Frase O homem é o lobo do homem


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Thomas Hobbes (1588-1679), autor do clássico Leviatã, foi o responsável por divulgar a célebre frase "O homem é o lobo do homem", inserida no seu livro mais famoso.

A frase original, no entanto, traduzida para o latim como "homo homini lupus", pertence ao dramaturgo romano Plautus (254-184 a.C.).  

A oração, metafórica, quer dizer que o homem é um animal que ameaça a sua própria espécie. O que a máxima sublinha é a capacidade destruidora do ser humano contra os seus. 

Significado de "O homem é o lobo do homem"

A frase usa uma linguagem metafórica, isso é, faz uma comparação com o comportamento animal para ilustrar aquilo que o autor acredita ser a conduta do ser humano de modo geral.

Explorador por essência, aproveitador dos mais fracos, o homem teria por instinto o impulso de usurpar o que é do outro, colocando-se acima dos demais e tendo como prioridade máxima o bem estar individual ao invés do coletivo. 

Na frase vemos sintetizada a ideia de que o homem é o seu próprio inimigo provocando lutas sangrentas e, muitas vezes, matando os seus semelhantes. 

Para compreendermos melhor o sentido da frase convém retomar o contexto de onde ela foi retirada. Hobbes acreditava (e deixou registrado esse pensamento em Leviatã) que o ser humano precisava viver em conjunto numa sociedade regida por regras e normas. Aquilo que o autor chamou de contratos sociais era essencial para a sobrevivência humana pois, caso contrário, chegaríamos a uma circunstância extrema de barbárie.

O filósofo inglês foi adepto do absolutismo e achava que uma massa de pessoas deveria ser regida por um rei para não correr o risco de deixar a natureza animal do homem à solta. Hobbes julgava que só haveria paz coletiva se os homens se deixassem comandar por um soberano.

A máxima popularizada pelo filósofo inglês possui algumas variações como, por exemplo, "o homem é o lobo do próprio homem" e "o homem é um lobo para os seus semelhantes".

Primeira aparição da oração

O primeiro autor da máxima "O homem é o lobo do homem" foi o dramaturgo romano Titus Maccius Plautus (254-184 a.C.), que teria nascido supostamente (segundo o gramático Festus), no nordeste da Itália central. Plautus havia inserido a oração em questão em uma das suas comédias intitulada Asinaria

A frase completa seria: Lupus est homo homini, não homo, quom qualis sit non novit. A tradução para o português geraria algo do gênero: "Um homem para outro é como um lobo e não um homem, quando ele não sabe de que tipo ele é."

A peça também ficou conhecida como A comédia dos burros ou Comédia do Asno. A história gira em torno de Demêneto, um senhor avarento que desejava de toda forma ludibriar a sua própria mulher, que era rica, para conseguir dinheiro.  

Titus Maccius Plautus foi um dos grandes responsáveis por estabelecer o drama verdadeiramente romano em língua latina. Ele teve bastante influência das peças gregas, muitas vezes tendo sido acusado de apenas tê-las adaptado.

Plautus supostamente teria usurpado praticamente todos os seus enredos de dramaturgos gregos do final do século IV e do início do século III a.C., seus autores prediletos eram Menandro e Philemon.

Pouco se sabe do dramaturgo (o nome, a data e o local de nascimento são especulações de estudiosos posteriores). Também quase nada se tem certeza especificamente sobre as suas peças (incluindo Asinaria) porque muitos dos manuscritos se perderam, foram corrompidos ou estavam incompletos. 

A divulgação da frase

Apesar da autoria ter sido atribuída à Platus, o verdadeiro responsável pela divulgação da sentença foi Thomas Hobbes, filósofo inglês que a incluiu no seu livro Leviatã, publicado em 1651, onde exercitou aquilo que considerava ser a sociedade ideal.

Sua maior inspiração para a composição da obra teria sido justamente a República Romana.

Frontispício datado de 1651da edição original do clássico de Hobbes.
Frontispício datado de 1651 da edição original do clássico de Hobbes.

Hobbes defendia veementemente as monarquias e achava que o ser humano precisava ser regido por uma série de leis e normas para não regressar ao estado de violência que caracterizaria a espécie. Em Leviatã essas ideias pró governos absolutistas aparecem reproduzidas com total clareza e convicção.

Segundo Hobbes, essencialmente o "homem é o lobo do próprio homem", ou seja, ele é capaz de colocar em risco a sua própria espécie.

Por instintos de autopreservação e egoísmo, o ser humano tenderia a entrar em conflitos e guerras que ameaçariam os seus próprios irmãos.

De acordo com o filósofo inglês:

“como tendência geral de todos os homens, [há] um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte”

Quem foi Hobbes?

De origem pobre, especula-se que o filósofo Thomas Hobbes tenha nascido em Westport (na Inglaterra), no dia 5 de abril do ano de 1588.

Para ter acesso à instrução, Hobbes teria recebido apoio financeiro fornecido pela nobreza. O autor foi um ferrenho defensor do absolutismo durante um período histórico onde o poder se via ameaçado pela crescente presença dos liberais.

Imagem de Thomas Hobbes.
Imagem de Thomas Hobbes.

A obra de Hobbes foi bastante influenciada pelos trabalhos dos filósofos René Descartes, Galileu Galilei e Francis Bacon e é um dos grandes marcos da cultura ocidental.

Além de filósofo, o pensador foi também matemático e teórico político.

Hobbes faleceu em 4 de dezembro de 1679 aos 91 anos.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.