As obras fundamentais de Van Gogh e a sua biografia


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Vincent van Gogh (1853-1890) foi um gênio do pós-impressionismo apesar de, em vida, ter vendido um único quadro.

Considerado um dos mais importantes criadores das artes plásticas ocidentais, suas telas viraram clássicos da pintura e fazem parte do imaginário coletivo. Conheça melhor essas obras-primas e saiba mais sobre a biografia do pintor holandês.

A noite estrelada (1889)

A noite estrelada

O quadro mais famoso do pintor holandês foi criado enquanto Van Gogh estava internado no hospital psiquiátrico de Saint-Rémy-de-Provence durante o ano de 1889.

Vincent havia pedido para o irmão mais novo, Theo, interná-lo após uma série de surtos psicóticos. Não é confirmado propriamente qual teria sido a doença que acometia o criador, sabemos que sofria de epilepsia, mas as outras doenças não foram bem identificadas (havia suspeitas de bipolaridade, tumor cerebral e depressão profunda).

A tela acima ilustra o nascer do sol visto da janela do quarto onde Van Gogh dormia. O trabalho apresenta alguns elementos peculiares como as espirais do céu que imprimem uma noção de profundidade e movimento. Apesar do céu caótico, o vilarejo que aparece na pintura tem ar pacato e alheio ao turbilhão exterior.

Saiba mais sobre o Quadro A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh.

Os girassóis (1889)

Os girassóis

Considerado uma das obras-primas do pintor holandês, a tela que tem como protagonista um vaso de girassóis teve dez versões.

Na imagem vemos a preponderância da cor amarela e uma organização do buquê floral nada convencional. Na pintura do holandês lemos confusão, caos, uma beleza perturbadora obtida com os girassóis retorcidos.

A tela foi uma saudação feita ao amigo Paul Gauguin (1848-1903), que iria o visitar em Arles, onde Vincent estava vivendo. Depois de ver as imagens, o pintor francês acabou por elogiar o colega holandês ao afirmar que os seus girassóis eram mais bonitos do que as vitórias-régias de Monet.

No quadro a assinatura não está como habitualmente costumamos a encontrar, posicionada no canto da tela. Em Os girassóis o primeiro nome do pintor está inserido dentro do vaso, a meio do quadro (na parte inferior). Em carta para o irmão Theo ficamos sabendo que ele optou por assinar Vincent porque as pessoas não eram capazes de pronunciar Van Gogh.

Os comedores de batata (1885)

Os comedores de batatas

A tela Os comedores de batata ilustra a hora do jantar, às sete da noite (marcada no relógio de ponteiro situado na parede à esquerda do quadro). Na mesma parede da sala onde está o relógio vê-se também uma imagem religiosa, o que nos dá mais pistas sobre essa família.

A mesa estava composta por homens e mulheres que trabalhavam na terra. As mãos (fortes, ossudas) e os rostos (cansados, calejados pelo esforço) são os protagonistas da tela. Van Gogh pretendia pintá-los como eram, fazendo um registro da vida doméstica.

O que está no centro da mesa - o jantar - são batatas (daí o nome da tela). Todo o quadro é pintado com o tom da cor da terra e a imagem contrasta o claro e o escuro (repare como a luz no primeiro plano ilumina a mesa de refeição enquanto o fundo permanece sombrio).

A pintura é considerada por muitos como a primeira obra-prima de Van Gogh e foi feita quando o artista ainda morava com os pais. Diz-se também que a tela teria sido feita sob a inspiração dos trabalhos de Rembrandt, um dos maiores pintores holandeses.

A casa amarela (1888)

A casa amarela

O quadro acima, criado em setembro de 1888, retrata a casa onde viveu o pintor quando deixou Paris. O criador alugou um quarto na casa amarela em maio do mesmo ano em que pintou o quadro. O edifício onde residiu estava situado em um quarteirão perto da praça Lamartine, em Arles.

Na casa, Van Gogh morava e trabalhava com outros artistas em uma espécie de colônia, experimentando uma vivência coletiva embora cada um tivesse o seu próprio quarto.

