Livro O Meu Pé de Laranja Lima


Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Publicado em 1968, o livro infanto-juvenil autobiográfico O meu pé de laranja lima foi o maior sucesso do escritor brasileiro José Mauro de Vasconcelos.

Traduzido para mais de cinquenta línguas, a criação influenciou gerações no Brasil e no exterior. 

Após o estrondoso sucesso, foram feitas adaptações para o cinema e para a televisão (uma novela realizada pela Tupi e duas pela Band). 

Resumo da história

O livro, dividido em duas partes, é protagonizado pelo menino Zezé, um garoto comum, de cinco anos, natural de Bangu, periferia do Rio de Janeiro. 

Muito esperto e independente, Zezé é conhecido pela sua malandrice e é ele quem narrará a história em O meu pé de laranja lima.

Devido a sua sagacidade, diziam que Zezé "tinha o diabo no corpo". O garoto é tão esperto que acaba, inclusive, aprendendo a ler sozinho. A primeira parte do livro se debruça sobre a vida do menino, as suas aventuras e as consequências dela. 

“aprendia descobrindo sozinho e fazendo sozinho, fazia errado e fazendo errado, acabava sempre tomando umas palmadas.”

A vida de Zezé era boa, tranquila e estável. Ele vivia com a família em uma casa confortável e tinha tudo o que era preciso em termos materiais, até que o pai perdeu o emprego e a mãe viu-se obrigada a trabalhar na cidade, mais especificamente no Moinho Inglês. Zezé tem três irmãos: Glória, Totoca e Luís.

Empregada em uma fábrica, a mãe passa o dia no trabalho enquanto o pai, desempregado, fica em casa. Com a nova condição da família, eles se veem obrigados a mudar de casa e passam a ter uma rotina muito mais modesta. Os Natais fartos de outrora foram substituídos pela mesa vazia e por uma árvore sem presentes. 

Como a nova casa tem um quintal, cada filho escolhe uma árvore para chamar de sua. Como Zezé é o último a escolher acaba ficando com um modesto pé de laranja lima. E é a partir desse encontro com uma árvore franzina e nada vistosa que surge uma forte e genuína amizade. Zezé batiza o pé de laranja lima de Minguinho:

— Quero saber se Minguinho está bem.
— Que diabo é Minguinho?
— É o meu pé de Laranja Lima.
— Você arranjou um nome que se parece muito com ele. Você é danado para achar as coisas.

Zezé arruma também um apelido para Minguinho que dizia em privado, nos momentos em que sentia mais ainda mais afeto pela árvore: Xururuca. É Minguinho, ou Xururuca, que escuta as suas aventuras e os seus lamentos.

Como vivia aprontando, era recorrente Zezé ser pego em uma das travessuras e apanhar dos pais ou dos irmãos. Depois lá ia ele se consolar com Minguinho, o pé de laranja lima. 

Numa das vezes que aprontou, Zezé apanhou tanto da irmã e do pai que precisou ficar uma semana sem ir à escola.

Além de Minguinho, o outro grande amigo de Zezé é Manuel Valadares, também conhecido como Portuga, e é sobre ele que girará a segunda parte do livro. O Portuga tratava Zezé como filho e dava toda a paciência e afeto que o garoto não recebia em casa. A amizade entre os dois não era partilhada com o resto da família.

Por uma fatalidade do destino, o Portuga é atropelado e morre. Zezé, por sua vez, adoece. E para piorar a vida do menino ainda decidem cortar o pé de laranja lima, que vinha crescendo mais do que era suposto no quintal. 

A situação muda quando o pai arranja um emprego depois de um longo período em casa. Zezé, entretanto, apesar dos seus quase seis anos, não se esquece da tragédia:

“Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de Laranja Lima.” 

