Chico Buarque: biografia e legado (músicas e livros)


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Chico Buarque de Hollanda (1944) é um artista multifacetado: escritor, compositor, letrista, dramaturgo, cantor. Intelectual e ativo politicamente, seu legado traduz também uma preocupação social e uma intervenção no coletivo.

Vencedor do Prêmio Camões 2019, Chico foi o décimo terceiro brasileiro a receber o prêmio e o primeiro músico a ser laureado na história da premiação.

Escritor, letrista, criador: Chico é, definitivamente, um dos maiores nomes da classe artística brasileira.

Biografia de Chico Buarque

Origem

Francisco Buarque de Hollanda nasceu no Rio de Janeiro - mais precisamente na Maternidade São Sebastião -, no Largo do Machado, no dia 19 de junho de 1944.

Ele é filho de um importante historiador e sociólogo (Sérgio Buarque de Hollanda) com uma pianista amadora (Maria Amélia Cesário Alvim). O casal teve sete filhos, Chico é o quarto deles.

Chico Buarque

Apesar de ter nascido no Rio, mudou-se com a família, em 1946, quando ainda era pequeno, para São Paulo porque seu pai foi nomeado diretor do Museu do Ipiranga.

A família se mudou novamente, dessa vez deixando a capital paulista, quando Sérgio foi convidado para lecionar História na Universidade de Roma em 1953.

Interesse pela música

Filho de mãe pianista, a música sempre esteve muito presente na casa da família, que era ponto de encontro de músicos e intelectuais como Vinícius de Moraes.

Quando tinha apenas cinco anos, Chico já começava a se interessar por música demonstrando nessa época fascinação por cantores de rádio. O menino partilhava seu interesse especialmente com a irmã, Miúcha. Foi ao lado dela e das irmãs Maria do Carmo, Cristina e Ana Maria, que começou a compor pequenas óperas ainda no princípio da adolescência.

As primeiras criações de Chico foram marchinhas de carnaval e operetas.

Chico Buarque

A primeira apresentação de Chico como cantor foi em um show foi no Colégio Santa Cruz no ano de 1964.

Sua canção inaugural foi a músicaencomendada Tem mais samba, feita para o musical Balanço de Orfeu. Em 1965, Chico lançou o seu primeiro compacto e no ano a seguir compôs pela primeira vez para crianças as canções da peça O patinho feio.

Formação

Em 1963 Chico entrou para a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. Três anos mais tarde abandonou o curso não tendo se formado arquiteto.

A oposição durante a ditadura militar

Chico foi um dos grandes opositores do regime militar e usou as suas canções para expressar a insatisfação com a orientação política que havia assolado o país. Muitas das vezes o compositor precisou usar pseudônimos para fugir dos censores.

Perseguido pela censura, sua primeira canção que voltou para trás foi Tamandaré, que pertencia ao show Meu refrão. Chico teve outras canções impedidas de circular e chegou a ser levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

censura
Registro de censura feita pela ditadura em composição de Chico Buarque

Com medo de uma represália mais violenta, Chico optou por se exilar em Roma, onde ficou até março de 1970.

Assim que regressou ao Brasil foi fortemente celebrado pelos amigos e pela imprensa e continuou com a sua atividade intelectual.

Literatura - Chico Buarque escritor

Além de amante da música, Chico sempre foi um leitor voraz que explorou a literatura russa, brasileira, francesa e alemã. O jovem passou a escrever as suas primeiras crônicas no jornal estudantil do Colégio Santa Cruz.

Interessado em literatura, Chico permaneceu escrevendo ao longo de toda a vida não só letras de canções como também livros ficcionais.

Livros publicados

As obras publicadas do autor são:

  • Roda viva (1967)
  • Chapeuzinho amarelo (1970)
  • Calabar (1973)
  • Fazenda modelo (1974)
  • Gota d'Água (1975)
  • Ópera do malandro (1978)
  • A bordo do Rui Barbosa (1981)
  • Estorvo (1991)
  • Benjamin (1995)
  • Budapeste (2003)
  • Leite derramado (2009)
  • O irmão alemão (2014)
  • Essa gente (2019)

Prêmios literários recebidos

Como escritor literário Chico Buarque de Hollanda recebeu três prêmios Jabuti: um com o livro Estorvo, outro com Budapeste e o último com Leite Derramado.

