A literatura imperdível de Mia Couto


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Um expoente da literatura africana, Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é biólogo de formação. Atualmente é o escritor moçambicano mais traduzido no exterior, as suas obras foram publicadas em 24 países. 

Premiado internacionalmente, inclusive com o Prêmio Camões (2013) e com o Neustadt Prize (2014), Mia Couto apresenta uma farta produção (o autor já lançou mais de trinta livros entre prosa, poesia e literatura infantil). Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.

Conheça agora esse grande nome da literatura e descubra alguns dos seus mais belos poemas.

Os melhores poemas de Mia Couto

1. Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

O poema Para ti, presente no livro Raiz de Orvalho e Outros Poemas, é claramente dedicado à uma mulher amada e tem como protagonista um eu-lírico apaixonado que se entrega de corpo e alma à relação.

Os versos se iniciam com elementos muito caros ao poeta Mia Couto: a chuva, a terra, a conexão com o espaço tão presente na composição em prosa ou em verso. O poema se abre com uma descrição de todos os esforços mais que humanos que o eu-lírico fez e faz em nome da sua paixão, e os versos se encerram com a comunhão entre o par, com a tão ansiada partilha posta em prática pelos dois.

2. Saudade

Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

O poema Saudade encontra-se no livro Tradutor de Chuvas e tem como tema o sentimento nostálgico causado pela ausência - seja de um lugar, de uma pessoa ou de uma ocasião específica.

Nos versos de Mia Couto lê-se a vontade de reviver o passado e até mesmo instantes que a lembrança não é capaz de alcançar (como a experiência de ter saudade de nascer).

Nas linhas acima se reconhece também a presença da família, o calor do berço da casa e de instantes vividos com segurança e aconchego. O poema se encerra transparecendo igualmente a falta que o eu-lírico sente de crer em algo maior. 

3. Promessa de uma noite

cruzo as mãos
sobre as montanhas
um rio esvai-se

ao fogo do gesto
que inflamo

a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tacteias a pedra
até ser flor

Promessa de uma noite pertence ao livro Raiz de orvalho e outros poemas e reúne apenas nove versos todos iniciados por letra minúscula e sem qualquer tipo de pontuação.

Sucinto, Mia Couto deixa transparecer aqui a importância daquilo que o rodeia para a sua composição poética. A presença da paisagem natural é uma característica marcante no trabalho do escritor moçambicano, encontramos no poema, por exemplo, os elementos mais importantes da natureza (as montanhas, o rio, a lua, as flores ) e a sua relação que se estabelece com o homem. 

4. O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro Idades Cidades Divindades encontramos o belíssimo Espelho, poema que retrata a experiência que todos nós alguma vez já tivemos de não nos reconhecermos na imagem projetada a nossa frente. 

O estranhamento provocado pela imagem devolvida à nós pela superfície refletora é o que move e surpreende o eu-lírico. Também percebemos a partir da leitura dos versos como somos muitos, divergentes, contraditórios, e como a imagem reproduzida no espelho não é capaz de reproduzir a multiplicidade daquilo que somos.   

5. A Demora

O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Idades Cidades Divindades também abriga os versos de A demora. Trata-se de um lindo e sensível poema de amor, dedicado à uma amada que partilha com o eu-lírico a sensação de enamoramento. 

No poema só há espaço para o casal e para o meio ao redor. É de se sublinhar a importância do espaço para a composição poética, especialmente a presença de elementos cotidianos e naturais (as flores, a nuvem, o mar).

Os versos se iniciam com a descrição do que é amor, ou melhor, do que o amado sente quando se vê acometido pelo sentimento da paixão. Ao longo das linhas vamos percebendo os efeitos do amor no corpo do eu-lírico, até que, nos dois últimos versos, testemunhamos o encontro com a amada e a união entre o par.  

Características gerais da escrita de Mia Couto

Mia Couto escreve sobre a terra, sobre a sua terra, e tem profunda atenção a fala do seu povo. O autor constrói o seu trabalho a partir de uma prosa poética, motivo que o leva muitas vezes a ser comparado ao escritor brasileiro Guimarães Rosa.

A escrita do autor moçambicano ambiciona transpor a oralidade para o papel e muitas vezes transparece um desejo de inovação verbal. Em seus textos vemos, por exemplo, o uso de recursos oriundos do realismo mágico.

