Judith Butler: livros fundamentais e biografia


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Judith Butler (1956) é uma filósofa, teórica e acadêmica norte-americana que se tornou uma referência fundamental nos estudos de gênero atuais.

Pertencente à terceira vaga do feminismo, a pensadora pós-estruturalista teve um grande impacto na defesa dos direitos das minorias sexuais. Um nome essencial na teoria de gênero contemporânea, Butler também foi uma das autoras pioneiras da teoria queer.

Retrato de Judith Butler.

A obra Problemas de Gênero (1990), extremamente vanguardista, questionava os papéis de gênero tradicionais e o binarismo no qual as concepções sociais se baseiam.

Nela, a autora apresenta uma perspectiva não-essencialista, propondo o conceito de performatividade de gênero. Uma grande influência dentro e fora do espaço acadêmico, o trabalho de Butler tem sido celebrado no ativismo LGBT e feminista.

Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), a filósofa tem provocado o choque e a revolta em algumas camadas mais conservadoras da sociedade, sendo até encarada como uma figura subversiva.

Judith Butler: livros e ideias fundamentais

Butler integra um ponto de viragem para o entendimento do gênero e das identidades não-normativas, desconstruindo os discursos sobre a sexualidade, principalmente a ideia de sexo binário.

Refletindo sobre a diversidade humana, a autora ajudou a desmontar construções e preconceitos sobre sexo, gênero e orientação sexual.

Defensora da subversão das normas e da liberdade individual, Judith Butler questionou as tradições e os papéis sociais limitados que são culturalmente incutidos nos indivíduos.

Enquanto pensadora pós-estruturalista, acredita que a realidade é uma construção alicerçada nos sistemas vigentes (social, cultural, econômico, simbólico, etc).

É também segundo essa linha que a filósofa pensa as identidades: por exemplo, o conceito de "mulher" não é algo estanque, variando cultural e historicamente.

Considerada uma das autoras inaugurais da teoria queer, Butler teceu considerações importantes sobre as expressões e a performatividade de gênero.

A teórica feminista resume alguns destes conceitos no artigo que publicou na Folha de S. Paulo, em novembro de 2017, depois da sua passagem atribulada pelo Brasil:

A cada um de nós é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas maneiras.

Às vezes, com a atribuição do gênero, um conjunto de expectativas é transmitido: esta é uma menina, então ela vai, quando crescer, assumir o papel tradicional da mulher na família e no trabalho; este é um menino, então ele assumirá uma posição previsível na sociedade como homem.

No entanto, muitas pessoas sofrem dificuldades com sua atribuição — são pessoas que não querem atender aquelas expectativas, e a percepção que têm de si próprias difere da atribuição social que lhes foi dada.

A dúvida que surge com essa situação é a seguinte: em que medida jovens e adultos são livres para construir o significado de sua atribuição de gênero?

Eles nascem na sociedade, mas também são atores sociais e podem trabalhar dentro das normas sociais para moldar suas vidas de maneira que sejam mais vivíveis.

Os escritos de Judith Butler vieram trazer um novo fôlego à teorização feminista e ao trabalho acadêmico feito em torno das questões LGBTQ.

Nas últimas décadas, os seus pensamentos têm sido citados em inúmeras discussões contemporâneas, como a despatologização das pessoas transgênero e a homoparentalidade.

Problemas de gênero (1990)

Problemas de gênero (Gender Trouble, no original) é um livro bastante inovador, considerado uma das obras fundadoras da teoria queer.

De forma bastante resumida, a teoria defende que as identidades de gênero e as orientações sexuais são construções sociais e que, portanto, esses papéis não estão inscritos na biologia do ser humano.

O livro se encontra dividido em três grandes partes; na primeira, Butler reflete sobre o discurso (e as normas que são impostas) em torno do gênero e da sexualidade humana.

Pensando o gênero como um construto social, a autora procede ao questionamento das justificações biológicas que estão por trás dos papéis de gênero binários e da norma heterossexual.

Capa do livro Problemas de Genero.

Quebrando várias barreiras no pensamento contemporâneo, Butler defende que o nosso gênero não é algo essencialmente biológico, determinado à partida, inerente a nós mesmos. Pelo contrário, trata-se de um conjunto de normas que se estabelecem através da repetição de uma série de rituais.

Esses comportamentos (ou rituais) são incutidos pela sociedade em nós, durante toda a vida. Butler defende que somos forçados, policiados, a repeti-los e reproduzi-los. Se não o fizermos, se subvertermos as normas, corremos o risco da condenação, da exclusão e da violência.

