Poema A Máquina do Mundo de Carlos Drummond de Andrade


Carolina Marcello
Escrito por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes
Publicado em

Publicado originalmente em Claro Enigma (1951), o poema “A Máquina do Mundo” é, sem dúvida, uma das obras-primas do escritor mineiro. Pelo tema, assim como pela sua forma, a composição se aproxima dos modelos da poesia clássica.

Desde o próprio título, se estabelece uma relação de intertextualidade com a obra épica Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, considerada um marco incontornável da literatura de língua portuguesa.

A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo o que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

é a memória dos deuses, e o solene
sentimento da morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Análise e interpretação do poema

Complexo e de difícil compreensão, "A Máquina do Mundo" é um dos textos mais enigmáticos de Drummond. No ano de 2000, A Folha de São Paulo considerou que este é o maior poema brasileiro.

Habitualmente, a lírica do autor é associada à segunda geração do modernismo nacional, exprimindo algumas de suas características mais evidentes: ausência de rima, verso livre e temas cotidianos, entre outras. Em Claro Enigma, contudo, o modernista regressa às influências clássicas, tanto no tema como na forma.

Aqui, existe uma preocupação rigorosa com a métrica. Cada estrofe é um terceto, ou seja, é composta por três versos. Os versos, por sua vez, são todos decassílabos (formados por dez sílabas), adotando o mesmo ritmo de grandes obras como Os Lusíadas.

A ideia da "máquina do mundo" enquanto metáfora para as engrenagens que movem o Universo e os indivíduos também não é nova. Pelo contrário, estava bastante presente na literatura medieval e renascentista. Sua manifestação mais célebre é o canto X do poema épico escrito por Camões.

No texto, o navegador Vasco da Gama tem o privilégio de conhecer essa máquina, graças à ninfa Tétis. É assim que ele descobre o seu derradeiro destino e tudo aquilo que está por vir. O seu entusiasmo, no entanto, não ecoa nos versos escritos pelo poeta brasileiro.

A ação se inicia em Minas Gerais, local onde Drummond nasceu, algo que o aproxima deste sujeito. Numa cena cotidiana, o homem está caminhando pela estrada quando, de repente, tem uma enorme revelação. Ele, que se encontra exausto, "desenganado", não sabe como reagir a essa epifania.

Perante a "total explicação da vida", um conhecimento que vai além da compreensão humana, o eu-lírico decide abaixar os olhos e seguir o seu caminho. Assombrado pela grandiosidade de tudo que existe, permanece pequeno e frágil, sem esperança de compreender uma coisa tão maior do que ele.

Aproveite para ver também:

Carolina Marcello
Escrito por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.