Frase Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas


Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A frase original, escrita em francês, “Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé” é retirada do clássico da literatura mundial Le petit prince (em português O Pequeno Príncipe).

A primeira tradução para o português (feita pelo imortal Dom Marcos Barbosa) gerou como resultado a famosa frase cristalizada no inconsciente coletivo: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas

Significado e contexto da frase

A frase em questão é dita pela raposa para o Pequeno Príncipe no capítulo XXI e é uma das passagens mais citadas da obra.

O ensinamento começa algumas páginas antes, quando o rapazinho pergunta para a raposa o que quer dizer "cativar".

A raposa responde que cativar significa criar laços, passar a ter necessidade do outro, e exemplifica:

Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

O Pequeno Príncipe menciona então uma rosa que o havia cativado. Com o tempo, é o rapazinho cativa a raposa.

Na hora de ir embora, a raposa dá alguns ensinamentos para o jovem por quem já havia se afeiçoado, entre eles diz que "O essencial é invisível aos olhos".

Como sabia que o Pequeno Príncipe nutria profundo afeto pela rosa, a raposa faz questão de lembrá-lo que "Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante."

E logo a seguir cita a pérola: 

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

O autor quer dizer que aquele que é amado passa a ser responsável pelo outro, por aquele que nutre o afeto por si. O ensinamento sugere que devemos ser prudentes com os sentimentos daqueles que nos amam.

A reflexão serve tanto para o bem quanto para o mal: se você gera sentimentos bons, é encarregado por aquilo que emana, se gera sentimentos maus, também deve ser culpabilizado por isso. 

A sentença afirma que quando você faz alguém gostar de si, terá de corresponder aquilo que o outro viu na sua pessoa. Uma das máximas fundamentais do Pequeno Príncipe é que devemos cuidar uns dos outros, zelando pelo bem estar recíproco.

É de se sublinhar na frase o termo "eternamente", que parece assustador a primeira vista. A verdade é que, na frase, o advérbio significa "constante", o que quer dizer que, se você conquista o sentimento do outro, é responsável por cuidar, proteger e dedicar-se, sem prazo definido.

A reflexão proporcionada por Exupéry se opõe a noção individualista de cada um por si e fomenta a reciprocidade, a consciência coletiva de que somos responsáveis uns pelos outros, especialmente pelos que cruzam o nosso caminho e nos enxergam com admiração.

Apesar da tradução brasileira ter escolhido transformar o verbo francês "apprivoisé" em "cativar", na realidade a tradução mais literal seria "domar" ou "domesticar". 

Dom Marcos Barbosa optou por tirar uma licença poética e adaptou "apprivoisé" para "cativar", um verbo que pode ser tido como sinônimo de encantar, seduzir, atrair, enfeitiçar, fascinar e envolver.

O verbo escolhido por Dom Marcos Barbosa envolve entrega, necessidade um do outro, dedicação. No caso do livro de Exupéry, o Pequeno Príncipe é cativado pela rosa, o que quer dizer que ele se tornará responsável por ela. 

Edições brasileiras do clássico francês

A publicação traduzida para o português do Brasil foi feita em 1954, pelo monge beneditino Dom Marcos Barbosa, com base na edição francesa de 1945.

Em 2013, a editora Agir, a pioneira que havia lançado a primeira publicação, lançou uma nova tradução, realizada pelo poeta premiado Ferreira Gullar. A nova tradução teve como referência a edição original de 1943. 

Gullar disse que o trabalho "foi um convite da editora, nunca tinha pensado em traduzir este livro porque já tem uma tradução, que eu li quando era jovem".

O desejo, segundo o novo tradutor, era atualizar a escrita "para que o leitor de hoje se sinta mais identificado com o modo de narrar do livro e das falas."

A tradução realizada pelo poeta, se diferencia, por exemplo, da feita por Barbosa, no que desrespeito a famosa frase em questão.

Dom Marcos Barbosa afirmava que "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Ferreira Gullar, por sua vez, optou por uma construção distinta, usando o tempo passado do verbo: "Você é eternamente responsável por aquilo que cativou".

De acordo com Gullar,

É uma questão de opção pessoal, cada um tem lá o seu jeito. O que se comunica melhor, o que fica mais coloquial - porque a gente quando fala não fica rigorosamente seguindo as normas gramaticais, não é isso? Tem que ter uma conciliação aí. Eu não sou a favor do desrespeito às normas gramaticais, mas a pessoa não pode ficar numa rigidez que perca a espontaneidade.

Edição traduzida por Dom Marcos Barbosa e edição traduzida por Ferreira Gullar.
Edição traduzida por Dom Marcos Barbosa e edição traduzida por Ferreira Gullar.

A respeito das duas traduções, separadas por cerca de sessenta anos de intervalo, Gullar confessou:

Só se justificou uma nova tradução porque a linguagem coloquial do livro perde a atualidade. Com o passar do tempo, certas expressões vão saindo de uso. Mas procurei traduzir diretamente do texto francês do Saint-Exupéry.

Após 1 de janeiro 2015, quando o livro entrou em domínio público, outras editoras apostaram em novas traduções. Ivone C.Benedetti assinou a tradução para a L&PM: 

Edição traduzida por Ivone
Edição traduzida por Ivone C.Benedetti.

Frei Betto foi responsável pela tradução proposta pela Geração Editorial: 

Edição traduzida por Frei Beto.
Edição traduzida por Frei Beto.

Gabriel Perissé traduziu para o Grupo Autêntica:

Edição
Edição traduzida por Gabriel Perissé.

Laura Sandroni foi a escolhida pela Editora Global para traduzir: 

Edição traduzida por Laura Sandroni.
Edição traduzida por Laura Sandroni.

A tradução do poeta Mario Quintana foi divulgada pela Melhoramentos:

Edição traduzida por Mario Quintana.
Edição traduzida por Mario Quintana.

No total, no Brasil já foram vendidos mais de 2 milhões de exemplares do livro. Até 2014, a única editora autorizada a reproduzir o livro era a Nova Fronteira (Ediouro).

Após ter caído em domínio público, O Pequeno Príncipe ganhou diversas edições das mais variadas editoras. Lembramos aqui apenas algumas: L&PM, Geração Editorial, Grupo Autêntica, Melhoramentos e Global. 

Adaptação para os quadrinhos

O livro de Saint-Exupéry foi adaptado para os quadrinhos por Joann Sfar. No Brasil, a tradução utilizada foi a do Dom Marcos Barbosa.

Quadrinhos.

Exposição sobre O Pequeno Príncipe

Realizada em 2016, a exposição "O Pequeno Príncipe, uma história de Nova York", foi uma homenagem norte-americana ao clássico mundial da literatura infantil.

The Little Prince foi lançado nos Estados Unidos em 1943, três anos antes da edição francesa. Pouca gente sabe que o livro foi escrito em Nova Iorque porque o autor encontrava-se exilado na cidade. Antoine de Saint-Exupéry viveu durante dois anos na América, antes da Segunda Guerra Mundial. 

A curadora, responsável pela exposição, Christine Nelson, contou que o Exupéry, apesar de ter um apartamento ao sul do Central Park, escrevia em diversos pontos da cidade. 

Exposição.
Registro feito na exposição "O Pequeno Príncipe, uma história de Nova York".

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Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.