Ziraldo: biografia e obras


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Ziraldo não é só um escritor e jornalista. Com múltiplos talentos, o artista também se reinventou como cartunista, pintor, caricaturista, chargista e ilustrador.

Com certeza você já esbarrou com uma obra dele ao longo da vida - quem é que não conhece o famoso Menino Maluquinho?

Conheça agora mais sobre a biografia e as obras desse criador ímpar.

Ziraldo

Biografia de Ziraldo

A origem do artista: a família e a vida na cidade do interior

Ziraldo Alves Pinto nasceu em Caratinga (interior de Minas Gerais), no dia 24 de outubro 1932, filho de dona Zizinha e do seu Geraldo. Além de Ziraldo, Zizinha e Geraldo também tiveram outro filho: Zélio Alves Pinto (1938), irmão do artista, é também jornalista, cartunista e escritor.

Uma curiosidade: o nome de Ziraldo é resultado de uma mistura original dos nomes da mãe e do pai do artista.

Com apenas seis anos de idade, Ziraldo fez um desenho que foi divulgado no jornal Folha de Minas - corria o ano de 1939.

Dez anos mais tarde, em 1949, se mudou para o Rio de Janeiro com o avô tendo regressado dois anos depois para Caratinga.

Início da carreira

Aos dezessete anos Ziraldo publica o seu primeiro cartoon na revista A Cigarra, aonde fará mais colaborações) e se muda para o Rio de Janeiro onde começa a divulgar os seus trabalhos nas publicações Vida Infantil, Vida Juvenil e Sesinho.

Durante a graduação colabora mensalmente com a revista Era uma vez. Em 1954 inicia uma parceria com o jornal Binômio e com a Folha de Minas, substituindo o caricaturista Borjalo.

Ascensão na carreira

Três anos mais tarde, já vivendo no Rio de Janeiro, passa a trabalhar para a revista O Cruzeiro. Seu personagem Pererê faz tanto sucesso que o periódico decide lançar uma revista só dedicada à ele.

Em 1963 vai para o Jornal do Brasil e, no ano a seguir, também trabalha na revista Pif-Paf.

Carreira internacional

Em 1968 seu trabalho passa a fazer sucesso internacional e começa a ser publicado em revistas no exterior.

As obras de Ziraldo vão aos poucos sendo traduzidas para inglês, espanhol, italiano, francês, coreano e basco.

Participação em O Pasquim

Ziraldo foi um dos colaboradores do famoso jornal O Pasquim, lançado em 1969, em plena ditadura militar.

O Pasquim

Em entrevista concedida à Revista Cult Ziraldo comentou sobre esse período da vida:

Ter tido o Pasquim na minha vida para atravessar os chamados anos de chumbo foi um privilégio. Foi uma experiência válida e inserida no contexto, foi mesmo. (...) era o que a vida podia me oferecer para que eu a seguisse construindo naquele momento.

O ingresso no universo da literatura infantil

A partir do final dos anos setenta, impulsionado pelo lançamento de Flicts (1969), Ziraldo passa a se dedicar mais à literatura infantil.

É especialmente entre os mais jovens que ele começa a ser reconhecido e começa a orientar a sua carreira produzindo material para esse público específico.

Flicts
Interior de Flicts

Formação acadêmica

Em 1952 Ziraldo entrou para a Faculdade de Direito da UFMG tendo se formado em 1957, embora jamais tenha exercido.

Para produzir o seu material artístico, Ziraldo não teve nenhum tipo de educação formal tendo sido um autodidata influenciado pelos grandes nomes do humor como Ronald Searle, André François, Manzi e Steinberg. Em termos de artes plásticas, Ziraldo cita como principais influências Picasso, Miró e Goya.

Prêmios recebidos por Ziraldo

Ziraldo foi laureado com o Prêmio Merghantaller, o Prêmio Hans Cristian Andersen, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Caran D`Ache.

