Livro A Relíquia, de Eça de Queirós


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A Relíquia é considerado um romance realista escrito pelo português Eça de Queirós e publicado em 1887 originalmente no Porto (em Portugal).

Trata-se de uma obra profundamente sarcástica protagonizada por Teodorico Raposo, um sujeito que decide escrever um relato memorialista para contar as experiências que viveu.

A história chegou no Brasil através do jornal Gazeta de Notícias (1875-1942), que a publicou em formato de folhetim.

Resumo

Narrado em primeira pessoa, A Relíquia conta com um narrador chamado Teodorico Raposo que resolve contar aquilo que fez da sua existência. O livro começa já com a apresentação do protagonista: 

Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida - que neste século, tão consumindo pelas incertezas da inteligência e tão angustiado pelos tormentos do dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.

Teodorico Raposo, também conhecido como Raposão, era neto de padre e ficou órfão ainda criança tendo sido adotado aos sete anos pela tia, a rica beata D. Patrocínio das Neves. Aos nove anos o menino foi encaminhado para um internato, onde conheceu Crispim, seu grande amigo e futuro cunhado. 

Dividido entre o comportamento que a tia gostaria que Raposão tivesse e a sua verdadeira essência, Teodorico partilhava seu tempo entre as farras e as rezas.

Com o passar dos anos, acabou os anos de escola e mudou-se para Coimbra para cursar Direito. Lá o seu comportamento se consolidou de vez: Teodorico aproveitou muito as mulheres, regado à noites de farra e bebedeira. 

Durante as férias, voltava para Lisboa para estar com a tia e tentar conquistar o seu afeto. Com medo que a senhora morresse e deixasse os bens para a Igreja, Raposão dava o seu melhor para convencê-la de que ele era afinal um bom homem.

A tia, extremamente católica, atribuía as conquistas do sobrinho inteiramente à Deus, e o sobrinho encenava uma fé que não tinha única e exclusivamente para agradar Titi:

Um dia enfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor metidas num canudo de lata. A Titi examinou-as reverente, achando um sabor eclesiástico As linhas em latim, às paramentosas fitas vermelhas, e ao selo dentro do seu relicário.
- Está bom, - disse ela - estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves; vê não lhe faltes...
Corri logo ao oratório, com o canudo na mão, agradecer ao Cristo de ouro o meu glorioso grau de bacharel.

Durante uma dessas visitas, o rapaz conheceu o seu primeiro amor, Adélia. Os dois mantiveram um caso tórrido de amor e tornaram-se amantes durante o período em que Raposão se encontrava na capital portuguesa.

Quando acabou o curso e se mudou definitivamente para Lisboa, Teodorico, para agradar a tia, passou a ser profundamente beato: ia todos os dias à Igreja, rezava, levava uma vida de devoto convicto. Tudo, no entanto, não passava de um plano para herdar a fortuna da tia Titi. 

Como consequência da devoção exacerbada do rapaz, ele acabou deixando Adélia de lado. Farta de não receber a atenção que estava habituada, a moça desistiu definitivamente de Raposão. Frustrado e desiludido, a tia, percebendo o estado de espírito do sobrinho, sugeriu que o rapaz fizesse uma viagem para a Terra Santa.

Raposão aceitou a viagem de bom grado e prometeu que traria de Jerusalém uma relíquia religiosa para oferecer de presente à sua "patrocinadora". 

Ao longo do seu percurso rumo à Jerusalém, ainda em Alexandria (no Egito), Raposão conheceu o amigo Topsius, um historiador alemão doutor pela Universidade de Bonn e membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas. Topsius escreveu um livro para contar a viagem que fez à Jerusalém e lá inseriu Raposão como personagem, chamando-o de "ilustre fidalgo lusitano".

Durante esse período, Raposão se divertiu profundamente com as festas e noitadas. Lá conheceu a inglesa Mary, com quem teve um affair passageiro. Quando se despediram - porque Teodorico tinha que seguir para Jerusalém - , Mary entregou um embrulho com uma camisola sexy e um bilhetinho, era uma espécie de lembrança daqueles dias devassos. 

Raposão seguiu viagem e, embora não tivesse gostado nada do lugar sagrado nem das pessoas, prosseguiu em busca da relíquia ideal para a tia.

Ouvindo o conselho de Topsius, encontrou uma árvore de onde supostamente haviam retirarado a coroa de espinhos de Jesus Cristo. A ideia do jovem foi retirar um galho, colocar no formato da coroa de espinhos, embalar e entregar à tia. Esse era o plano que considerava perfeito para conquistar o coração da senhora e garantir a herança que tanto lhe interessava. 