Em 2019, arrebatou o importante Prêmio Camões.

Trilha sonora de Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

Em 1965, Chico Buarque foi o responsável por musicar o longo poema Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. A peça recebeu uma série de críticas positivas e chegou a ser apresentada no V Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França.

Leia mais sobre a obra Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto.

Vida pessoal

Em 1966 Chico conheceu sua futura companheira e mãe das suas filhas, a atriz Marieta Severo, apresentada pelo amigo Hugo Carvana.

O casal, que ficou junto por mais de três décadas - entre 1966 e 1999 -, teve três meninas: Sílvia, Helena e Luísa.

Músicas

Chico Buarque é autor de clássicos da MPB e, com uma sensibilidade ímpar, muitas vezes conseguiu imprimir através das letras das suas canções os sentimentos femininos, retratos amorosos ou mesmo registros da história recente do país.

Algumas das suas canções mais consagradas são:

  • A Banda
  • Roda Viva
  • Geni e o Zepelim
  • O meu amor
  • Futuros amantes
  • Meu caro amigo
  • O que será
  • Mulheres de Atenas
  • João e Maria
  • Quem te viu, quem te vê

Canções políticas

Apesar de você

A música Apesar de você fez enorme sucesso entre o público por tecer uma crítica velada à ditadura militar e se tornou um hino de resistência.

Surpreendentemente a censura não impediu o lançamento da canção. Somente mais tarde, quando já havia vendido mais de 100 mil cópias, a canção foi impedida de circular tendo a gravadora sido fechada e os discos retirados das lojas.

A música venceu o tempo e acabou sendo regravada por uma série de cantores.

Cálice

Outra canção com contornos semelhantes à Apesar de você foi Cálice - inclusive em termos sonoros. Escrita em 1973 e lançada cinco anos mais tarde devido à censura, a criação denuncia a ditadura militar e constrói igualmente uma crítica social. A composição foi lida como uma canção de protesto contra a violência e a repressão que assolava o país durante os anos setenta.

Saiba mais sobre a letra da música Cálice, de Chico Buarque.

Construção

Gravada em 1971, Construção se debruça sobre o cotidiano de um trabalhador da construção civil. A letra mostra o dia-a-dia desse homem não nomeado - um trabalhador assíduo e empenhado - e do seu trágico destino.

Morto por um acidente na obra, o seu desaparecimento é encarado com naturalidade dando a entender a sua insignificância social. Há aqui uma clara desumanização e uma severa crítica social.

Conheça uma análise aprofundada da canção Construção, de Chico Buarque.

Para além de Apesar de você, Construção e Cálice, uma série de criações de Chico Buarque marcaram esse período questionador dos anos de chumbo como as composições Deus lhe pague, Roda viva e Cotidiano.

Canções de amor

Além de ser um fabuloso retratista do seu tempo, Chico também soube traduzir em palavras sentimentos universais como o amor, a paixão, o enamoramento e a entrega.

João e Maria é um exemplo desse tipo de composição. O amor é retratado a partir de um olhar quase infantil, pensado como se fosse um conto de fadas com princesas e cavalos. Aqui o eu-lírico masculino declara todo o seu afeto pela amada.

Com uma abordagem completamente distinta, mas também com versos igualmente apaixonados, nos arrepiamos com a canção Futuros amantes, música criada em 1993 que retrata um amor paciente, atemporal, que aguarda para ser maturado e desabrochar.

O afeto é resistente e supera todas as barreiras, vence o tempo e os imprevistos que se intrometeram na vida dos amantes.

Assim como João e Maria e Futuros amantes, Chico é o nome por trás de outras belas composições trocadas entre apaixonados como O meu amor, Eu te amo e Falando de amor.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).