Recebeu também o Prêmio Ibero-americano de Humor Gráfico Quevedos, o Prêmio Internacional do Salão de Caricatura de Bruxelas e o Prêmio da Imprensa Livre da América Latina.

Vida pessoal

Em 1958 Ziraldo se casou com Vilma Gontijo Alves Pinto após sete anos de namoro. O casal teve três filhos (Daniela Thomas - a cineasta -, Fabrizia e Antônio - compositor).

Vilma faleceu aos 66 anos depois de mais de quatro décadas de união. Abalado com a perda e sem saber como abordar o assunto da morte com a neta Nina, Ziraldo escreveu o livro Menina Nina: Duas razões para não chorar (2002).

Ziraldo e Vilma
Ziraldo e Vilma

Obras principais de Ziraldo

Ao longo da extensa carreira, Ziraldo deu vida a uma série de sucessos. Essas são as suas principais obras:

  • Flicts (1969)
  • O Menino Maluquinho (1980)
  • O Bichinho da Maçã (1982)
  • O menino mais bonito do mundo (1983)
  • O menino marrom (1986)
  • O menino quadradinho (1989)
  • Menina Nina - duas razões para não chorar (2002)
  • Os meninos morenos (2004)
  • O menino da Lua (2006)

Os personagens do Ziraldo

A turma do Pererê

O primeiro personagem de sucesso do criador foi Pererê, protagonista das histórias em quadrinhos que era publicado pela revista O Cruzeiro e ganhou uma revista própria entre 1960 e 1964.

A revista A turma do Pererê foi a primeira revista em quadrinho brasileira a cores e de autoria de um só criador.

A turma do Pererê, no entanto, não agradou o regime militar e chegou a ser censurada mesmo depois de fazer enorme sucesso.

A turma do Perere

Ziraldo enfatizava nessa publicação - e em uma série de outras posteriores - personagens brasileiros, ajudando a divulgar a cultura nacional utilizando personagens do folclore brasileiro.

Alguns dos seus personagens são o jabuti Moacir, os índios Tininim e Tuiuiú e a onça Galileu.

O Menino Maluquinho

Era uma vez um menino que tinha o olho maior que a barriga, fogo no rabo e vento nos pés, umas pernas enormes (que davam para abraçar o mundo) e macaquinhos no sótão (embora nem soubesse o que significava macaquinhos no sótão). Ele era um menino impossível!

O personagem mais conhecido de Ziraldo é, sem dúvidas, o Menino Maluquinho.

O garoto cheio de energia, quase sempre incompreendido pelo resto do mundo, anda com uma panela na cabeça espalhando a sua inquietação por onde passa.

Criado durante os anos oitenta em formato de revista em quadrinho, a sua figura atravessou gerações e ganhou os mais diversos meios (televisão, cinema e teatro).

Confira a entrevista concedida por Ziraldo onde o criador explicita o processo de criação do Menino Maluquinho:

Entrevista de Ziraldo

Se quiser mais sobre o percurso do escritor e desenhista confira a longa entrevista dada para a TV Assembleia em 2017:

Adaptações para o cinema e a televisão

Alguns dos sucessos de Ziraldo foram adaptados tanto para o cinema quanto para a televisão e para o teatro.

As obras adaptadas até o momento para o audiovisual foram: O Menino Maluquinho (1995 e 1998), Uma professora muito maluquinha (2011) e A turma do Pererê (2018).

Relembre o trailer do primeiro filme Menino Maluquinho:

Frases de Ziraldo

Todos os canalhas foram crianças infelizes.

Somos todos iguais, cheios de problemas e dificuldades e dores na coluna e carências afetivas.

Não existe humor sem uma certa crueldade, embora exista muita crueldade sem humor.

Quem não leva a vida na brincadeira, não sabe o gosto que é brincar, a pessoa fica adulta e logo fica velhinha, depois, não sei mais o que acontece.

Adulto vive tendo saudades da vida que passou. Criança tem saudades do futuro.

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).