A narrativa é extremamente poética e cada travessura do menino é contada a partir do olhar doce da criança. O ponto alto da história acontece ao final da narrativa, quando Minguinho dá a sua primeira flor branca:

Eu estava sentado na cama e olhava a vida com uma tristeza de doer.
— Olhe, Zezé. Em suas mãos existia uma florzinha branca.
— A primeira flor de Minguinho. Logo ele vira uma laranjeira adulta e começa a dar laranjas.
Fiquei alisando a flor branquinha entre os dedos. Não choraria mais por qualquer coisa. Muito embora Minguinho estivesse tentando me dizer adeus com aquela flor; ele partia do mundo dos meus sonhos para o mundo da minha realidade e dor.
— Agora vamos tomar um mingauzinho e dar umas voltas pela casa como você fez ontem. Já vem já.

Interpretação e análise da história

Apesar da sua pouca extensão, o livro O meu pé de laranja lima toca em temas chave para se pensar sobre a infância. Percebemos ao longo das breves páginas como os problemas dos adultos podem acabar por negligenciar as crianças e como as crianças reagem a esse abandono se refugiando em um universo particular e criativo.

Notamos também o caráter transformador do afeto quando essa mesma infância negligenciada é abraçada por um adulto capaz de acolher o até então abandonado (no caso da história contada por José Mauro de Vasconcelos essa personalidade é representada pelo portuga, sempre disposto a partilhar com Zezé).

O fato do livro ter rapidamente se expandido para além das fronteiras brasileiras (Meu pé de laranja lima foi logo traduzido para 32 idiomas e publicado em outros 19 países) demonstra que os dramas vividos pela criança no subúrbio do Rio de Janeiro são comuns a inúmeras crianças ao redor do globo - ou ao menos aludem a situações semelhantes. Como é possível perceber, a negligência infantil parece ter um caráter universal.

Muitos leitores se identificam com o fato do menino escapar do cenário real esmagador rumo a um imaginário que é um manancial de possibilidades felizes. Vale lembrar que Zezé não era apenas vítima de violência física como também psicológica por parte dos mais velhos. As piores punições vinham, inclusive, de dentro da própria família.

O livro abre os olhos do leitor para o lado sombrio da infância, muitas vezes esquecido diante da enorme quantidade de material que tem como tema a infância idealizada. 

Personagens principais

Zezé

Um menino travesso, de cinco anos, morador de Bangu (subúrbio do Rio de Janeiro). Super independente e curioso, Zezé vivia aprontando e apanhando quando era descoberto.

Totóca

O irmão mais velho de Zezé. É interesseiro, mentiroso e por vezes extremamente egoísta.

Luís

Irmão caçula de Zezé, era chamado pelo menino de Rei Luiz. É o grande orgulho de Zezé por ser independente, aventureiro e muito autônomo.

Glória

Irmã mais velha e muitas vezes protetora de Zezé. Está sempre a postos para defender o caçula.

Pai

Frustrado com o desemprego e desiludido com a incapacidade de sustentar a família, o pai de Zezé acaba sendo impaciente com os filhos. Também costuma beber com muita frequência. Quando tenta disciplinar as crianças faz uso da força e algumas vezes se arrepende das surras que dá. 

Mãe

Extremamente cuidadosa e preocupada com os filhos, a mãe do Zezé quando percebe a situação financeira complicada da família arregaça as mangas e vai trabalhar na cidade para sustentar a casa.

O portuga

Manuel Valadares trata Zezé como um filho e enche o menino de carinho e atenção que muitas vezes o garoto não recebe em casa. Era rico e tinha um carro de luxo que dizia para a Zezé que pertencia aos dois (afinal de contas os amigos dividem, dizia ele)

Minguinho

Também conhecido como Xururuca, é o pé de laranja lima do quintal, grande amigo e confidente de Zezé.

Contexto histórico no Brasil

No Brasil vivíamos tempos duros nas décadas de 1960 e 1970. A ditadura militar, implantada em 1964, tinha uma cultura repressora, que perpetuava o medo e a censura. Em junho de 1968, ano da publicação do livro O meu pé de laranja lima, foi realizada no Rio de Janeiro A Passeata dos Cem Mil. No mesmo ano também foi promulgado o AI-5 (Ato Institucional número 5), que proibia qualquer manifestação que fosse contrária ao regime. Foram anos duros marcados pela perseguição de opositores políticos e pela tortura.