Teodorico embrulhou a relíquia da beata com o mesmo papel utilizado por Mary, fazendo com que os dois presentes ficassem muito parecidos.

Na confusão dos embrulhos, a tia recebeu o presente de Mary, a camisola sensual, ao invés da coroa de espinhos. Como consequência do ato, Teordorico foi imediatamente desmascarado e a imagem de beato deu lugar a de devasso.

O rapaz foi deserdado e expulso de casa, caindo na rua da amargura. Para tentar sobreviver, começou a vender umas supostas relíquias falsas. Foi durante esse período de dureza que o Raposão começou a andar com a irmã de Crispim.

Os dois se casaram e, aos poucos, Raposão foi se estabelecendo na vida.

Tudo parecia bem encaminhado e Raposão transparecia ter alcançado um grau de reflexão e amadurecimento quando, a meio desse processo, a tia morreu deixando os bens todos para o Padre Negrão.

Teodorico encerra a história furioso, tentando pensar no que deveria ter feito de diferente para ludibriar, de fato, a tia. 

Análise de A Relíquia

A Relíquia e o Realismo

A Relíquia é considerada uma obra do Realismo crítico e pertence à segunda fase da produção de Eça de Queirós. Nessa fase também estão situadas as obras clássicas O crime do Padre Amaro e o Primo Basílio.

Vale lembrar que o Realismo se iniciou na França com a publicação de Madame Bovary no ano de 1856. A Relíquia veio a público trinta e um anos mais tarde, mas ainda sob influências daquilo que se viu na literatura francesa.

Eça foi um dos grandes nomes do Realismo em Portugal. Foi ele o responsável por proferir a quarta palestra das cinco Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense.

Os intelectuais da época se reuniram para debater uma nova estética e organizaram dez palestras com grandes nomes da cultura. O governo, sentindo-se ameaçado, fechou o Cassino proibindo as reuniões alegando que os encontros eram um complô contra as instituições e o Estado.

Na fala de Eça, autor de A Relíquia, destaca-se principalmente a vontade de ultrapassar o Romantismo:

O homem é um resultado, uma conclusão e um procedimento das circunstâncias que o envolvem. Abaixo os heróis! (...) O Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento: - o Realismo é a anatomia do caráter. É a crítica do homem. É a arte que nos pinta a nossos próprios olhos – para condenar o que houver de mau na nossa sociedade.

A polêmica entre Eça e Machado

Convém sublinhar que a obra A Relíquia, de Eça de Queirós, em muitos aspectos se assemelha com As memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis. Ambas são construídas sob a forma de narrativas memorialistas e são permeadas de ironia oriunda de narradores maduros que olham para trás e destrincham o próprio passado.

Os dois autores de língua portuguesa costumam duelar o título de quem seria o melhor escritor realista lusófono. A questão segue em aberto, o que se pode garantir era que Machado tinha conhecimento da literatura de Eça e criticou abertamente a publicação de Primo Basílio e O crime do Padre Amaro. Machado teria dito que o segundo título seria uma cópia de uma publicação francesa, ao que Eça respondeu:

Devo dizer que os críticos inteligentes que acusaram O Crime do Padre Amaro de ser apenas uma imitação da Faute de l’Abbé Mouret, não tinham, infelizmente, lido o romance maravilhoso do Sr. Zola, que foi, talvez, a origem de toda a sua glória. A semelhança casual dos dois títulos induziu-os em erro. Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade córnea ou má-fé cínica poderiam assemelhar esta bela alegoria idílica, a que está misturado o patético drama de uma alma mística, a O Crime do Padre Amaro, simples intriga de clérigos e de beatas, tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa

Uma crítica social

Na obra A Relíquia encontramos um Eça questionador dos valores provincianos e do conservadorismo português. A Lisboa da época recebia profundas influências francesas e a síndrome de país periférico, que passava ao lado das grandes nações, figura no romance de Eça como um retrato da época.

Vale sublinhar como o romance ilustra profundamente a cultura portuguesa do século XIX com todas as máscaras que lhe eram frequentes. De modo bastante geral é possível dizer que a obra critica as máscaras sociais muitas vezes fazendo uso da caricatura para exacerbar características de diversos personagens.

Um aspecto interessante da obra é a análise dos nomes dos personagens principais: o nome da tia (D. Patrocínio das Neves) não é fortuito. A partir da leitura do nome da senhora já fica claro que ela será aquela que financiará/patrocinará a vida de Raposão. Teodorico, por sua vez, carrega no apelido (raposão), um substantivo que alude à tendência animalesca da esperteza. 

