Filme Sociedade dos Poetas Mortos


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society), dirigido por Peter Weir, foi um dos filmes mais marcantes do cinema norte-americano da década de noventa e tece uma severa crítica ao sistema de ensino tradicional.

Em termos de público, o longa metragem foi uma das 10 maiores bilheterias de 1990 nos Estados Unidos e uma das cinco maiores internacionais.

Em termos de crítica, Sociedade dos Poetas Mortos arrebatou o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Resumo do filme

Sociedade dos Poetas Mortos se passa nos Estados Unidos, no ano de 1959, numa instituição de ensino tradicional chamada Academia Welton. O filme é contado através de uma ordem cronológica linear.

A escola de ensino médio com cem anos de história tem como ideal didático o ensino rígido e inflexível como o que se vê no universo militar. A filosofia de ensino está baseada em quatro pilares: a tradição, a honra, a disciplina e a excelência. O próprio uniforme dos alunos já demonstra essa realidade: são fardas repletas de brasões e formalidades.

[Atenção, o texto a seguir contém spoilers]

John Keating (Robin Williams) foi um ex-aluno da Academia Welton que agora regressa a instituição de ensino para atuar como professor. Entre os seus primeiros ensinamentos para o grupo de alunos está a seguinte frase:

"Carpe diem. Aproveite o dia, meninos. Façam suas vidas extraordinárias"

Já na sua primeira aula, John (Robin Williams) ensina aos alunos o conceito que irá transformar as vidas dos jovens. A frase latina Carpe diem, por sinal, entrou para a história do cinema e ficou entre as 100 frases mais citadas em longas metragens de acordo com o American Film Institute.

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"Carpe diem. Aproveite o dia, meninos. Façam suas vidas extraordinárias"

Aos poucos o professor John (Robin Williams), através da leitura de poesias e clássicos da literatura, incute nos alunos a beleza da vida, ensinando-os a perceberem o mundo a partir de perspectivas diferentes.

O professor tem um método de ensino bastante particular e fora da caixa. Durante uma das suas aulas, o exercício proposto é a composição de poemas livres, espontâneos, que tratem da vida e do universo de cada um.

Em outra oportunidade, o professor pede que os alunos subam em cima da mesa para aprenderem a olhar a vida a partir de um novo ângulo.

Mesa

Aos poucos os alunos vão se interessando cada vez mais pelas aulas e pela metodologia do professor de literatura. Um dos alunos, Neil Perry (Robert Sean), fascinado com o trabalho de Keating (Robin Williams), vai a procura do anuário onde o agora professor esteve. Para a sua surpresa, encontra no registro do então aluno a anotação Sociedade dos Poetas Mortos.

Quando pressionado pelos alunos após a descoberta do anuário, o professor conta sobre como funcionava a sociedade (onde e quando costumavam se reunir, como interagiam...). Os alunos ficam super curiosos com a revelação e resolvem reproduzir aquilo que se passava anos atrás frequentando os mesmos lugares.

Entusiasmado com o novo projeto secreto, Neil (Robert Sean) resolve tornar-se ator. No entanto, a sua criação rigorosa e cerceadora parece ser um impedimento para aquilo que sente ser a sua vocação. O garoto é especialmente reprimido pelo pai, um sujeito linha dura e castrador. O destino de Neil (Robert Sean) acaba por ser trágico, ele decide dar cabo da própria vida.

Como alguém tem de ser responsabilizado pela trágica sina de Neil (Robert Sean), o diretor resolve punir o professor Keating (Robin Williams) demitindo-o e dissolvendo a Sociedade dos Poetas Mortos.

A cena final, no entanto, prova que nem mesmo a demissão poderá apagar as experiências vivenciadas por aqueles adolescentes. Quando o professor vai a sala de aula buscar as suas coisas no armário é recebido calorosamente e fica claro que as marcas deixadas permaneceram naqueles que lá estiveram.

Análise e contexto histórico do filme

No filme Sociedade dos Poetas Mortos assistimos como cenário uma escola que mais parece um quartel ou seminário, um ambiente repleto de regras, super fechado e conservador.

As famílias que lá inscreviam os seus filhos estavam à procura de uma instituição de excelência que pudesse prover um futuro acadêmico e profissional garantido.

Já nas primeiras cenas do filme percebemos como alguns aspectos da vida e da juventude são atemporais e eternos, e experimentamos assistir no longa metragem as alegrias e as angústias típicas da adolescência.

Apesar de contar uma história situada no final dos anos cinquenta e ter sido filmado no fim da década de oitenta, as problemáticas apresentadas permanecem profundamente atuais.

Com a chegada do novo professor de literatura, percebemos como há escondido naquele ambiente castrador a necessidade de criar novos mundos, estimulando a descoberta e não só transmitindo conteúdo puro e duro.

Dando ferramentas para explorarem a própria inquietação, o professor Keating (Robin Williams) procura inserir os alunos no mundo ao mesmo tempo que demonstra como eles são ferramentas para transformar o próprio mundo. Trata-se de uma ação simultaneamente pedagógica e política.

