Música Bella Ciao


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Bella Ciao é uma música tradicional italiana que se acredita ter surgido nas plantações de arroz, no final do século XIX.

Embora tenha começado como um cântico de trabalho rural, a música é mais conhecida por ser uma canção da resistência antifascista, durante a Segunda Guerra Mundial.

Recentemente, o tema foi relembrado e se tornou ainda mais famoso, integrando a trilha sonora da série espanhola A Casa de Papel, que bateu recordes de audiência.

Bella Ciao: letra e música

Embora a música tenha sido cantada e gravada em diversas épocas, com letras diferentes, uma versão se popularizou no mundo todo: aquela que falava sobre o fascismo italiano.

Pelo seu valor histórico, e também pela sua beleza, é essa que vamos analisar (na gravação da Banda Bassotti, uma das mais famosas).

Una mattina mi son' svegliato
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao
Una mattina mi son' svegliato
E ho trovato l'invasor

O partigiano, portami via
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao
O partigiano, portami via
Ché mi sento di morir

E se io muoio da partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao
E se io muoio da partigiano
Tu mi devi seppellir

E seppellire lassù in montagna
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao
E seppellire lassù in montagna
Sotto l'ombra di un bel fior

Tutte le genti che passeranno
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao
Tuttle le genti che passeranno
Mi diranno: Che bel fior

E quest' è il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao
E quest'è il fiore del partigiano
Morto per la libertà

E quest'è il fiore del partigiano
Morto per la libertà

Tradução e análise da música Bella Ciao

Primeira estrofe

Uma manhã, eu acordei
Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus!
Uma manhã, eu acordei
E encontrei um invasor

A música começa com o sujeito lírico se dirigindo a alguém com quem tem uma grande proximidade (e trata por "querida"). Ele conta que, ao acordar, deu de caras com um "invasor". Desde o começo, percebemos que estamos num cenário de conflito, de guerra, e que o sujeito está em perigo.

Assim, ele inicia as suas despedidas, que se prolongam até o final da canção. Além de dizer adeus à sua interlocutora, parece estar se despedindo da própria vida.

Segunda estrofe

Oh, membro da Resistência, leve-me embora
Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus!
Oh, membro da Resistência, leve-me embora
Porque sinto que vou morrer

Pede ajuda à Resistência, o movimento de guerrilha que procurava combater os soldados nazistas e o regime autoritário de Mussolini.

Mesmo se não conhecêssemos a história da Itália e do domínio de Hitler e Mussolini, poderíamos captar a atmosfera de medo e opressão através das palavras do sujeito.

Aqui, ele já não tem necessidade de esconder a gravidade da ameaça, anunciando que sente a morte chegando. Embora saiba que provavelmente é em vão, ele segue pedindo socorro.

Terceira estrofe

E se eu morrer como um membro da Resistência
Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus!
E se eu morrer como um membro da Resistência
Você deve me enterrar

Mais conformado com a possibilidade da sua morte, o eu-lírico se assume como um "membro da Resistência". Ele faz parte da luta antifascista e sabe que isso aumenta a possibilidade de morrer, se despedindo da mulher enquanto pode.

Enquanto membro da Resistência, o sujeito sabe que o seu destino mais provável é morrer. Nestes versos, é como se ele estivesse preparando a sua companheira e pedindo que ela seja forte.

Apesar do ritmo acelerado e até animado da música, a sua mensagem é bem triste: aqui a violência é ser parte natural da vida.

Quarta estrofe

E me enterre no alto das montanhas
Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus!
E me enterre no alto das montanhas
Sob a sombra de uma bela flor

Já encarando a sua morte como um dado adquirido, percebendo que não vai ter salvação, pede à companheira que o enterre no topo de uma montanha, em algum lugar alto, para ser visto pelos outros.

O guerrilheiro anônimo deseja ser sepultado junto de uma "bela flor", uma imagem que contrasta totalmente com o panorama de terror no qual se encontra.

No meio de uma narrativa tão disfórica, tão pesada, de repente surge algo simples e cheio de vida como uma flor, dando um novo fôlego à canção.

Quinta estrofe

Todas as pessoas que passarem
Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus!
Todas as pessoas que passarem
Me dirão: Que bela flor!

Na quinta estrofe, este sujeito continua se despedindo de alguém que ama. Nos versos, continua o raciocínio da passagem anterior, explicando por quê deseja ser enterrado naquele local em específico.

Ele quer que a flor que vai nascer na sua sepultura seja a sua última mensagem de força e encorajamento para os seus companheiros. Já que o destino está traçado, quer que a sua morte seja recordada, que a sua história possa inspirar os outros.

Sexta estrofe

E essa será a flor da Resistência
Querida, adeus! Querida, adeus! Querida, adeus, adeus, adeus!
E essa será a flor da Resistência
Daquele que morreu pela liberdade

Como se tratasse de um ciclo, este guerrilheiro sabe que da sua morte nascerá alguma coisa, a "flor da Resistência", um símbolo de coragem e insubmissão.

Pela última vez, se despede da interlocutora, como se procurasse consolá-la, porque sabe que a morte dele não será em vão: há a ideia de que daí vai nascer (ou brotar) algo de novo.

Apesar de todo o cenário trágico, o sujeito parece acreditar que o seu exemplo pode ser mais uma semente de transformação na sociedade e que, por isso, ainda há esperança.

