8 poemas para mães (com comentários)


Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

A poesia sobre mães é um tema recorrente na literatura. Poemas sobre a maternidade podem ser lidos em comemoração ao dia das mães, data que geralmente é especial para grande parte das pessoas.

É uma ocasião em que costumamos homenagear as mulheres que nos criaram e nos dedicaram amor, na maioria das vezes fazendo o seu melhor nessa tarefa.

Pensando nisso, selecionamos poemas inspiradores sobre mães para dizer-lhes o quanto são importantes em nossas vidas.

1. Foi de mãe todo o meu tesouro - Conceição Evaristo

O cuidado de minha poesia
Aprendi foi de mãe
mulher de pôr reparo nas coisas
e de assuntar a vida.

A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe
mulher prenhe de dizeres
fecundados na boca do mundo.

Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo.

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.

Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.

Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
de minha fala.

Esse emocionante poema de Conceição Evaristo está presente nos Cadernos Negros, publicação do Coletivo Quilombhoje em 2002.

O texto traz o olhar de agradecimento de uma mulher negra à sua mãe (e em alguma instância às suas ancestrais) por ter lhe ensinado como sentir e se colocar no mundo, trazendo enorme lirismo.

Conceição Evaristo aponta sua mãe como uma grande professora e sábia, mestre na arte de viver e incentivadora do fazer artístico da filha.

2. Mãe - Mario Quintana

Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito;
Também o céu tem três letras
E nelas cabe o infinito.

Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disser
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer.

Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do céu
E apenas menor que Deus!

Mario Quintana ficou conhecido como o "poeta das coisas simples". O escritor gaúcho desenvolveu um estilo literário em que conseguiu traduzir sentimentos com palavras e imagens descomplicadas, mas profundamente líricas.

Em Mãe, Quintana apresenta essa pequena palavra como um fio condutor para homenagear as mães, comparando-as ao céu e reiterando sua capacidade de amar infinitamente.

3. Sem título - Alice Ruiz

Depois que um corpo
comporta
outro corpo
nenhum coração
suporta
o pouco

Esse é um poema sobre mães, mas que mostra a perspectiva da própria mãe que gesta. Alice Ruiz consegue, em poucas palavras, mostrar como se sente física e emocionalmente ao gerar uma criança.

Assim, sugere que sua capacidade de sentir e amar se amplia, da mesmo forma que seu ventre.

É importante dizer que, embora a experiência da gravidez seja de fato transformadora, a maternidade pode ser vivenciada de inúmeras maneiras que não passam necessariamente pela gestação.

4. O Menino Que Carregava Água Na Peneira - Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

Esse poema de Manoel de Barros foi publicado em 1999 no livro Exercícios de ser criança. Apresenta a infância de maneira incrível, mostrando as brincadeiras e inventividade do menino.

A mãe aparece no poema como um apoio emocional, valorizando sua criatividade e o incentivando a criar poesia com as coisas simples da vida.

Dessa forma, mostra como é importante que a criança tenha cuidadores que reconheçam seu valor para que construa uma auto-estima saudável.

5. Incompreensão dos Mistérios - Elisa Lucinda

Saudades de minha mãe.
Sua morte hoje faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.

A escritora capixaba Elisa Lucinda revela toda a saudade de sua mãe nesse poema. É um texto sobre a perda e a indignação por não ter mais a companhia dessa figura tão querida.

Elisa expressa sua revolta com "Deus" por permitir a partida da mãe e inverte a ordem das coisas ao dizer que quem perdeu foi a vida, provavelmente a sua própria.

6. Sem título - Paulo Leminski

Minha mãe dizia:
– Ferve, água!
– Frita, ovo!
– Pinga, pia!
E tudo obedecia.

Nesse pequeno poema de Leminski, a mãe é mostrada quase como uma feiticeira, mágica e superpoderosa. O poeta constrói um cenário em que a mulher realiza as tarefas de forma surpreendente e descomplicada.

Certamente o poema é uma homenagem às mães, mas também pode ser uma oportunidade para refletirmos se as tarefas domésticas são de fato tão simples e prazerosas de serem realizadas ou se apenas são historicamente voltadas às mulheres e mães. Dessa forma, seria interessante questionarmos de que maneira esse trabalho pode ser melhor dividido entre todos os integrantes de uma família.

7. Para Sempre - Drummond

Por que Deus permite
Que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
Luz que não apaga
Quando sopra o vento
E chuva desaba

Veludo escondido
Na pele enrugada
Água pura, ar puro
Puro pensamento
Morrer acontece
Com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio

Mãe, na sua graça
É eternidade
Por que Deus se lembra
Mistério profundo
De tirá-la um dia?

Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho

Esse poema integra o livro Lição de Coisas, lançado em 1962 por Carlos Drummond de Andrade. Nele, Drummond apresenta a mãe como uma ideia de eternidade, como uma figura que se une à natureza e está presente na vida do filho ou da filha de forma quase onipresente.

O escritor indaga à Deus o motivo das mães partirem, dizendo que o sentimento por elas, na verdade, nunca morre, que não importa quanto tempo passe, o vínculo será eterno.

8. Minha Mãe - Vinícius de Moraes

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

Minha mãe é um poema de Vinícius de Moraes que exibe toda a fragilidade do poeta e seu desejo de estar novamente acolhido nos braços da mãe.

Vinícius revela seu receio diante da vida e coloca a figura materna como a única possível de aplacar seu sofrimento, retornando de alguma maneira à infância.

Foi publicado em seu primeiro livro, O caminho para a distância, de 1933, quando o autor tinha apenas 19 anos.

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Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design.