Amazônia: 7 poemas vindos do "pulmão do mundo"


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Mais do que nunca, e pelos piores motivos, o mundo inteiro está começando a despertar para a importância da floresta Amazônica e o seu valor incalculável.

Proteger e conservar a Amazônia é uma questão de sobrevivência, não só de toda essa biodiversidade, mas também do próprio planeta!

Em jeito de homenagem, reunimos alguns poemas de autores da região, que ilustram um pouco do seu encanto. Através dos versos de várias gerações, podemos conhecer elementos da fauna, da flora, lendas e costumes. Confira!

1. Iara, de Benjamin Sanches (1915 -1978)

Surgiu do leito do rio sem margens
Cantando a serenata do silêncio,
Do mar de desejos que a pele esconde,
Trazia sal no corpo inviolável.

Banhando-se no sol da estranha tarde
Cabelo aos pés mulher completamente,
Tatuou nas retinas dos meus olhos,
A forma perfeita da tez morena.

Com a lâmina dos raios penetrantes,
Arando fortemente as minhas carnes,
Espalhou sementes de dor e espanto.

Deixando-me abraçado à sua sombra,
Desceu no hálito da boca da argila
E, ali, adormeceu profundamente.

Benjamin Sanches foi um contista e poeta amazonense que fez parte do Clube da Madrugada, uma associação artística e literária dos anos 50. Em Iara, evoca a lenda de origem indígena com o mesmo nome, também conhecida como lenda da Mãe d'água.

Trata-se de uma criatura aquática, semelhante a uma sereia, que aparenta ser a mais bela mulher. No poema, o sujeito lírico recorda o momento em que foi agraciado com a visão da Iara nas águas do rio.

A imagem, parte das crenças regionais com as quais cresceu, ficou gravada na sua memória. Segundo o folclore, era comum que os homem que vissem a Iara ficassem encantados por ela, acabando no fundo do rio.

Mesmo tendo sobrevivido para contar a história, o sujeito permaneceu sob o efeito da entidade, "abraçado à sua sombra".

2. Bertholetia Excelsa, de Jonas da Silva (1880 - 1947)

Se há uma árvore feliz, decerto é a castanheira:
No bosque ela resplende alta e dominadora.
A árvore da balata essa é tão sofredora,
Inspira compaixão a hevea, a seringueira!

Ela sozinha é um bosque e enche toda a clareira...
No ouriço a natureza o seu fruto entesoura
E a colheita presente e a colheita vindoura
Ei-las todas na fronde augusta e sobranceira.

Na casca não se vê sinal de cicatrizes,
De feridas cruéis por onde escorre o látex...
No seu orgulho é assim como as imperatrizes!

Se a posse é disputada entre explosões de nitro,
Na luta em que se queima a pólvora aos arráteis,
— O fruto é quase o sangue: é negociado a litro!

No poema, Jonas da Silva descreve parte da riqueza natural da Amazônia: suas árvores nativas. Destaca, logo no título, a Bertholetia Excelsa, conhecida como Castanheira do Pará ou Castanheira do Brasil, uma árvore de grande porte muito comum na região.

Descrita como forte e imponente, contrasta com outras árvores, como a balata, a hevea e a seringueira, alvos da exploração humana. O sujeito não esconde o seu pesar, descrevendo os golpes nos troncos, através dos quais as substâncias são retiradas, como "feridas cruéis".

Na composição, a castanheira permanece grandiosa, já que os seus frutos podem ser comercializados pelos homens. Atualmente, no entanto, as coisas estão diferentes: a Bertholetia Excelsa é uma das espécies ameaçadas pelo desmatamento.

3. Ritual, de Astrid Cabral (1936)

Todas as tardes
rego as plantas de casa.
Peço perdão às árvores
pelo papel em que planto
palavras de pedra
regadas de pranto

Astrid Cabral é uma poeta e contista de Manaus, cuja escrita é fortemente marcada pela proximidade com a natureza. Em Ritual, o sujeito lírico está no seu espaço doméstico, regando as plantas.