A cidade escolhida pelo pintor estava a 16 horas de trem de paris, ao fundo da tela, do lado direito, nota-se a presença desse elemento que pode representar a sua possibilidade de fuga (um viaduto com o trem acima).

A casa amarela é marcada pelas pinceladas soltas, a tela também é conhecida pelo contraste entre o azul do céu e o amarelo das casas. A imagem dá protagonismo não só à habitação onde o pintor viveu como também ao quarteirão e ao ar da cidade.

O quarto (1888)

O quarto de Van Gogh em Arles

A pintura acima faz um registro do quarto que Van Gogh alugou em Arles. Na imagem vemos detalhes da vida do pintor como os móveis de madeira e as telas penduradas nas paredes.

Van Gogh faz uso de cores fortes e contrastantes na obra e através dela percebemos um pouco do cotidiano do pintor. É curioso o fato de haverem duas cadeiras e dois travesseiros quando se sabe que Vincent vivia sozinho.

Há suspeitas de que o quadro teria sido feito para o irmão, Theo, de modo a confortá-lo para que soubesse que Van Gogh estava bem.

Autorretrato com a orelha cortada (1889)

Autorretrato com a orelha cortada

A amputação da orelha direita foi um episódio nebuloso na vida do pintor que ainda hoje permanece misterioso. Sabemos apenas que a perda da orelha foi resultado direto de uma violenta discussão que teve com o amigo também pintor Paul Gauguin em 1888. Gauguin havia se mudado para a residência artística de Van Gogh no mesmo ano, a convite do amigo.

Não sabemos se Van Gogh teria cortado parte da orelha direita num episódio de automultilação após ter se descontrolado com o amigo ou se havia sido atingido com a navalha por Paul durante a discussão calorosa que teve.

A informação que se conhece efetivamente é que o pintor teria guardado a orelha decepada e tê-la-ia mostrado para uma prostituta chamada Rachel num bordel da região. Depois desse encontro bizarro, Vincent teria caminhado até o seu quarto onde dormiu na cama ensanguentada.

Terraço do café à noite (1888)

Terraço do café à noite

O terraço a que a tela se refere encontrava-se na Place du Fórum, em Arles, cidade para onde Van Gogh se mudou a fim de se dedicar à pintura. Segundo registros, o pintor resolveu criar a paisagem do café após acabar de ler um romance de Guy Maupassant.

Uma das características mais impressionantes dessa tela é que, apesar de retratar uma paisagem noturna, Van Gogh não usou nenhuma tinta preta tendo recorrido apenas a tons mais escuros. Em carta trocada com o irmão, o pintor afirmou:

Aqui está um quadro noturno sem ter usado tinta preta, somente maravilhosos azuis, violetas e verdes

Na tela vemos a primeira vez que Van Gogh experimentou pintar o céu com estrelas pós-impressionistas.

A pintura é das poucas não assinadas pelo pintor, no entanto, não há qualquer dúvida da sua autoria graças ao estilo apresentado e as cartas de Van Gogh, onde ele se referia à tela.

Campo de trigo com corvos (1890)

Campo de trigo com corvos (1890)

Pintada pouco antes de Van Gogh falecer (no dia 29 de julho de 1890), a tela Campo de trigo com corvos foi criada no dia 10 julho de 1890.

Até bem pouco tempo se achava que esse era o quadro final do artista, entretanto pesquisadores do museu do pintor em Amsterdam descobriram um quadro posterior, Raízes de árvores, mas que jamais chegou a ser completado.

Muitos teóricos leem na tela Campo de trigo com corvos o ambiente de depressão e solidão vivenciado pelo pintor holandês que sofreu ao longo de toda a vida com perturbações mentais.

Amendoeira em flor (1890)

Amendoeira em flor (1890)

Van Gogh era muito próximo do seu irmão mais jovem, Theo, que era recém casado com Johanna. E Amendoeira em flor foi pintado no ano de 1890, quando o casal teve um filho. O quadro foi um presente oferecido por Van Gogh ao casal pelo bebê e era suposto ficar pendurado em cima do berço. Johanna, no entanto, gostou tanto do quadro que o pendurou na sala.