Uma crítica à Igreja Católica

A Relíquia possui forte intertextualidade com a Bíblia. O narrador tece várias críticas à Igreja Católica, ao catolicismo exacerbado na sociedade portuguesa, à hipocrisia e ao falso moralismo. 

Cristo, a quem o narrador chama de "intermediário", é descrito com características humanas, ou seja, um sujeito com falhas e fraquezas como qualquer um de nós. O filho de Deus é intencionalmente "rebaixado", dessacralizado e ganha contornos cada vez mais próximos do ser humano comum. 

No romance ficamos conhecendo com mais detalhe Dona Maria do Patrocínio, a beata que cria Raposão e demonstra ter comportamentos no mínimo incoerentes.

A senhora, que é profundamente devota e doa muito dinheiro à Igreja, tem uma relação muito próxima com o padre, com quem janta todas as semanas. Ao mesmo tempo que se identifica como uma mulher extremamente castradora, ela mantém em casa um enorme oratório.

Na obra, em uma série de passagens também se faz uma severa crítica à venda de bens supostamente sagrados para a Igreja:

- Ora aqui estão os cavalheiros diante do Santo Sepulcro... Fechei o meu guarda-chuva. Ao fundo de um adro, de lajes descoladas, erguia-se a fachada duma igreja, caduca, triste, abatida, com duas portas em arco: uma tapada já a pedregulho e cal, como supérflua; a outra timidamente, medrosamente, entreaberta. (...) E imediatamente, um bando voraz de homens sórdidos envolveu-nos com alarido, oferecendo relíquias, rosários, cruzes, escapulários, bocadinhos de tábuas aplainadas por S. José, medalhas, bentinhos, frasquinhos de água do Jordão, círios, agnus-dei, litografias da Paixão, flores de papel feitas em Nazaré, pedras benzidas, caroços de azeitona do monte Olivete, e túnicas "como usava a Virgem Maria!" E à porta do sepulcro de Cristo, onde a titi me recomendara que entrasse de rastros, gemendo e rezando a coroa – tive de esmurrar um malandrão de barbas de ermita, que se dependurara na minha rabona, faminto, rábido, ganindo que lhe comprássemos boquilhas feitas de um pedaço da arca de Noé! – Irra, caramba, larga-me animal! E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guarda-chuva a pingar, dentro do santuário sublime onde a Cristandade guarda o túmulo do seu Cristo.

Personagens principais

Teodorico Raposo

Conhecido como “Raposão”, é o narrador da história. Sobrinho de Dona Maria do Patrocínio, ele é um personagem extremamente complexo e de múltiplas facetas. Teodorico não é um personagem tipo plano - um sujeito previsível - , ao contrário, ele é capaz do melhor e do pior e vai se descobrindo ao longo do livro. 

Dona Maria do Patrocínio

Conhecida também como D. Patrocínio das Neves, Tia Patrocínio ou Titi. Rica e religiosa, a tia é uma beata da Igreja que segue a risca os ensinamentos do padre Negrão. Após a morte dos pais de Teodorico, Dona Maria adota o menino que passa a ser sua responsabilidade. A senhora se compromete com a educação do rapaz (envia-o para um internato e depois para estudar Direito em Coimbra) e com a formação religiosa, incentivando-o à frequentar a Igreja e a cumprir os rituais e preces. 

Crispim

Profundamente amigo de Raposão desde os tempos da escola. Crispim se tornará o cunhado do grande amigo quando ele se apaixonar pela sua irmã, com quem se casará. 

Adélia

Primeira paixão de Raposão. Os dois se conhecem quando o rapaz vai visitar a tia, em Lisboa, durante umas férias da faculdade de Direito, em Coimbra. Teodorico para agradar a tia acaba deixando Adélia de lado em função da rotina religiosa. Revoltada, a moça o abandona. 

Topsius

Amigo de Raposão. De origem alemã, é um estudioso historiador que conhece em Alexandria enquanto segue para Jerusalém. Topsius escreve um livro para narrar a viagem e insere lá Raposão, que fica sendo identificado como o "ilustre fidalgo português". 

Miss Mary

Uma inglesa que se tornará amante de Raposão por pouco tempo. Os dois vivem dias tórridos de amor e volúpia em Alexandria, mas o rapaz precisa deixá-la para trás para seguir rumo à Terra Santa. Mary deseja deixar uma lembrança com Teodorico, por isso o oferece uma camisola sexy e um bilhete, que são entregues embrulhados. Por uma confusão do protagonista, que troca acidentalmente as embalagens, a tia recebe o embrulho de Mary e não a coroa de espinhos que o sobrinho havia mandado confeccionar. 

Leia na íntegra

O romance A Relíquia já está disponível para download gratuito.

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O romance A Relíquia também foi gravado em formato audiobook:

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.