Livro A Divina Comédia, de Dante Alighieri


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O poema épico escrito pelo autor Dante Alighieri (1265-1321) é um clássico da literatura mundial escrito durante o Renascimento.

A extensa obra, toda composta em versos, é dividida em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Cada uma delas possui exatamente 33 cantos.

A Divina Comédia foi escrita em florentino, no início do século XIV, e pretendeu fazer uma síntese enciclopédica do conhecimento científico e filosófico da Idade Média.

Resumo

O protagonista do livro A Divina Comédia é o próprio poeta Dante Alighieri que percorre uma viagem entre três instâncias completamente distintas: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.

Ao longo do caminho, Dante vai cruzando com amigos e conhecidos, figuras públicas ou do universo pessoal do autor, e debatem sobre os mais variados temas.

A odisseia é extremamente descritiva e contempla imensos detalhes visuais. Enquanto se encontra no inferno, Dante recebe a ajuda do poeta romano Virgílio, que serve como uma espécie de guia.

Virgílio (70 a 19 a.C.), autor dos tempos de Júlio César, foi dos maiores poetas da Antiguidade, tendo escrito o clássico Eneida. Dante era um admirador profundo da poética de Virgílio, por isso é a ele que pede ajuda para percorrer o doloroso caminho.

Quando está no céu, por sua vez, quem realiza o trabalho de acompanhamento é Beatriz, uma musa inspiradora que foi a paixão platônica de Dante durante a adolescência. Beatriz é símbolo do amor divino e é responsável por guiar o poeta para fora da selva.

O poema possui três personagens principais:

  • Dante, o protagonista que personifica o homem;
  • Beatriz, que representa a fé;
  • Virgílio, que pode ser considerado o símbolo da razão.

Análise

A Divina Comédia é basicamente a história da conversão de um pecador ao caminho de Deus. Os versos sublinham a necessidade de se seguir o caminho do bem e da ética.

O protagonista é o símbolo do ser humano vulgar e representa o cidadão comum, que tem dúvidas, hesita, é tentado pelo mal.

Ao mesmo tempo, Dante não se vê exatamente como uma criatura humilde e, no Canto IV (do Inferno), se coloca lado a lado com grandes escritores:

Olha o que vem à frente qual decano
dos outros três, segurando uma espada;
ele é Homero, poeta soberano;
o satírico Horácio junto vem,
terceiro é Ovídio e último Lucano.
Desde que cada um deles detém
os mesmos dotes co’os quais fui saudado,
recebo sua honraria como convém.
Assim o belo grupo vi formado
da escola do senhor do excelso canto
cujo vôo, como d’águia, é incontestado.
Longo foi seu colóquio, e entretanto
acenavam a mim, e eu vi o prazer
no sorriso do Mestre meu, porquanto
o privilégio iriam me conceder
da acolhida na sua comunidade.
E assim fui sexto entre tanto saber

Assistimos ao longo do poema como o protagonista é alvo de tentações e como contorna os obstáculos que, aos poucos, vão se apresentando pelo percurso. Nesse sentido considera-se A Divina Comédia como uma obra moralizante, isto é, uma obra que reafirma os valores cristãos (embora apresente alguns elementos pagãos).

O próprio papa Bento XV, em declaração oficial, sublinhou a importância da composição de Dante:

"Embora não seja escasso o número dos grandes poetas católicos que unem o útil ao agradável, em Dante é singular o fato de que, fascinando o leitor com a variedade das imagens, com a vivacidade das cores, com a grandiosidade das expressões e dos pensamentos, ele o arrasta ao amor da sabedoria cristã. (...) A sua Comédia, que merecidamente recebeu o título de divina, mesmo nas várias ficções simbólicas e nas recordações da vida dos mortais sobre a terra, não visa a outro fim senão a glorificar a justiça e a providência de Deus"

Apesar de ser uma criação de forte elogio à Igreja, A Divina Comédia também pode ser lida como uma crítica à instituição em determinados momentos específicos.

Embora alguns críticos apontem a publicação como sendo uma epopeia, não se pode considera-la efetivamente como uma porque não se trata de uma história ficcional de um herói que batalha pelo seu povo ou pela sua região.

O correto seria classificá-la como um texto didático alegórico (didático porque tem como fim o ensinamento e alegórico porque é construída a partir de símbolos).

História da publicação

O livro, redigido em italiano, foi publicado em três partes. A primeira delas foi divulgada em 1317, a segunda em 1319 e a terceira após a morte do autor. Estima-se que Dante tenha dedicado catorze anos da sua vida a composição do livro (iniciou em 1307 e concluiu o trabalho pouco antes de sua morte, em 1321).

