15 melhores poemas de Manoel de Barros: comentados e analisados


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Manoel de Barros (1916-2014) é um dos grandes poetas brasileiros que vem alcançando a tão merecida fama.

Com uma poética da miudeza e da singeleza, narrada a partir do universo do interior, assim se construiu a lírica do criador mato-grossense.

Descubra agora quinze das suas espetaculares criações.

1. Bocó

Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou

Os versos acima são bastante característicos da lírica de Manoel de Barros. Aqui encontramos um olhar infantil sobre o mundo (repare no uso do termo moço, por exemplo, e no tom de ingenuidade do eu-lírico), composto a partir de uma linguagem singela.

É frequente também a importância dada aos elementos naturais na escrita (a pedrinha, o caracol, a árvore, o rio, os pássaros).

Em Bocó o sujeito poético demonstra, com simplicidade, ir descobrindo aos poucos as palavras e a linguagem.

O eu-lírico não dá maiores pistas de quem é o homem ou quem é a velha que figura no poema, ele apenas narra o evento da descoberta da palavra "bocó" com certo grau de distanciamento.

Concluímos também como se dá a resolução do caso com um toque de humor (afinal o sujeito em questão correu as definições de Bocó nos seus trinta e dois dicionários antes de se admirar).

2. Matéria de poesia

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore serve para poesia

Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo tem seu lugar
na poesia ou na geral

Os versos acima constituem apenas um breve trecho do poema Matéria de poesia. Esse metapoema de Manoel de Barros fala sobre a composição do próprio poema, se debruça sobre a escolha das palavras e sobre o processo de criação literária.

Aqui o sujeito poético tenta elencar qual seria o material digno da poesia. Ao explicar para o leitor o que deve ser material de escrita, o eu-lírico vai descobrindo que a poesia é a arte daquilo que não tem propriamente valor (em resumo, segundo o próprio poema, é o que pode ser disputado no cuspe a distância).

O eu-lírico sublinha que o que sobra serve para criar a poesia, o que o mundo contemporâneo não dá valor revela-se, afinal, matéria-prima da melhor qualidade para a composição poética. São destacados pelo sujeito os mais diversos elementos díspares interessantes para a poesia (um carro, um bule, um besouro).

3. Livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.

Tudo que não invento é falso.

Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.

Tem mais presença em mim o que me falta.

Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.

Os cinco versos acima compõem um trecho do Livro sobre nada. São pílulas de sabedoria do poeta do interior, que propõe um conhecimento concentrado e fragmentado.

As pequenas frases, mesmo super sucintas e desconexas, inquietam o leitor e o convidam a pensar.

As reflexões filosóficas profundas (por vezes alternadas com constatações ligeiras) se apresentam a partir de um véu de aparente simplicidade. Quando a leitura acaba as frases ficam ecoando e repercutindo, intrigando o leitor.

4. A borra

Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha — tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios —
tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha
— tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego
Preto etc.
Todos bêbedos ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter ego respeitável — tipo um príncipe, um
almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
pobres-diabos não ficarem?

O título do poema já dá pistas sobre o que leremos a seguir: a borra é aquilo que sobra, o depósito que fica no fundo de um recipiente depois da preparação do líquido desejado (o café ou o vinho, por exemplo).

É a partir desse tipo de matéria-prima que o poeta cria os seus versos - com o que passa despercebido, o que parece dispensável, material com o qual ninguém se importa.

A borra é um poema autocentrado, com uma escrita dedicada à se debruçar sobre a própria escrita. O vocabulário cotidiano, acessível - assim como os exemplos que vão sendo elencados ao longo do texto - permitem uma relação de identificação imediata por parte do leitor.

5. Olhos parados

Olhar, reparar tudo em volta, sem a menor intenção de poesia.
Girar os braços, respirar o ar fresco, lembrar dos parentes.
Lembrar da casa da gente, das irmãs, dos irmãos e dos pais da gente.
Lembrar que estão longe e ter saudades deles…
Lembrar da cidade onde se nasceu, com inocência, e rir sozinho.
Rir de coisas passadas. Ter saudade da pureza.
Lembrar de músicas, de bailes, de namoradas que a gente já teve.
Lembrar de lugares que a gente já andou e de coisas que a gente já viu.
Lembrar de viagens que a gente já fez e de amigos que ficaram longe.
Lembrar dos amigos que estão próximos e das conversas com eles.
Saber que a gente tem amigos de fato!
Tirar uma folha de árvore, ir mastigando, sentir os ventos pelo rosto…
Sentir o sol. Gostar de ver as coisas todas.
Gostar de estar ali caminhando. Gostar de estar assim esquecido.
Gostar desse momento. Gostar dessa emoção tão cheia de riquezas íntimas.

Os versos acima foram retirados após a primeira passagem do extenso poema Olhos parados.