Assim, na segunda parte da obra, a feminista se foca nas experiências das minorias sexuais, colocando o foco (e a desconstrução) no conceito de heteronormatividade.

Nesta passagem, a autora explica de que formas a heterossexualidade surge no discurso dominante (científico e não só) como a única orientação sexual possível. Sem lugar para a diversidade ou para vivências plurais, estes discursos estabelecem a heterossexualidade como a norma, algo que deve ser seguido obrigatoriamente.

Finalmente, na terceira parte da obra, Butler aprofunda as distinções entre sexo biológico e gênero, destacando o caráter performativo deste último.

Para muita gente, Problemas de Gênero foi a resposta contemporânea a O Segundo Sexo, outra obra essencial da teoria feminista. Na verdade, ao propôr que alguém não nasce mulher, "torna-se", Beauvoir já parecia apontar o gênero como algo performativo e socialmente construído.

Corpos que importam (1993)

Apenas 3 anos depois da sua obra mais célebre, Judith Butler publicou Corpos que importam. No livro, a autora aprofunda a teoria em torno da performatividade de gênero, respondendo a críticas e interpretações errôneas do seu trabalho.

Neste sentido, esclarece que essa "performance" não é um ato isolado, único, mas uma estrutura de repetição das normas à qual estamos sujeitos diariamente. A estrutura, no entanto, apresenta possibilidades de transgressão e subversão.

Capa do livro Corpos que importam (1993).

Na obra, a teórica analisa os efeitos dos poderes dominantes nas dimensões materiais da sexualidade humana. Através de várias reflexões e exemplos, a autora demonstra que esses conceitos sociais limitam a liberdade e as vivências dos corpos.

Assim, esses discursos influenciam necessariamente as nossas experiências, determinando, desde o começo, o que é (ou não) considerado uma sexualidade normativa e válida.

Vida precária (2004)

Apesar da sua importância na teorização feminista e queer, Butler também tem se dedicado ao estudo de outras questões primordiais no mundo em que vivemos.

Um exemplo disso é a obra Vida precária, escrita na sequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos da América.

Os ataques terroristas às Torres Gêmeas e ao Pentágono marcaram profundamente a história e a política internacional, mudando principalmente as vivências dos norte-americanos e as suas relações com os outros países.

Capa do livro Precarious life - vida precaria (2004).

Através de cinco ensaios, a autora reflete sobre os efeitos do luto e da perda coletiva, se focando ainda nas medidas sociais e políticas que eles podem gerar.

Aquilo que Butler parece denunciar é a reprodução acrítica da violência, que resulta na perda da consciência da humanidade alheia.

Quem é Judith Butler? Biografia resumida

Judith Pamela Butler nasceu no dia 25 de fevereiro de 1956, em Cleveland, Ohio. Descendente de judeus russos e húngaros, Judith nunca chegou a conhecer grande parte da família materna, que foi assassinada durante o Holocausto.

Os seus pais eram judeus praticantes e a jovem recebeu uma educação religiosa, tendo sempre se destacado nos estudos. Por ser argumentativa e conversar demais na escola, a estudante começou a receber aulas de ética.

Embora a medida fosse considerada um castigo, Butler chegou a confessar que adorava as sessões e que elas representaram o seu primeiro contacto com a filosofia.

Mais tarde, a autora começou a frequentar a renomada Universidade de Yale, onde tirou um bacharelato em Artes.

Retrato de Judith Butler.

Em 1984, Judith Butler também completou o Doutorado em Filosofia pela mesma universidade. Foi então que a teórica começou a sua vida como professora universitária, lecionando em várias faculdades norte-americanas e tendo também passado uma temporada em Amsterdã, na Holanda.

Militante e ativista pelos direitos LGBTQ, Butler é uma mulher lésbica que vive, há muitos anos, em um relacionamento com Wendy Brown. A teórica feminista e a professora de ciências políticas têm um filho, Isaac.

Frases da filósofa feminista Judith Butler

A possibilidade não é um luxo. Ela é tão crucial quanto o pão.

Sempre fui feminista. Isso significa que eu me oponho à discriminação das mulheres, a todas as formas de desigualdade baseadas no gênero, mas também significa que exijo uma política que leve em conta as restrições impostas pelo gênero ao desenvolvimento humano.

É crucial que resistamos às forças da censura que prejudicam a possibilidade de viver em uma democracia igualmente comprometida com a liberdade e a igualdade.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.