Mia Couto é um escritor profundamente ligado a região onde nasceu e foi criado (a Beira), é um conhecedor como poucos da cultura local, dos mitos e lendas tradicionais de Moçambique. Seus livros são marcados, portanto, pela arte narrativa tradicional africana. O autor é conhecido, sobretudo, por ser um contador de histórias.

Mia Couto
A literatura de Mia Couto é profundamente influenciada pela sua origem moçambicana. 

Biografia de Mia Couto

Antônio Emílio Leite Couto é conhecido no universo da literatura apenas como Mia Couto. Como gostava muito de gatos quando era criança, Antônio Emílio pediu que os pais o chamassem por Mia e assim o apelido se perpetuou ao longo dos anos. 

O escritor nasceu no dia 5 de julho de 1955 na cidade da Beira, em Moçambique, filho de emigrantes portugueses. O pai, Fernando Couto, atuou toda a vida como jornalista e poeta. 

O filho, seguindo os passos do pai, se aventurou no universo das letras desde muito cedo. Aos 14 anos publicou poemas no jornal Notícias da Beira. Aos 17 anos, Mia Couto saiu da Beira e mudou para Lourenço Marques para cursar Medicina. Dois anos mais tarde, no entanto, enveredou para o jornalismo.

Foi repórter e diretor da Agência de Informação de Moçambique entre 1976 e 1976, trabalhou na revista semanal Tempo entre 1979 e 1981 e nos quatro anos a seguir atuou no jornal Notícias.

Em 1985 Mia Couto abandonou o jornalismo e voltou para a Universidade para cursar biologia. O escritor especializou-se em ecologia e atualmente é professor universitário e diretor da empresa Impacto – Avaliações de Impacto Ambiental. 

Mia Couto é o único escritor africano membro da Academia Brasileira de Letras, como sócio correspondente, eleito em 1998, sendo o sexto ocupante da cadeira nº 5.

Sua obra é a exportada para os quatro cantos do mundo, atualmente Mia Couto é o escritor moçambicano mais traduzido no exterior contando com obras publicadas em 24 países. 

Retrato de Mia Couto.
Retrato do premiado escritor Mia Couto.

Prêmios recebidos

  • Prêmio Anual de Jornalismo Areosa Pena (Moçambique) pelo livro Cronicando (1989)
  • Prêmio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora (1990)
  • Prêmio Nacional de Ficção da Associação de Escritores Moçambicanos com o livro Terra Sonâmbula (1995)
  • Prêmio Mário António (Ficção) da Fundação Calouste Gulbenkian com o livro O Último Voo do Flamingo (2001)
  • Prêmio União Latina de Literaturas Românicas (2007)
  • Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura com o livro O Outro Pé da Sereia (2007)
  • Prêmio Eduardo Lourenço (2011)
  • Prêmio Camões (2013)
  • Prêmio Internacional Literatura Neustadt, da Universidade de Oklahomade (2014)

Obra completa

Livros de Poesia

  • Raiz de Orvalho, 1983
  • Raiz de Orvalho e outros poemas, 1999
  • Idades, Cidades, Divindades, 2007
  • Tradutor de Chuvas, 2011

Livros de Contos

  • Vozes Anoitecidas,1987
  • Cada Homem é uma Raça,1990
  • Estórias Abensonhadas,1994
  • Contos do Nascer da Terra,1997
  • Na Berma de Nenhuma Estrada, 1999
  • O Fio das Missangas, 2003

Livros de Crónicas

  • Cronicando, 1991
  • O País do Queixa Andar, 2003
  • Pensatempos. Textos de Opinião, 2005
  • E se Obama fosse Africano? e Outras Interinvenções, 2009

Romances

  • Terra Sonâmbula, 1992
  • A Varanda do Frangipani, 1996
  • Mar Me Quer, 2000
  • Vinte e Zinco, 1999
  • O Último Voo do Flamingo, 2000
  • Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, 2002
  • O Outro Pé da Sereia, 2006
  • Venenos de Deus, Remédios do Diabo, 2008
  • Jesusalém (no Brasil, o título do livro é Antes de nascer o mundo), 2009
  • Vagas e lumes, 2014

Livros infantis

  • O Gato e o Escuro, 2008
  • A Chuva Pasmada (Ilustrações de Danuta Wojciechowska), 2004
  • O beijo da palavrinha (Ilustrações de Malangatana), 2006
  • O Menino no Sapatinho (Ilustrações Danuta Wojciechowska), 2013

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.