8 performances artísticas para entender o gênero


Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

Na arte, chamamos de performance um tipo de manifestação em que o artista utiliza seu corpo e suas ações como meio expressivo.

O conceito de arte performática surgiu na segunda metade do século XX como uma linguagem da arte contemporânea, que também despontava no período. Entretanto, ações similares à performance já eram realizadas por alguns artistas no contexto das vanguardas europeias.

O termo, de origem latina parformance, tem como significado “dar forma”, podendo ser interpretado como “fazer”, “desempenhar”.

Assim, a obra é construída enquanto o artista a desempenha, normalmente na frente de um público, restando depois apenas registros em fotografia e vídeo.

1. AAA-AAA (1978) - Marina Abramovic

Marina Abramovic é um dos nomes de maior destaque na arte da performance. Sua trajetória se iniciou nos anos 70 e ela realizou diversas ações com o também performer Ulay, que foi seu companheiro por 12 anos.

Em uma dessas obras, intitulada AAA-AAA e realizada em 1978, o casal de posicionou de frente um para o outro, enquanto soltava gritos diante de uma plateia.

Abramoic e Ulay em performance gritando um de frente para o outro
Marina Abramovic e Ulay em performance AAA AAA, gritando um de frente para o outro

A intenção era “mostrar quem fala mais alto”, representando simbolicamente o que ocorre em muitas relações, sobretudo relações amorosas.

Essa é uma obra na qual vida e encenação se misturam, aqui temos um exemplo de como a performance é uma linguagem híbrida, os seja, que mescla elementos teatrais e outras vertentes da arte.

A artista sérvia define a modalidade artística da seguinte maneira:

Performance é uma construção física e mental que o artista executa num determinado tempo e espaço, na frente de uma audiência. É um diálogo de energia, em que plateia e artista constroem juntos a obra.

2. 4’33 (1952) - Jonh Cage

4’33 é uma performance idealizada em 1952 pelo maestro norte-americano John Cage.

Nessa obra, o músico David Tudor se coloca a frente de um piano para uma grande plateia e permanece em silêncio por quatro minutos e trinta e três segundos, sem tocar absolutamente nada.

Homem sentado à frente de um piano sem tocar nada
David Tudor em performance 4'33, de John Cage

O trabalho traz diversas reflexões, como a expectativa criada e o desconforto. Além disso, toca em assuntos pertencentes ao próprio meio musical, como o silêncio, os pequenos ruídos e questionamentos sobre o conceito de música.

Assim, podemos observar aqui mais um exemplo de como as fronteiras da performance são diluídas, trazendo gêneros diversos da arte.

Na ocasião em que foi executada, a ação levantou debate, com parte do público reconhecendo seu valor e, parte, rejeitando-a totalmente.

3. Shoot (1971) - Chris Burden

Um dos performers mais polêmicos da arte contemporânea é sem dúvida o norte-americano Chris Burden (1946 – 2015).

Seu trabalho é permeado por questionamentos acerca da violência e em muitos deles, o artista se coloca em situações-limite.

Aliás, uma das características recorrentes da arte da performance é justamente uma investigação sensorial (e emocional) que analisa os limites dos artistas, testando suas dores e seus corpos de forma a criar uma conexão com o público.

Na performance Shoot, realizada em 1971, Chris Burden pediu para que um amigo atirasse com uma arma de fogo em sua direção. A intenção era que o tiro passasse de raspão em seu braço, e os dois já haviam inclusive treinado dias antes.

Homem apontando uma arma para outro homem. Performance Shoot, de Chris Burden
Chris Bruden e amigo durante performance Shoot

Entretanto, assim como a vida é imprevisível, a ação também não saiu conforme o esperado e a bala acabou acertando em cheio o braço de Burden, perfurando-o.

O público ficou realmente chocado e o artista teve que sair às pressas do local em direção a um hospital.

4. Cut piece (1965) - Yoko Ono

Yoko Ono é uma artista importante na cena da performance. A japonesa fez parte do Grupo Fluxus, que reunia artistas de várias partes do mundo nos anos 60 para repensar os rumos da arte.

Uma de suas performances de destaque é Cut Piece, na qual permanecia sentada na frente de uma plateia., tendo ao seu lado uma tesoura, que as pessoas usavam para cortar partes de suas vestes aos poucos.

Por ter o contato e intervenção direta dos espectadores, Cut Piece é considerada um happenig, vertente da performance na qual o público é agente da ação, sendo essencial para que a obra aconteça.