No poema, "ritual" pode ser interpretado como um hábito, algo que faz parte da rotina, ou como uma cerimônia religiosa / mágica. A ambivalência parece ser propositada.

Por escrever livros de poesia, impressos em papel, o eu lírico se sente culpado, já que contribui para que mais árvores sejam abatidas. Assim, enquanto cuida das suas plantas, pede perdão.

Embora seja uma composição muito curta, parece conter uma grande mensagem: precisamos ter consciência. Enquanto a nossa espécie continuar explorando os bens naturais do planeta, precisamos preservar a natureza e valorizar tudo o que ela nos dá.

4. Silêncio guerreiro, de Márcia Wayna Kambeba (1979)

No território indígena,
O silêncio é sabedoria milenar,
Aprendemos com os mais velhos
A ouvir, mais que falar.

No silêncio da minha flecha,
Resisti, não fui vencido,
Fiz do silêncio a minha arma
Pra lutar contra o inimigo.

Silenciar é preciso,
Para ouvir com o coração,
A voz da natureza,
O choro do nosso chão,

O canto da mãe d’água
Que na dança com o vento,
Pede que a respeite,
Pois é fonte de sustento.

É preciso silenciar,
Para pensar na solução,
De frear o homem branco,
Defendendo nosso lar,
Fonte de vida e beleza,
Para nós, para a nação!

Márcia Wayna Kambeba é uma geógrafa e escritora brasileira de etnia Omágua / Kambeba que se dedica ao estudo dessas identidades e seus territórios.

No seu trabalho literário, fica evidente o ativismo pelos direitos dos povos indígenas e a denúncia das violências que sofreram e continuam sofrendo.

Silêncio guerreiro é um poema de resistência pacífica, no qual o sujeito enumera os valores que lhe foram transmitidos pela sua cultura. Defende que, por vezes, é necessário estar em silêncio e ouvir o pedido de socorro da própria terra.

Na composição, o eu lírico afirma que é preciso manter a calma e refletir profundamente, buscando novas formas de resistir e preservar os territórios indígenas e suas riquezas naturais.

Conheça mais sobre a autora, seu trabalho e história de vida, no vídeo abaixo:

5. Saudades do Amazonas, de Petrarca Maranhão (1913 - 1985)

Desde que te deixei, ó terra minha,
Jamais pairou em mim consolação,
Porque, se eu longe tinha o coração,
Perto de ti minh’alma se mantinha.

Em êxtase minh’alma se avizinha
De ti, todos os dias, com emoção,
Vivendo apenas dentro da ilusão
De voltar, tal qual vive quando vinha.

Assim, minh’alma vive amargurada
Sem que eu a veja em ti bem restaurada
Das comoções que teve em outras zonas,

Mas para torná-las em felicidade,
É preciso matar toda a saudade,
Fazendo-me voltar ao Amazonas!

Petrarca Maranhão foi um escritor brasileiro nascido em Manaus que se mudou para o Rio de Janeiro, durante os anos da juventude. Em suas obras, não esconde a falta que sente de sua terra natal e o desejo de regressar.

No poema, é notório que mesmo estando longe, o sujeito se sente ainda preso ao Amazonas. Deste modo, percebemos que se sente incompleto e idealiza a terra da infância como o lugar onde será feliz.

6. Receita de Tacacá, de Luiz Bacellar (1928 - 2012)

Ponha, numa cuia açu
ou numa cuia mirim
burnida de cumatê:
camarões secos, com casca,
folhas de jambu cozido
e goma de tapioca.
Sirva fervendo, pelando,
o caldo de tucupi,
depois tempere a seu gosto:
um pouco de sal, pimenta
malagueta ou murupi.
Quem beber mais de 3 cuias
bebe fogo de velório.
Se você gostar me espere
na esquina do purgatório.