Observamos aqui um momento de pausa e reflexão sobre a vida. O sujeito poético se propõe a olhar para trás e refletir sobre as experiências que viveu.

O eu-lírico demonstra sentir profunda gratidão pelas vivências boas e pelos encontros felizes que teve. Ele reconhece a beleza de estar vivo, pleno, e dá valor a essa completude.

Em Olhos parados se estabelece uma relação de cumplicidade com o leitor, o eu-lírico deixa que ele assista esse instante tão íntimo de balanço da sua vida pessoal.

Assista abaixo a leitura desse precioso poema:

6. Os caramujos-flores

Os caramujos-flores são um ramo de caramujos que
só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seu musgo aos caramujos-flores
e os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos

O poema que tem como protagonistas os caramujos-flores fala da natureza e brinca com a composição da linguagem, duas vertentes características da lírica de Manoel de Barros.

O eu-lírico joga com a questão do ponto de vista (são os caramujos que pastam na parede ou é a parede que é pastada pelo caramujo?).

O encontro entre esses dois elementos, aliás, compõe o núcleo central do poema. Parece que a parede e o caramujo são elementos em perfeita harmonia, complementares e indissociáveis.

7. Biografia do orvalho

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou — eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

O próprio título do poema já convoca um olhar intrigado: como seria possível traçar a biografia de um orvalho? Um orvalho teria uma biografia?

O termo biografia remete para a história da vida de uma pessoa, uma definição que não parece se enquadrar com o orvalho, que é um fenômeno físico natural.

No decorrer do poema vamos conhecendo melhor esse sujeito poético diferente do lugar comum, que não se conforma em ser apenas uma figura convencional, que compra pão, abre portas e olha o relógio. Ele precisa de mais, precisa sentir na pele como é ser outro, precisa ser múltiplo e experimentar novos olhares sobre o cotidiano.

Esse olhar inquieto pode ser verificado inclusive na própria necessidade de se inventar uma nova linguagem. É o caso do último verso "Eu penso renovar o homem usando borboletas.", uma constatação que não pode ser compreendida pela via do racional sendo possível unicamente do ponto de vista dos afetos.

8. Uma didática da invenção

O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole...

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz...
se chama enseada...

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

No belíssimo Uma didática da invenção vemos como a palavra poética pode mudar a interpretação que construímos de uma paisagem.

A maioria de nós provavelmente olharia o contorno do rio e chamaria o espaço de enseada, termo capaz de condensar em poucas letras a configuração da paisagem. O eu-lírico, no entanto, não se conforma com a escolha desse nome vulgar, pois supõe que ele não seja capaz de capturar a beleza daquele panorama.

O homem do poema se contrapõe ao sujeito poético, que se recusa a nomear o desenho do rio de enseada. Então, com um olhar contaminado de poesia, o eu-lírico resolve chamar a tal paisagem natural de "cobra de vidro", frase que carrega muito mais beleza do que o termo técnico enseada.

Confira o vídeo do poeta Manoel de Barros lendo o poema acima:

9. Poema

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

O pretexto de falar sobre a poesia acaba por desencadear uma reflexão sobre o próprio sujeito poético. Em Poema, ao longo de apenas dez versos recebemos as peças chave para se compreender a lírica de Manoel de Barros.

O primeiro verso - sobre a origem da poesia - logo desemboca em um questionamento mais amplo sobre as limitações do eu-lírico. Vão sendo tecidas constatações aparentemente desconexas, mas que, na verdade, ajudam a compor o complicado puzzle do olhar do poeta sobre o mundo.

Descobrimos, por exemplo, que o poeta dá valor ao que é pequeno e insignificante, ao contrário da maior parte das pessoas. Devido a essa característica peculiar, ele acabou por ser chamado de imbecil por alguém que não o compreendia. Ao avesso do que era de se esperar, a ofensa ganhou um outro sentido e o eu-lírico se emocionou com o adjetivo.

10. Na enseada de Botafogo

Como estou só: Afago casas tortas,
Falo com o mar na rua suja…
Nu e liberto levo o vento
No ombro de losangos amarelos.

Ser menino aos trinta anos, que desgraça
Nesta borda de mar de Botafogo!
Que vontade de chorar pelos mendigos!
Que vontade de voltar para a fazenda!

Por que deixam um menino que é do mato
Amar o mar com tanta violência?

Com uma escrita autobiográfica, Manoel de Barros cristalizou em versos muitas das suas experiências pessoais. Esse parece ser o caso do poema Na enseada de Botafogo, onde o eu-lírico, um sujeito do interior, parece encantado com a paisagem do litoral carioca.

O poeta, nascido em Cuiabá (no Mato Grosso), se mudou para o Rio de Janeiro para cursar a graduação. Manoel de Barros se formou em Direito e mais tarde regressou para o interior.

