Caillou e o que aprendemos com ele


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Caillou é uma animação voltada para crianças em idade pré escolar baseada numa série de livros franceses escritos por Christine L'Heureux (com ilustrações de Hélène Desputeaux). A adaptação para a série de tv foi produzida no Canadá e gerou mais de 200 episódios.

O programa que faz sucesso desde 1997, ano em que foi lançado, tem como protagonista Caillou, um menino de quatro anos bem humorado, curioso e divertido com o qual aprenderemos uma série de lições importantes para a vida. Confira algumas delas!

1. Desenvolver empatia

A história contada por Caillou promove um sentimento de identificação por parte das crianças. Ela ajuda o espectador a desenvolver empatia, a se colocar no lugar do outro e compreender os seus dramas e frustrações.

Os episódios retratam temas corriqueiros como o primeiro dia de aula, o medo de realizar uma nova tarefa, a dificuldade de fazer novos amigos e a troca de escola.

São eventos que a princípio parecem simples, mas que podem se revelam verdadeiros dramas para uma criança em idade pré-escolar, como, por exemplo, tomar banho:

2. Estimular a imaginação e a diversão

Por ser uma produção voltada para crianças muito pequenas, os episódios fazem uso de muitas cores para capturarem a atenção do espectador e estimularem a imaginação.

Caillou é um curioso nato, que se interessa especialmente por carros e dinossauros. Além dessa dupla paixão ele também gosta de tocar piano e antes já havia tocado um tambor feito pela avó.

Como se trata de um desenho animado infantil, o programa não poderia deixar de ter um viés didático. Com o pequeno menino aprendemos a conhecer o novo e a explorarmos aquilo que ainda não experimentamos.

Um exemplo da sua fértil imaginação - assim como habitualmente é a das crianças - é o fato de Caillou se imaginar em situações completamente inusitadas.

Um exemplo simples pode ser quando o menino brincava com a amiga no parquinho e, de repente, se imaginou príncipe e princesa medieval:

Caillou imaginação
A imaginação de Caillou o leva para realidades imaginárias

3. Viver com superação

Caillou estimula o espectador a passar pelos vários estágios de desenvolvimento.

O pequeno menininho de quatro anos ensina a superar os pequenos desafios da vida, como por exemplo uma ida ao dentista:

Como observamos no trecho acima, estamos falando aqui de acontecimentos pequenos e mundanos que acontecem na vida de todos nós, adultos, mas para os quais o garoto ainda precisa aprender a se habituar.

4. Aproximar a família

Assistimos como a relação de Caillou com a mãe (Doris), o pai (Boris) e a irmã caçula (Rosie) é muito próxima e permeada de profundo afeto e carinho.

A família está sempre junta e ao lado deles é que o menino aprende lições importantes que levará para a vida.

família Caillou
A família de Caillou composta por pai, mãe e irmã caçula está sempre unida

O menino também é muito ligado aos avós, que moram perto e interagem muito com ele.

Com Caillou aprendemos a importância da família e somos estimulados a reconhecer o amor que temos pela nossa.

5. Desenvolver o autoconhecimento

Caillou está se descobrindo e aprendendo a entrar em contato pela primeira vez com sentimentos complicados como o ciúme, o medo, a euforia, a ansiedade e a decepção.

A série estimula as crianças pequenas a partilharem, a cederem e a lidarem com a frustração. Caillou afinal transmite uma mensagem de positividade e respeito não só para com o outro mas sobretudo para consigo próprio.

É o que se percebe, por exemplo, quanto o menino resolve abraçar a tarefa de aprender a nadar, que a princípio não parece ser nada fácil:

6. Respeitar as diferenças

O texto francês que deu origem a Caillou estimula a igualdade entre as crianças de origens diferentes. O programa apresenta diversidade étnica e um munto sem preconceitos.

Caillou é muito próximo de amigos de diferentes cores, hábitos e etnias.

Caillou amigos
No desenho de Caillou não há preconceitos: ele tem amigos com as mais variadas características físicas e psicológicas

7. Estar sempre cercado de amigos

Os amigos fazem toda a diferença na vida de Caillou. Além de partilharem as mesmas dúvidas e inquietações típicas da idade, os meninos vão amadurecendo juntos e ajudando uns aos outros.

Com Sarah, de 6 anos, Caillou aprende a ler e a escrever. Com Clementine aprende a ser destemido - a menina não tem medo de nada e está sempre em busca de novas aventuras, ela nos estimula a conhecer e a explorar o novo.

Além das meninas ele também é muito próximo de Léo, seu melhor amigo, os dois são inseparáveis. Relembre, por exemplo, o aniversário de Leo e a sua festa especial:

A série nos ensina a importância de criar laços de afeto e de manter a proximidade com os amigos.

De onde surgiu o nome Caillou?

A autora da série de livros escolheu o nome do seu protagonista como forma de homenagear a psicóloga Françoise Dolto.

Na sua prática clínica, a psicóloga desenvolveu uma filosofia que procurava respeitar as crianças como pessoas.

Um exemplo do método empregado por Françoise pode ser observado no fato dela pedir às crianças que levassem pedras como pagamento simbólico das consultas.

Por que Caillou é careca?

Na história contada nos livros inicialmente Caillou é um bebê de nove meses. Conforme o menino foi crescendo, a editora não quis mudar a sua imagem para o personagem continuar se mantendo reconhecível.

Caillou bebê
Caillou começou a ser retratado como um bebê de nove meses, por isso não tinha cabelo. Depois de crescer os autores não quiseram alterar essa característica que consideraram como uma marca da sua identidade

Há várias teorias em torno do tema da falta de cabelo do menino (há quem diga até que o garoto teve câncer), mas a editora afirmou que se trata apenas de uma opção estética.

O fato de Caillou não ter cabelo também o torna diferente e faz com que as crianças se habituem a diferença.

Críticas à série Caillou

Apesar de receber muitos elogios, Caillou também tem sido alvo ao longo dos anos de uma série de críticas especialmente de pais que discordam dos valores transmitidos pelo programa.

Alguns pais acusam o protagonista de ser um rapaz por vezes birrento e mimado. Em muitas ocasiões o personagem se joga no chão, chora desnecessariamente, chuta, grita, exige que a sua vontade seja satisfeita - cenas que alguns pais dizem despertar nos filhos maus hábitos.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).