Fausto de Goethe: significado e resumo da obra


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O poema dramático do alemão Johann Wolfgang von Goethe começou a ser composto em 1775. A obra foi publicada em duas partes: a primeira em 1808 e a segunda em 1832, já postumamente.

Esta célebre adaptação de uma história popular se foca na figura de Henrique Fausto, um homem que é extremamente inteligente, mas ainda não possui tudo aquilo que quer.

Ele permanece insatisfeito até ao dia em que conhece um demônio chamado Mefistófeles. Após fazerem um acordo, Fausto acaba vendendo a própria alma, a troco de ver seus desejos realizados.

Fausto e Mefistófeles: personagens principais

Fruto do imaginário alemão, o mito de Fausto surge em diversas narrativas; a versão de Wolfgang von Goethe é, sem dúvida, uma das mais célebres.

A lenda foi inspirada em Johann Georg Faust (1480 – 1540), um mago e astrólogo do Renascimento alemão que chegou a ser apontado como alquimista.

Retrato de Johann Georg Faust
Retrato de Johann Georg Faust, pintado por um artista desconhecido.

Várias histórias foram surgindo na cultura popular em torno dele: além de ser acusado de bruxaria, acreditavam que teria feito um pacto com o diabo para ter acesso aos poderes do mundo oculto.

Na lenda, assim como no texto de Goethe, Fausto é um homem sábio e de sucesso que pretende aprender e experienciar o máximo que puder. No entanto, ele se encontra permanentemente frustrado com as limitações humanas e procura também respostas no universo mágico.

Seu caminho sofre uma reviravolta quando ele conhece um demônio que vem à Terra para corromper a sua alma, depois de ter feito uma aposta com Deus.

Mephistopheles voando sobre Wittenber por Eugène Delacroix.
Mefistófeles voando sobre Wittenber, por Eugène Delacroix.

Mefistófeles é uma figura da mitologia medieval que aparecia frequentemente nas obras da época, como uma das possíveis representações do mal. Com o tempo, ele passou a ser associado ao Diabo e confundido como outros personagens semelhantes, como Lúcifer.

Não é através da força, mas graças à esperteza e negociação, que ele consegue "comprar" a alma do protagonista. Após segui-lo até casa, sob a forma de um cão, o demônio aparece diante do estudioso com uma proposta que ele não consegue recusar.

Quando recebe uma resposta afirmativa do humano, que não resiste a tudo que lhe oferece, ele consegue realizar o seu principal objetivo: Fausto cai em tentação.

Significado e interpretação da obra

Considerada uma das maiores obras da literatura alemã, Fausto se tornou uma referência que simboliza o dilema do Homem na modernidade. Desde o começo, aquilo que motiva Fausto é a busca incessante do conhecimento, procurando compreender totalmente o mundo no qual se encontra.

Quando conhece Mefistófeles, ele encontra uma forma de superar as limitações da sua humanidade e ter acesso a saberes e experiências que jamais iria obter de outro modo. Para isso, ele precisa fazer uma escolha moralmente questionável: vender a alma a troco do conhecimento.

Contudo, o pacto de Fausto com o demônio terminará no momento em que ele se sentir verdadeiramente satisfeito. Ou seja, de alguma forma, ele precisa ser movido por essa sede contínua de progresso e informação, caso contrário tudo chegará ao fim.

Na tentativa de entender a existência e os mistérios do universo, o protagonista acaba desafiando as leis divinas. Ainda que Deus tenha apostado que ele não venderia a alma, por acreditar na pureza da humanidade, Fausto acabou sendo corrompido pelo seu próprio espírito inquisitivo.

Mesmo assim, depois de todos os seus feitos ao lado de um demônio, o protagonista se arrependeu e conquistou a salvação, lembrando que o perdão divino é possível para aqueles que realmente o procuram.

Resumo de Fausto

A obra-prima de Goethe está dividida em duas partes que são bastante distintas. Na primeira, o autor se baseia na lenda de Fausto e acompanha, sobretudo, a vida amorosa do personagem.

Já na segunda, a atenção se volta para as explorações do protagonista pelo desconhecido, refletindo sobre as várias matérias do conhecimento humano que vigoravam na época.

Parte I

O enredo do poema dramático começa no céu, onde Deus conversa com Mefistófeles. Embora o Criador goste de Fausto, devido à sua enorme sede de saber, o demônio aposta que é capaz de conquistar a alma do humano.

Um grande estudioso das mais diversas temáticas, o protagonista é um homem que se encontra deprimido e desencorajado pelas próprias falhas. Sem saber que rumo seguir, ele chega mesmo a ponderar o suicídio.

Para acalmar as ideias, decide dar um passeio com Wagner, o seu assistente, e começam a ser seguidos por um cachorro. No regresso, o animal entra na sua casa, revela sua identidade oculta e Mefistófeles faz uma proposta.

