Lenda do Curupira explicada


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Uma das figuras mais conhecidas do folclore nacional, o Curupira habita as matas e se dedica a proteger a vida que existe por lá.

Bem presente na nossa cultura, ele faz parte do folclore e do imaginário coletivo brasileiro, sendo representado como um herói ou uma ameaça, dependendo da versão da história.

A lenda do Curupira

O Curupira, protetor das árvores e dos animais, é um ser fantástico que vive no fundo das matas. Rápido, esperto e dono de uma força extrema, ele é descrito como um menino de cabelos vermelhos.

Quando encontra caçadores tentando matar as crias ou homens que aparecem para cortar e queimar as árvores, o Curupira faz barulhos, batendo nos troncos e assoviando, para assustá-los. Ele também é conhecido por fazer com que esses invasores se percam no local.

Como tem os pés invertidos, ou seja, os calcanhares na frente, suas pegadas apontam a direção contrária. Assim, quando os humanos tentam seguir o seu rastro, acabam se afastando do caminho e, muitas vezes, desaparecendo para sempre.

Conheça a história detalhada na animação abaixo:

As origens da lenda e o folclore brasileiro

Assim como outras figuras do folclore nacional, a lenda do Curupira teve origem nos mitos e crenças indígenas, habitualmente relacionados com os elementos da natureza.

Seu nome vem do tupi antigo e alguns especialistas acreditam que significa "corpo de menino", embora existam controvérsias e interpretações diferentes.

Demônio da floresta que aterrorizava os locais

O primeiro registro da história a que temos acesso foi escrito pelo jesuíta espanhol José de Anchieta, através de uma carta redigida em 1506. Nela, o padre contava que o Brasil escondia uma força demoníaca que era conhecida por perseguir e castigar os locais.

Anchieta chega mesmo a mencionar que alguns dos seus companheiros encontraram os corpos de suas vítimas. Segundo o relato, os nativos deixavam oferendas para tentar agradar o Curupira, nos caminhos e nos topos das montanhas: elas continham flechas e penas coloridas, entre outros objetos.

Transmissão e transformação da lenda

Como apontou Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, a lenda estava presente em várias regiões do nosso território, não existindo certezas sobre onde terá surgido.

Para diversos povos indígenas, o Curupira era encarado como uma explicação para os barulhos desconhecidos que escutavam nas florestas. Ele também era responsável pelo desaparecimento súbito de alguns caçadores, porque os aterrorizava, forçando-os a esquecer o caminho de volta.

Com o tempo, o mito foi sendo transmitido entre as comunidades e se transformando também. Primeiro visto como uma entidade maléfica, ele passou a ser representado com a aparência que se popularizou e conhecemos hoje.

Embora possa ser descrito de várias formas, algo permanece igual: o Curupira continua sendo o grande protetor da fauna e da flora locais.

Pés invertidos e fama de enganador

A figura do Curupira é bastante associada à região da Amazônia, onde habitariam também os matuiús, um povo lendário indígena que teria os pés ao contrário.

Como circulavam nas margens do rio, eles deixariam as suas pegadas "mentirosas" na areia, confundindo os visitantes e os incautos.

É possível que estas figuras, mencionadas por Simão de Vasconcelos em Chronica da Companhia de Jesus (1663), estejam na raiz desse caráter enganador que foi atribuído ao Curupira.

Já em 1955, no estudo Santos e Visagens, o antropólogo Eduardo Galvão chama a atenção para os sons da criatura, descrita como um "gênio" das florestas.

Nas histórias que recolheu, além de emitir berros arrepiantes, ele também era capaz de imitar vozes humanas para confundir seus inimigos.

Outras versões e curiosidades sobre a lenda

Apresentado como um indivíduo de estatura baixa e corpo forte, em algumas versões o Curupira é um garoto e, noutras, um anão, podendo medir apenas quatro palmos.

Sua aparência se altera drasticamente em certas variações da história: pode ter as orelhas compridas, ser careca ou ter o corpo coberto de pelos, dentes pontiagudos e coloridos, etc. Em Pernambuco, por exemplo, é possível que surja com uma perna só.

Em algumas regiões, como o Maranhão e Espírito Santo, a narrativa se mistura com a do Caipora, que não tem os pés ao contrário e é associado às atividades da caça.

Também é interessante referir que esta lenda encontra paralelo em outros mitos semelhantes que surgiram em diferentes partes do mundo, como Argentina, Paraguai, Venezuela, Colômbia e Suécia.

Dia de Proteção às Florestas

Presente nos mitos do folclore, na literatura, na cultura e na nossa própria memória, o Curupira é uma entidade mágica bastante celebrada no panorama brasileiro.

Atualmente, ele é associado ao Dia de Proteção às Florestas, também conhecido como "Dia do Curupira" e comemorado em 17 de julho.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.