Trata-se de um poema épico narrativo rigorosamente simétrico, cada parte possuindo 33 cantos, com aproximadamente 40 a 50 tercetos. O número três é essencial para a construção do poema. Os versos são escritos a partir de uma técnica original conhecida como terza rima, onde as estrofes de dez sílabas, com três linhas cada rimam de uma determinada maneira específica.

Originalmente o livro chamava-se apenas Comédia, tendo ganhado o título composto apenas posteriormente, em 1555, na edição veneziana composta por Ludovico Dolce.

Quem primeiro observou que o nome deveria ser A Divina Comédia, pelos assuntos que o livro abordava e pela qualidade com que o trabalho foi feito, foi o poeta Giovanni Boccaccio (1313-1375).

Em Trattatello in laude di Dante, composto em 1357, Boccaccio explicita que a obra de Dante, que considerava brilhante, merecia título mais adequado. Somente em 1555, na impressão preparada por Ludovico Dolce, o título A Divina Comédia ficou eternizado para sempre.

Sobre o autor Dante Alighieri

Escritor fundamental da literatura medieval, Dante Alighieri nasceu em Florença, na Itália, no ano de 1265 (estima-se que tenha sido no dia 25 de maio), filho de dona Bella e de Aldighiero Alighieri.

Dante ficou órfão muito jovem. A mãe faleceu quando o menino era ainda criança e o pai quando o jovem tinha apenas dezoito anos.

Apesar de ter sido casado e tido filhos (pelo menos três), Dante nutria um amor platônico por Beatrice de Folco Portinari, uma amiga de quando tinha 9 anos que veio a reencontrar em 1283. Beatrice casou-se em 1287 com o banqueiro Simone dei Bardi e Dante casou-se com Gemma Donati dois anos antes, em 1285. Beatrice morreu subitamente em 1290, para desespero do escritor italiano.

Dante foi bastante consagrado em vida, tendo sido celebrado como o maior poeta da região da Toscana. De acordo com R. W. B. Lewis, autor de Dante:

"Já em 1321, as duas primeiras partes da Comédia encontravam-se transcritas e à disposição de leitores havia alguns anos, e Dante era aclamado em quase toda a Toscana como o maior poeta da região."

Sua obra-prima, A Divina Comédia, foi profundamente celebrada. Harold Bloom, um dos mais duros e importantes críticos literários, escreveu em O cânone ocidental que:

“o poema de Dante possui uma qualidade inominável, talvez tão grande quanto os melhores versos de Hamlet ou Rei Lear."

Além de escritor, Dante Alighieri atuou como político, tendo pertencido ao partido moderado. Ele estudou na universidade de Bologna nos anos em torno de 1285. Foi exilado de Florença por suspeita de corrupção, improbidade administrativa e oposição ao papa quando ocupou cargos públicos. Durante o exílio viveu em Forlì, Verona, Arezzo, Veneza, Lucca, Pádua, Paris, Bologna, Verona e Ravenna.

O autor morreu aos 56 anos, no dia 14 de setembro de 1321, em Ravenna, na Itália.

Dante
Representação de Sante Alighieri

Principais obras de Dante Alighieri

A Divina Comédia foi a obra-prima de Dante e o trabalho que mais lhe ocupou tempo e dedicação, no entanto o escritor italiano também redigiu alguns outros livros, confira abaixo:

La Vita Nuova

Coletânea de poesias publicado em 1292 em homenagem ao seu amor platônico, Beatrice.

Convivio

Incompleta, a obra reúne quatro tratados que pretendiam reunir todo o conhecimento da época.

De Vulgari Eloquentia

Obra mais sucinta onde Dante defende veementemente a língua italiana.

De Monarchia

Escrito em 1310, é um tratado sobre política onde Dante defende a total separação entre a Igreja e o Estado.

Algumas obras de arte inspiradas em A Divina Comédia

O clássico da literatura italiana serviu de inspiração para uma série de artistas plásticos. Conheça abaixo as principais obras inspiradas em A divina comédia:

Quadro
Dante e seus Poemas, tela pintada por Domenico di Michelino em 1460.
Rodin
Porta do Inferno, escultura de Rodin.
William-Blake
Tela de William Blake.
Salvador Dalí, Purgatório, “Arachne”.
Salvador Dalí, Purgatório, “Arachne”.
Ilustração de Sandro Botticelli para o Inferno.
Ilustração de Sandro Botticelli para o Inferno.

Leia A Divina Comédia na íntegra

O livro A Divina Comédia está disponível para download em português (tradução feita pelo brasileiro José Pedro Xavier Pinheiro) em formato PDF.

A Divina Comédia, o filme

Realizado pelo diretor de cinema português Manoel de Oliveira, o filme inspirado no clássico de Dante foi lançado em 1991.

O longa metragem recebeu no Festival de Veneza o Grand Special Jury Prize e foi nomeado para receber um Golden Lion.

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).