Luiz Bacellar foi um poeta nascido em Manaus, apontado como um dos maiores nomes da literatura amazonense. No poema em análise, ensina o leitor a fazer tacacá, uma refeição típica da região amazônica.

Para quem não conhece os termos que são usados, o poema parece quase um enigma, por estar cheio de regionalismos. Trata-se de um prato feito a partir de produtos locais, que se acredita ser inspirado numa sopa indígena.

Com humor, o sujeito também avisa que a iguaria é muito picante e não deve ser consumida em excesso. Uma composição incomum, que segue a estrutura de uma receita, parece ser uma homenagem à gastronomia e aos costumes da região.

Ficou curioso? Pode aprender a fazer aqui:

7. Rio Negro, de Rogel Samuel (1943)

Na terra em que eu nasci, desliza um rio
ingente, caudaloso,
porém triste e sombrio;
como noite sem astros, tenebroso;
oual negra serpe, sonolento e frio.
Parece um mar de tinta, escuro e feio:
nunca um raio de sol, vitorioso
penetrou-lhe no seio;
no seio, em cuja profundeza enorme,
coberta de negror,
habitam monstros legendários, dorme
toda a legião fantástica do horror!

Mas, dum e doutro lado,
nas margens, como o Quadro é diferente!
Sob o dossel daquele céu ridente
dos climas do equador,
há tanta vida, tanta,
ó céus! e há tanto amor!
Desde que no horizonte o sol é nado
até que expira o dia,
é toda a voz da natureza um brado
imenso de alegria;
e voa aquele sussurrar de festas,
vibrante de ventura,
desde o seio profundo das florestas
até as praias que cegam de brancura!

Mas o rio letal,
como estagnado e morto,
arrasta entre o pomposo festival
lentamente, o seu manto perenal
de luto e desconforto!
Passa - e como que a morte tem no seio!
Passa - tão triste e escuro, que disséreis,
vendo-o, que ele das lágrimas estéreis
de Satanás proveio;
ou que ficou, do primitivo dia,
quando ao - "faça-se!" - a luz raiou no espaço,
esquecido, da terra no regaço,
um farrapo do caos que se extinguia!

Para acordá-lo, a onça dá rugidos
Que os bosques ouvem de terror transidos!
Para alegrá-lo, o pássaro levanta
voz com Que a própria penha se quebranta!

Das flores o turíbulo suspenso
manda-lhe eflúvios de perene incenso!

Mas debalde rugis, brutos ferozes!
Mas debalde cantais, formosas aves!
Mas debalde incensais, mimosas flores!
Nem cânticos suaves,
nem mágicos olores,
nem temerosas vozes
o alegrarão jamais!... Para a tristeza
atroz, profunda, imensa, que o devora,
nem todo o rir que alegra a natureza!
nem toda a luz com que se enfeita a aurora!

Ó meu rio natal!
Quanto, oh! Quanto eu pareço-me contigo!
eu que no fundo do meu ser abrigo
uma noite escuríssima e fatal!
Como tu, sob um céu puro e risonho,
entre o riso, o prazer, o gozo e a calma,
passo entregue aos fantasmas do meu sonho,
e às trevas de minha alma!

Rogel Samuel é um escritor, ensaísta e crítico literário nascido em Manaus. Rio Negro é um poema que tem como cenário e tema principal um dos maiores afluentes do Rio Amazonas e as suas margens.

Como o próprio nome indica, este é um rio de águas negras (o mais extenso do mundo), rodeado por paisagens de beleza sublime. No poema, o eu lírico descreve tudo o que vê na terra e nas águas.

Atento à fauna local, fala dos bichos como sinônimo de vida e alegria, algo que contrasta diretamente com o próprio rio, descrito como obscuro e cheio de mistérios.

Olhando as águas que correm, enchendo e começando a se apoderar das margens, há uma identificação do sujeito com o caráter sombrio e triste do rio.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.