verbo Intransitivo de Mário de Andrade


Amar, Verbo Intransitivo foi o primeiro romance do escritor paulistano Mário de Andrade. Publicado em 1927, o livro possui algumas das características marcantes do modernismo e conta a história de Elza, uma alemã de 35 anos, que é contratada como governanta de uma casa para iniciar o filho adolescente na sexualidade.

Modernismo e transgressão

Mário de Andrade foi um dos pioneiros do modernismo no Brasil. Amar, Verbo Intransitivo foi escrito entre 1923 e 1924, pouco depois da Semana de Arte Moderna. O movimento modernista já havia lançado suas bases e preceitos.

A 1ª fase do modernismo brasileiro foi marcada pela transgressão, tanto na forma como no conteúdo, e o romance de Mário de Andrade é um grande exemplo. A começar pelo próprio título da obra pois "amar" é, na verdade, um verbo transitivo.

O enredo do livro se trata de uma família rica e tradicional de São Paulo, que contrata uma governanta alemã para ensinar seu filho adolescente sobre sexo. O tema era tabu numa época em que muitos pais procuravam profissionais do sexo para iniciar seus filhos.

Na forma o romance também é inovador. O escritor conversa diversas vezes com o leitor, explica suas personagens e até discute como seria a aparência de Elza. Outro aspecto formal do livro de Mário de Andrade é o uso de diversas palavras populares e de origem indígena. Esse vocabulário, típico de Mário de Andrade, atingirá seu ápice na rapsódia Macunaíma. 

No posfácio do Amar, Verbo Intransitivo Mário de Andrade escreve:

A língua que usei. Veio escutar melodia nova. Ser melodia nova não quer dizer feia. Carece primeiro a gente se acostumar. Procurei me afeiçoar ao meu falar e agora já estou acostumado a tê-la escrito gosto muito e nada me fere o ouvido já esquecido da toada lusitana. Não quis criar língua nenhuma. Apenas pretendi usar os materiais que a minha terra me dava.

O cenário urbano

O romance de Mário de Andrade tem como principal localidade a cidade de São Paulo, mais precisamente a casa da família na Avenida Higienópolis. O centro da ação se espalha primeiro para algumas cidades do interior de São Paulo. A expansão é feita por meio do carro, o símbolo máximo da modernidade. A família passeia de automóvel por suas propriedades.

Além de São Paulo capital e interior, outro eixo se faz presente no romance: o eixo Rio-São Paulo. Por conta da doença da filha, a família vai ao Rio de Janeiro em férias, em busca de uma temperatura mais alta. Na "Cidade Maravilhosa", a relação cidade-campo se repete quando a família passeia de carro pela Tijuca.

Na década de 20, o eixo Rio-São Paulo representa tudo o que há de mais moderno no país. Um dos maiores trechos do romance de Mário de Andrade é a viagem de volta feita de trem. A rica família de São Paulo acaba por passar diversos momentos de constrangimento durante o trajeto. 

"O automóvel em disparada rolou pelas ladeiras, se lançou nos abismos a pique sobre o mar"

A máquina tem um lugar especial na visão da primeira geração modernista brasileira. No Amar, Verbo Intransitivo a máquina aparece no cenário urbano e nas ligações dele com o campo. O automóvel e o trem aparecem no romance não apenas como meros meios de transporte, mas como símbolos da modernidade.

A origem do brasileiro

Um dos pontos mais importantes de toda a obra de Mário de Andrade é a tentativa de entender o brasileiro e de criar uma origem nacional. Num país com uma imensa mistura de raças e de culturas, compreender o que torna o brasileiro um brasileiro é um trabalho imenso.

Em seu primeiro romance, Mário de Andrade aborda constantemente a questão das raças. O brasileiro é descrito e analisado diversas vezes por meio da alemã Elza, que compara o latino com o germânico. Aos poucos, outras raças vão sendo inseridas no romance.

"O brasileiro misturado não carece mais de criar teogonias transandinas, nem imagina descender de um jabuti notável..." 

O cenário apresentado é de brasileiros, filhos de portugueses, misturados com índios e negros, além de uma série de estrangeiros recém-chegados no Brasil, como alemães, noruegueses, japoneses. De uma forma muito discreta, Mário de Andrade começa a desenvolver a sua teoria da formação do povo brasileiro que será amplamente desenvolvida no Macunaíma.

Carlos, Freud e a personagem

O tema central do romance é a iniciação sexual de Carlos. Mário de Andrade se vale das teorias psicológicas de Freud para mostrar a transformação desse personagem. A mudança da adolescência para a vida adulta envolve outras relações além da sexual.

A relação de Carlos com a sua família vai sendo moldada por meio de seu caráter. A importância de Elza como a tutora de sua iniciação sexual fica marcado pela forma que Carlos se desenvolve. Além do freudismo, Mário de Andrade também se vale das doutrinas do neovitalismo, teoria que defende que os fenômenos vitais são frutos de reações físico-químicas internas.

Mário de Andrade explica:

O fenômeno biológico provocando a individualidade psicológica de Carlos é a própria essência do livro

Resumo da obra

Souza Costa é o pai de uma família burguesa de São Paulo. Com medo de que seu filho se envolva com mulheres fora do controle familiar, contrata uma alemã que tem como trabalho iniciar os meninos burgueses nas atividades sexuais. Elza é então contratada como governanta da casa e, além do seu trabalho "especial", ela também realiza as atividades normais de uma governanta.

A Fräulein, como é tratada pela família, dá aulas de alemão e de música para todas as crianças. Ela se envolve totalmente na rotina da casa, enquanto aos poucos vai seduzindo Carlos. Enquanto isso, as relações familiares vão sendo descortinadas e apresentadas de forma bem banal.

A relação de Carlos com Fräulein vai se tornando mais intensa até que a Dona Laura, a mãe da família, percebe algo a mais no relacionamento dos dois. Souza Costa não havia dito para a esposa qual o real objetivo da vinda da alemã para a casa. A descoberta disso leva a um conflito entre Fräulein, Souza Costa e Dona Laura. Num primeiro momento, Fräulein decide deixar a casa, mas, após uma rápida conversa com Souza Costa, decide ficar.

Fräulein, agora com o consentimento de toda a família, volta a se insinuar para Carlos. Após algumas investidas, Carlos é que começa a avançar para Fräulein. Ela sugere uma teoria sobre o amor para ensinar Carlos sobre os relacionamentos. Por meio dos seus métodos, começa a cumprir a missão de iniciar Carlos sexualmente.

O relacionamento dos dois é intenso, e isso faz parte dos planos de ensino de Fräulein. A lição final é um rompimento abrupto entre os dois. Souza Costa finge pegar os dois em flagrante e "expulsa" Fräulein da casa. Carlos passa um tempo de sofrimento após a separação, porém, a superação do primeiro amor o transforma em um homem.