Pintado com cores leves e tons pastéis, a tela apresenta um ângulo curioso, como se o espectador estivesse vendo a árvore da amendoeira por baixo. Os troncos, floridos, representam justamente essa ideia de renascimento.

Uma curiosidade: o nome dado ao bebê, que nasceu no dia 31 de janeiro de 1890, foi Vincent, em homenagem ao tio pintor. Foi esse único sobrinho que criou o Museu Van Gogh, em 1973, em Amsterdam, em parceria com o governo holandês.

A cadeira de Van Gogh com cachimbo (1888)

A cadeira de Van Gogh com Cachimbo (1888)

A cadeira de Van Gogh com cachimbo foi pintada na residência artística onde Van Gogh vivia em Arles e apresenta uma cadeira bastante simples, de madeira, sem braços e revestida a palha pousada sobre um chão também singelo.

A tela é um contraponto ao quadro que o pintor também criou chamado A cadeira de Gauguin, que está no Museu Van Gogh. Nesse segundo quadro há uma cadeira mais imponente, visto que Gauguin era considerado um importante pintor da época. O quadro da cadeira de Van Gogh fazia par com o quadro A cadeira de Gauguin, um deveria estar ao lado do outro (uma cadeira estava virada para a direita e outra para a esquerda, inclusive).

A tela onde Van Gogh pintou a sua própria cadeira é toda em tons amarelados e representa a sua personalidade simples, enquanto a de Gauguin possui uma atmosfera mais elegante.

A sua assinatura (Vincent) se encontra num espaço nada usual a meio do quadro (na parte do fundo).

O carteiro: Joseph Roulin (1888)

O carteiro: Joseph Roulin (1888)

Um dos melhores amigos do pintor Van Gogh em Arles, onde fazia residência artística, foi o carteiro local Joseph Roulin.

Joseph trabalhava na estação dos correios da pequena cidade e Van Gogh ia muitas vezes ao local para enviar telas e cartas ao seu amigo Theo. Foi desses recorrentes encontros que surgiu uma amizade - e essa foi uma tela de uma série de retratos que o pintor fez do seu amigo e da sua família ao longo do tempo em que viveu em Arles.

Foram cerca de 20 imagens pintadas do carteiro, da sua mulher Augustine e dos três filhos do casal (Armand, Camille e Marcelle).

Em carta enviada para o irmão Theo testemunhamos o momento da criação dessa tela específica:

Eu estou agora trabalhando com um outro modelo, um carteiro com uniforme azul, com detalhes dourados, uma grande barba no rosto, parecido com Sócrates.

Uma breve biografia de Vincent van Gogh

O pintor nasceu em 30 de março de 1853 em Zundert, uma pequena vila situada ao sul da Holanda.

O pai, Theodorus van Gogh, era um pastor calvinista - Vincent também tentaria seguir o caminho religioso do pai porém ser sem sucesso.

A mãe, Anna Carbentus, era dona de casa e havia perdido um filho ainda bebê chamado Vincent. Com a nova gravidez, escolheu dar o nome do filho que havia perdido à nova criança que iria nascer. Coincidentemente Vincent nasceu no mesmo dia que o irmão, no ano a seguir.

Autorretrato Van Gogh
Autorretrato pintado por Van Gogh em 1889

Vincent abandonou a escola entre os 14 e 15 anos e arrumou o primeiro emprego na empresa do tio, que era marchand. Depois foi trabalhar em Londres lecionando numa escola dominical tentando ser pregador.

De volta à Holanda, tenta seguir teologia com muita dificuldade. Acaba por ficar com o cargo de pastor de uma pequena comunidade muito pobre na Bélgica. Depois de algum tempo no cargo, decidiu abandonar a comunidade para se dedicar à arte de forma integral.

Quando sinto uma terrível necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas.

Van Gogh foi sustentado ao longo de toda a vida por Theo, seu irmão mais novo que foi um grande amigo e apoiador. Cartas trocadas entre os dois nos fornecem pistas de como teria sido a vida do pintor.

O artista, que viria a se tornar um dos maiores nomes do pós-impressionismo, teve uma vida curta. Van Gogh morreu com 37 anos (suspeita-se de suicídio) e produziu 900 quadros - tendo vendido apenas um em vida.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).