Aqui, a artista se coloca à disposição das pessoas de forma passiva, trazendo questões como a vulnerabilidade, o pudor e o corpo feminino.

5. Tap and Touch Cinema (1968) - VALIE EXPORT

VALIE EXPORT (escrita assim mesmo, em letras maiúsculas) é o nome artístico da austríaca Waltraud Lehner.

A artista possui um trabalho potente em performance, no qual levanta questões pertinentes ao universo das mulheres, trazendo provocações e críticas feministas, como a objetificação do corpo feminino.

A performance/happenig Tap and Touch Cinema, realizada nas ruas de diversas cidades europeias entre 1968 e 1971, foi uma ação na qual VALIE caminhava com uma caixa de papelão com uma cortina sobre o peito nu, convidando os transeuntes a colocar as mãos dentro da caixa e tocar seus seios.

Mulher com uma caixa de papelão sobre seu peito e homem colocando as mãos dentro. Performance de VALIE EXPORT
VALIE EXPORT em performance Tap and touch cinema

Quem via de fora não sabia o que estava acontecendo, mas podia observar as expressões da artista e do participante.

O trabalho é um exemplo de como a performance pode ocorrer fora do ambiente da galeria ou do museu, não necessitando de um espaço “oficial” da arte para se realizar.

6. Passagem (1979) - Celeida Tostes

A carioca Celeida Tostes trabalhava com cerâmica e trazia em suas obras temas como o feminino, o nascimento e morte, fertilidade e a relação com a natureza.

Assim, em dado momento de sua trajetória, a artista mescla-se a um vaso de barro e simula a experiência de ser expelida para fora de um útero. O trabalho levou o nome de Passagem, sendo realizado em 1979.

Mulher dentro de vaso de barro
Celeida Tostes durante a performance Passagem

A performance foi feita com a ajuda de duas assistentes e registrada por meio de fotografias, como é próprio em trabalhos performáticos. Sobre a ação, a artista explica:

Meu trabalho é o nascimento. Ele nasceu como eu mesma nasci - de uma relação. Relação com a terra, com o orgânico, o inorgânico, o animal, o vegetal. Misturar os materiais mais diversos e opostos. Entrei na intimidade desses materiais que se transformaram em corpos cerâmicos.

Começaram a surgir bolas. Bolas com furos, com fendas, com rompimentos que me sugeriam vaginas, passagens. Senti então a necessidade imensa de misturar-me com o meu material de trabalho. Sentir o barro em meu corpo, fazer parte dele, estar dentro dele.

7. New Look (1956) - Flávio de Carvalho

Flávio de Carvalho foi um artista que já estava pensando em arte da performance no Brasil muito antes dessa vertente se consolidar por aqui.

O artista fez parte do movimento modernista e em 1956 elaborou uma vestimenta tropical composta de saia e blusa de manga bufante, que usou durante uma caminhada pelas ruas do Rio de Janeiro.

homem caminhando na rua com saia ao redor de transeuntes
Flávio de Carvalho em seu New Look, caminhando nas ruas do Rio de Janeiro em 1956

O traje intrigou as pessoas que passavam, pois subvertia os costumes da época e trazia questões como a liberdade, a irreverência e a ironia. Esse potencial de abalar, confundir e criar polêmica é algo que também se repete em diversas performances.

8. I Like America and America Likes Me (1974) - Joseph Beuys

O alemão Joseph Beuys é um dos nomes importantes nas artes do século XX. Ele trabalhou com diversas linguagens artísticas além das ações performáticas, como instalação, vídeo, pintura e escultura.

Em uma de suas performances artísticas, intitulada I Like America and America Likes Me, Beuys sai de seu país e vai até os EUA. Chegando lá, é retirado do avião em uma maca e coberto por um cobertor de feltro, sua intenção era não pisar em solo norte-americano.

Nos EUA, o artista é levado a uma galeria de arte, onde permanece por dias em um espaço fechado com um coiote selvagem. Beuys recebia diariamente o jornal Wall Street e conviveu com o animal por horas usando apenas um cobertor, um par de luvas e uma bengala.

Perfomance de Joseph Beuys com coiote, cobertor e bengala
Joseph Beuys em ação I like America and America likes me

A ação teve caráter político e crítico, assim como toda sua obra, e foi uma forma de protesto contra o modelo de vida e economia norte-americano.

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Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007 e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, localizada em São Paulo, em 2010.