Ele se oferece para vai servir Fausto até ao final da sua vida, mas depois irá levá-lo para o Inferno, onde se tornará um diabo e estará ao seu serviço para o resto da eternidade. No entanto, existe outra condição: se algum dia o homem se sentir plenamente feliz e desejar que um momento seja eterno, tudo terminará.

Os dois selam o pacto com uma gota de sangue e passam a andar juntos. Acompanhado pelo demônio, Fausto vai consultar uma feiticeira e bebe uma poção que o transforma num homem mais jovem e atraente.

Em seguida, ele vê uma moça passar e tenta falar com ela, mas é rejeitado. Percebendo que Margarida será difícil de conquistar, pede o seu auxílio do novo companheiro. Assim, Mefistófeles começa a planejar formas de juntá-los e consegue marcar um encontro, subornando uma vizinha da família.

Como a mãe de Margarida é um obstáculo para a intimidade dos dois, o protagonista entrega à namorada uma poção para adormecê-la, mas a mulher acaba morrendo. Depois disso, a jovem engravida e seu irmão, Valentim, desafia Fausto para um duelo, no qual é assassinado. A partir daí, perseguida pela culpa, ela começa a ser assombrada por um espírito.

Perturbada, Margarida resolve afogar o bebê que acabou de nascer e é presa. Fausto pede a Mefistófeles para irem até à prisão libertá-la, mas ela se recusa a partir. Nesse momento, eles podem escutar a voz de Deus, anunciando que a mulher foi perdoada pelos seus pecados.

Parte II

Nesta segunda parte da obra, a ação ocorre fora do mundo que Fausto conhecia e com o qual estava acostumado. Aqui, a narrativa acompanha um novo amor, mas se foca sobretudo em questões relacionadas com o saber e as ciências humanas.

Repleta de referências clássicas, nesta parte podemos encontrar reflexões que contemplam a História, a política e a filosofia. A ação começa com a presença de Mefistófeles e de Fausto junto de um Imperador. O demônio ajuda o soberano a ultrapassar a crise do reino, aconselhando que substitua o uso de ouro por notas, para incentivar o consumo.

Eles também assistem a uma parada de carnaval em Florença, da qual participam figuras de relevo como Dante Alighieri. Pensando acerca do ideal de beleza feminino, o protagonista se apaixona pela imagem de Helena de Troia, personagem emblemática do imaginário grego.

Fausto parte em busca dela e, pelo caminho, encontra vários monstros da mitologia, chegando a viajar até ao Hades, o mundo dos mortos. Finalmente, consegue derrotar o exército de Menelau, marido de Helena. Os dois se encontram e se apaixonam, gerando um filho que morre durante a infância; Helena desaparece depois disso.

Embora fique pensando nas duas companheiras que perdeu, logo o protagonista se distrai, desejando conquistar terras. Seu maior objetivo passa a ser o poder, pretendendo até dominar a própria natureza. Aconselhando o Imperador, ele o ajuda a vencer uma guerra e recebe um alto cargo, obtendo até um castelo.

Cada vez mais ganancioso, Fausto recebe um castigo dos deuses e fica cego. Dominado pela culpa, ele ganha consciência dos seus atos e deseja que aquele momento de clareza dure para sempre. Assim, o pacto é quebrado e o protagonista morre.

Mefistófeles tenta levar a alma dele para o Inferno, mas é interrompido pelo aparecimento de um coro de anjos que carregam Fausto até ao Paraíso. Assim, podemos concluir que o seu arrependimento valeu a pena e o protagonista conseguiu a redenção divina.

Leia a obra na íntegra

Fausto já é Domínio Público e pode ser lido em PDF.

Outras adaptações da história

O mito de Fausto se tornou um arquétipo que foi reproduzido em inúmeras manifestações culturais, servindo de modelo ou paradigma para criações de literatura, cinema, teatro, música, etc. No entanto, a primeira obra dedicada à lenda foi escrita pelo alemão Johann Spiess em 1587.

Entre os anos de 1908 e 1933, o português Fernando Pessoa também concebeu a sua versão da narrativa, com a peça de teatro Fausto: Uma Tragédia Subjectiva.

Já em 1947, Thomas Mann lançou o romance Doutor Fausto, que reinventa mais uma vez o enredo, desta vez protagonizado por um compositor chamado Adrian Leverkühn.

Sobre Wolfgang von Goethe

Johann Wolfgang von Goethe (1749 — 1832) foi um escritor, estadista e pensador alemão que se destacou principalmente no campo da literatura e ficou lembrado como um dos maiores nomes do Romantismo.

Retrato de Wolfgang von Goethe
Retrato de Wolfgang von Goethe, pintado por Joseph Karl Stieler em 1828.

Nascido numa família abastada, teve acesso a uma educação primorosa que se estendia às mais diversas disciplinas. Além da sua paixão pelas letras, ele também falava vários idiomas e tinha um grande interesse pelas ciências naturais.

A produção literária de Goethe é vasta e abrange vários gêneros: poemas, romances, novelas e ensaios científicos, entre outros. Sua escrita, ao longo dos séculos, virou uma referência internacional, influenciando autores e obras de diversas épocas.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.