Os versos acima, no entanto, retratam a angústia de alguém dividido: que mantém o afeto pela sua terra natal ao mesmo tempo que se mostra encantado pela paisagem carioca. Entre a fartura da fazenda e a vontade de chorar pelos mendigos, perdido, o eu-lírico se pergunta como é capaz de amar com tanta força o oceano.

11. Deus disse

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.

Aqui, Manoel de Barros exibe uma espiritualidade interligada aos aspectos da natureza.

O poeta sugere que Deus lhe deu o "dom" de ser parte integrante da vida orgânica, observando as árvores, os rios e os pássaros não só com admiração como com pertencimento.

O eu-lírico brinca ainda com as palavras e com os conceitos vagos - como o silêncio - transformando-os em matéria e criando imagens mentais no leitor que o levam a sentir mais do que racionalizar sobre os temas propostos.

12. Aprendimentos

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura
é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

Em Aprendimentos, que faz parte da obra Memórias Inventadas, Manoel nos brinda com um texto poético que expõe a sua gratidão pelos conhecimentos adquiridos através de reflexões filosóficas de pensadores como Sócrates, Kierkegaard e Aristóteles.

O poeta reinterpreta, com as suas palavras, os pensamentos desses filósofos, de forma a aproximar tais conceitos a partida difíceis ou abstratos ao tipo de linguagem presente em sua poesia.

Encontramos nesse poema - assim como em todos os outros da lírica de Manoel - uma linguagem que fala com os animais, com os vazios e com o silêncio.

13. O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Na obra Ensaios fotográficos encontramos o poema acima, que carrega um título sucinto e que resume a atividade do eu-lírico: O fotógrafo. Mas, para a nossa surpresa, logo nos primeiros versos observamos que o conceito que temos de fotógrafo não se aplica propriamente ao que o sujeito poético pretende registrar.

Manoel de Barros ressignifica aqui o nosso conceito habitual da atividade do fotógrafo. Apesar do eu-lírico querer eternizar uma imagem, a vivência daquela circunstância transcende todo e qualquer registro e ele devaneia.

O final do poema, inesperado, parece naturalizar toda a viagem imagética e conceitual que se passou nos versos anteriores.

14. Um songo

Aquele homem falava com as árvores e com as águas
ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Ate pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

Um songo faz parte da obra A biblioteca de Manoel de Barros e fala sobre um sujeito específico, não nomeado, que tinha uma maneira de enxergar o mundo - e interagir com ele - de uma forma diferente.

A sua relação com a natureza e a linguagem reinventada são características típicas da lírica de Manoel de Barros que estão bastante presentes nos versos acima.

15. O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Em O fazedor de amanhecer lemos a arte de inventar máquinas que não existem, para propósitos não objetivos, desafiando o mundo lógico.

Nos versos acima - e, de modo geral, na lírica completa de Manoel de Barros - somos desafiados a experiementar o mundo de outra maneira, a partir da ordem do sentido.

O eu-lírico aqui, um inventor de mãos cheias, cria máquinas que não são compreensíveis do ponto de vista utilitário, como estamos habituados a conceber na sociedade. As suas maquinarias inventadas vão em outro sentido, procuram atender necessidades abstratas.

Leia a Poesia Completa de Manoel de Barros

A edição Poesia Completa do poeta goiano encontra-se disponível para download gratuito em formato pdf.

Filme Só Dez por Cento é Mentira

A produção literária de Manoel de Barros ganhou a telona. O documentário, lançado em 2010, foi dirigido por Pedro Cezar e é inteiramente dedicado à poética do escritor mato-grossense.

Assista o longa-metragem na íntegra:

Quem foi Manoel de Barros

Nascido em Cuiabá, no Mato Grosso, no dia 19 de dezembro de 1916, Manoel Wenceslau Leite de Barros ficou conhecido pelo grande público apenas pelo primeiro e último nome.

Sua obra é considerada pertencente à terceira geração do modernismo (a conhecida Geração de 45).

A infância do poeta foi toda passada em uma fazenda no Pantanal, local onde seu pai, João Venceslau Barros, tinha uma propriedade. Durante a adolescência, Manoel mudou para Campo Grande onde estudou em um Colégio Interno.

Seu primeiro livro foi publicado em 1937 (Poemas Concebidos Sem Pecados).

Manoel de Barros
Retrato de Manoel de Barros.

O poeta se mudou para o Rio de Janeiro para cursar Direito e se formou em 1941. Nessa mesma época se filiou ao partido Comunista.

Com fome de novas vivências, Manoel viveu Nos Estados Unidos, na Bolívia e no Peru.

No princípio dos anos sessenta resolveu regressar para a fazenda que tinha no Pantanal para criar gado.

Em paralelo com as atividades rurais, nunca deixou de escrever e começou a ser consagrado pela crítica a partir dos anos oitenta. O escritor recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti: em 1989 com o livro O guardador de águas e em 2002 com O fazedor de amanhecer.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).