Sétima estrofe

E essa será a flor da Resistência
Daquele que morreu pela liberdade

A última estrofe repete os dois versos finais da passagem anterior. O eu-lírico já esta falando de si mesmo no passado, declarando que morreu em nome da liberdade.

Fica presente a impressão de que estamos perante um sacrifício: alguém que caminha para a sepultura e está consciente disso mesmo. No entanto, este sujeito sabe que não pode desistir, precisa batalhar, mesmo que morra pela sua causa.

Bella Ciao: a história da música

As origens da canção

Como costuma acontecer com os temas que fazem parte da tradição popular (de transmissão oral) é impossível sabermos quem compôs a música ou escreveu a letra original.

A maioria das fontes aponta que a música terá surgido no norte e no nordeste da Itália, criada pelas Mondinas, trabalhadoras rurais que laboravam só em algumas épocas do ano.

A letra original denunciava as condições de trabalho desumanas que elas enfrentavam nas plantações de arroz. Além de serem fustigadas pelo sol, também eram exploradas e ameaçadas:

Trabalho infame, por pouco dinheiro.

Esta versão foi gravada e popularizada em 1962 por Giovanna Daffini, uma antiga mondina que se tornou cantora.

Por outro lado, Bella Ciao também tem muitas semelhanças com uma música judaica, da tradição Klezmer, chamada Oi Oi di Koilen e composta pelo ucraniano Mishka Ziganoff.

Um hino da resistência italiana

Para compreendermos totalmente a mensagem desta versão e o seu legado histórico, é importante relembrarmos alguns acontecimentos internacionais que estavam ditando o destino do mundo.

Em 1939, estava começando um dos confrontos mais sangrentos da humanidade, a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945.

Retrato do ditador Benito Mussolini em 1930.
Retrato do ditador italiano Benito Mussolini (1883 — 1945), em 1930.

Benito Mussolini, líder do Partido Nacional Fascista, se tornou o primeiro-ministro italiano em 1922. Três anos depois, já num regime totalitário, ele se estabeleceu como "Duce" ou líder da nação.

Em 1940, o ditador assinou um acordo com Hitler, o chamado Eixo Roma - Berlim. Foi aí que a Itália entrou para a guerra e começou a combater do lado da Alemanha, contra os Aliados (França, Reino Unido, Estados Unidos e União Soviética).

No ano de 1943, os soldados nazistas já patrulhavam as ruas e as tropas aliadas invadiam o país. O povo estava morrendo nos conflitos e a revolta popular crescia, junto com a pobreza e a fome.

Retrato dos partigiani em Veneza, abril de 1945.
Retrato dos Partigiani na cidade de Veneza, em abril de 1945.

Nessa época, soldados e civis italianos se uniam para combater as forças fascistas. A Resistência Italiana, também conhecida por Partigiani, foi um dos maiores movimentos de oposição aos exércitos nazistas.

Combatendo a ditadura italiana e a ocupação alemã, os guerrilheiros conseguiram executar Mussolini e fazer com que os nazistas se rendessem na Itália.

Associada a este exemplo de poder e militância, a canção ecoou pelo mundo todo e foi se tornando um verdadeiro grito de guerra.

Divulgação da música

Como referimos acima, a gravação de Giovanna Daffini ajudou a registrar o canto das mondinas e veio torná-lo mais popular.

O sucesso ocorreu na década de 60 e isso não foi por acaso: como sabemos, essa época foi marcada por várias movimentações sociais, como as lutas pelos direitos trabalhistas e estudantis.

A sua transmissão também aconteceu nos Festivais da Juventude Comunista que se multiplicavam pela Europa, com os militantes italianos que ensinavam o cântico aos seus companheiros.

Com o tempo, a versão partigiana da música (aquela que se referia à Resistência) se tornou um importante hino contra o autoritarismo e a opressão.

Assim, Bella Ciao passou a ser entoado em várias manifestações e protestos internacionais. A música também foi gravada por artistas do mundo todo e ganhou versões em diversos ritmos, do ska punk ao funk paulista.

Significado da música Bella Ciao

Uma música de ritmo acelerado, como uma marcha ou um coro de celebração popular, Bella Ciao tem uma mensagem bem mais sombria do que parece.

A canção traduz o clima de opressão e ameaça permanente que se sente numa sociedade dominada por um governo autoritário e patrulhada pelos nazistas.

Mesmo sabendo que vai morrer, o sujeito procura encorajar a sua companheira a resistir, a seguir em frente e nunca desistir da liberdade.

Emocionante e cheia de sofrimento, esta é uma canção de despedida de um guerrilheiro que, apesar de tudo, continua tendo esperança na "flor da resistência" e ainda acredita que a vitória vai chegar.

Bella Ciao na série A Casa de Papel

Nos últimos anos, Bella Ciao ganhou uma nova onda de popularidade graças à série espanhola A Casa de Papel.

Na narrativa (que segue um grupo de bandidos que está planejando um grande assalto), a música surge em várias passagens determinantes.

Entoada pela quadrilha, a canção é uma espécie de hino que o líder transmitiu ao resto do grupo. O Professor teria conhecido o tema através do avô, que integrou a resistência antifascista italiana.

A simbologia da Bella Ciao na série parece ser essa: trata-se de um grito de revolta para aqueles que querem combater um sistema opressor (neste caso, o sistema financeiro).

Conheça também

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.