O professor sente que tem o dever de motivar aqueles jovens criados para serem limitados e afirma que está a serviço da vida e não da tradição, como quer fazer crer a didática promovida pela Academia Welton.

O professor Keating (Robin Williams) é o único naquele ambiente hermético capaz de dar voz ao que os alunos sentem e pensam.

Já nas suas primeiras aulas, Keating ensina a noção de finitude e impulsiona os alunos a tomarem consciência de que há um fim, sugerindo que vivam intensamente cada momento.

"Carpe diem" é o maior ensinamento do professor que perpassa todo o filme. Ou seja, faça de hoje um dia extraordinário até porque pode não haver amanhã. O professor procura conduzir a rebeldia daqueles jovens tão reprimidos, tirando proveito da energia de enfrentamento da juventude para criar um espaço novo e mais livre.

Essa libertação acaba provocando consequências irreversíveis e assistimos uma história de sobrevivência e de resistência tanto no que diz respeito ao professor quanto aos próprios alunos.

Apesar do filme ter sido lançado em 1990, a história é contada no ambiente norte-americano dos anos 1959. Vale a pena relembrar o contexto histórico onde os meninos da Academia Welton viviam imersos.

O ano de 1959 foi atribulado internacionalmente: Fidel Castro conseguiu destituir o ditador Fulgencio Batista no dia 1 de janeiro, os russos mandaram duas sondas para a lua e vivíamos o auge da guerra do Vietnã.

No campo dos direitos civis norte-americanos, Martin Luther King (que viria a receber o Nobel da Paz) já começava a ser ouvido na defesa do movimento negro.

O período em que o filme foi lançado, por sua vez (o princípio da década de noventa), também foi bastante interessante do ponto de vista político. Há de se ressaltar dois eventos específicos: a queda do muro de Berlim (e a reunificação alemã) e o protesto na Praça da Paz Celestial (uma forte manifestação contra o regime chinês).

Como é possível notar, o período de lançamento do filme foi marcado por forças de fechamento da sociedade que entravam em conflito com forças de abertura. Nesse sentido o longa metragem está em perfeita sintonia com o seu tempo histórico, transmitindo para um ambiente controlado - a escola - inquietações que eram sentidas naquela geração.

Bastidores

A história foi inspirada no professor Samuel Pickering e na vivência com os seus alunos de uma escola particular que foram estimulados a partir de uma nova orientação pedagógica. O filme foi inteiramente gravado em uma escola privada em St.Andrews (Delaware, Estados Unidos).

O roteirista Tom Schaulman foi um dos alunos do professor Samuel na Montgomery Bell Academy (Nashville, Tennessee). O professor de literatura acabou mais tarde se tornando docente na Universidade de Connecticut.

Uma curiosidade: Sociedade dos Poetas Mortos foi o primeiro roteiro de longa metragem assinado por Tom Schulman. Até então ele havia feito apenas duas produções para a televisão e um curta-metragem.

Cartaz

Personagens principais do filme

John Keating (Robin Williams)

Ex-aluno da Academia Welton que regressa para atuar como professor. Dá aulas de literatura a partir de um novo ideal pedagógico, estimulando os alunos a serem mais criativos, idealistas e independentes.

O personagem simboliza a vontade de experimentar o novo, de promover abertura em um ambiente tão castrador como o da escola.

Nolan (Norman Lioyd)

É o orgulhoso diretor da Academia Welton. Diante da morte de Neil Perry se vê obrigado a tomar uma atitude e acaba por demitir injustamente o professor Keating.

Nolan representa os valores conservadores e repressores, ele seria uma caricatura de uma educação tradicional e antiquada.

Neil Perry (Robert Sean)

Um dos alunos mais entusiasmados com as aulas do professor John Keating. É ele que vai a procura do anuário onde se encontra o registro do professor e descobre a existência da Sociedade dos Poetas Mortos. O garoto tem uma criação bastante repressora especialmente devido a rigidez do pai.

Neil representa a juventude com todas as suas inquietações naturais - o desejo de experimentar o novo, de se libertar, de não obedecer calado as autoridades que lhe são dadas.

Prêmios

Sociedade dos Poetas Mortos levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro Original e venceu o César de Melhor Filme Estrangeiro.

O longa também foi indicado no Oscar para Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator.

No Globo de Ouro também ouve indicação para Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator e Melhor Roteiro.

Assista o filme na íntegra

O filme Sociedade dos Poetas Mortos encontra-se disponível na íntegra dublado em português:

Ficha técnica

Título original Dead Poets Society
Lançamento28 de fevereiro de 1990
Orçamento$16.400.000,00
DiretorPeter Weir
RoteiristaTom Schulman
GêneroComédia dramática
Duração2h 20m
Elenco principalRobin Williams, Ethan Hawke, Robert Sean Leonard

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).