Culturalmente a televisão passou a ter um papel importante na sociedade uma vez que conseguiu entrar nas casas das mais diferentes classes sociais.  

Na música vivíamos a Tropicália e o período dos festivais, lembre-se do marco inicial, o Festival de Música Popular realizado em 1967 pela TV Record. Grandes nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Jorge Bem, Gal Gosta e Maria Bethânia surgiram nessa época.

No mundo do futebol convém lembrar a Copa de 1970, a primeira a ser transmitida a cores pela televisão. O Brasil venceu e levou para a casa a taça do tricampeonato. 

Filme

Em 1970, Aurélio Teixeira dirigiu a adaptação cinematográfica de O meu pé de laranja lima.

Adaptações para a TV, as novelas da Tupi e da Band

Rede Tupi, 1970

A primeira adaptação do livro para a TV foi realizada pela Tupi, com roteiro de Ivani Ribeiro e direção de Carlos Zara. A novela foi ao ar entre 30 de novembro de 1970 e 30 de agosto de 1971 no horário das 18h. Nessa primeira versão, Haroldo Botta interpretou Zezé e Eva Wilma interpretou Jandira. 

Eva Vilma no papel de Jandira e Haroldo Botta no papel de Zezé.
Eva Vilma no papel de Jandira e Haroldo Botta no papel de Zezé.

Rede Bandeirantes, 1980

Dez anos mais tarde, a Band aproveitou o texto de Ivani Ribeiro e levou ao ar a segunda adaptação do clássico infanto-juvenil. A nova versão, dirigida por Edson Braga, foi ao ar entre 29 de setembro de 1980 e 25 de abril de 1981. O protagonista escolhido para viver Zezé foi Alexandre Raymundo.

Rede Bandeirantes, 1998

Depois do sucesso da primeira edição, a Band decidiu fazer uma nova versão de O meu pé de laranja lima. O primeiro capítulo foi ao ar no dia 7 de dezembro de 1998.

Essa adaptação foi assinada por Ana Maria Moretszohn, Maria Cláudia Oliveira, Dayse Chaves, Izabel de Oliveira e Vera Villar, com direção de Antônio Moura Matos e Henrique Martins. Dessa versão participaram atores como Regiane Alves (interpretando Lili), Rodrigo Lombardi (interpretando Henrique) e Fernando Pavão (interpretando Raul).

Caio Romei interpreta Zezé na adaptação para a TV realizada em 1998.
Caio Romei interpreta Zezé na adaptação para a TV realizada em 1998.

Quem é José Mauro de Vasconcelos?

José Mauro de Vasconcelos nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro (em Bangu), no dia 26 de fevereiro de 1920.

Aos 22 anos, dotado de imensa criatividade e ânimo literário, deu início a sua carreira literária com o livro Banana Brava. Como não podia se dedicar integralmente a literatura, trabalhou como garçom, instrutor de boxe e operário.

Teve uma vida produtiva literária farta, seus livros foram reeditados inúmeras vezes, traduzidos para o exterior e alguns ganharam adaptação para o audiovisual. Em 1968, publicou o seu maior sucesso de público e crítica: Meu Pé de Laranja Lima.

A respeito da sua rotina criativa, José Mauro dizia:

"Quando a história está inteiramente feita na imaginação é que começo a escrever. Só trabalho quando tenho a impressão de que o romance está saindo por todos os poros do corpo. Então vai tudo a jato"

Além de ter vivido para a escrita, José Mauro também trabalhou como ator (recebeu inclusive o Prêmio Saci de Melhor Ator e de Melhor Ator Coadjuvante).

Faleceu no dia 24 de julho de 1984, aos 64 anos, na cidade de São Paulo. 

Leia na íntegra

O livro O meu pé de laranja lima encontra-se disponível para download em formato PDF.

Conheça também

Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.