Poema Vou-me embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira


Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello • Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Vou-me embora pra Pasárgada é um poema de Manuel Bandeira, publicado no livro Libertinagem em 1930. O poema de características modernistas evoca um escape do sujeito lírico para um lugar melhor, fugindo da sua realidade.

A composição se tornou bastante popular entre os leitores, sendo uma mais célebres do poeta. Venha conhecer mais sobre Pasárgada, o paraíso prometido por Manuel Bandeira!

Poema completo

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Confira, abaixo, um trecho do poema declamado pelo autor:

Análise do poema

Estrofe 1

O poema começa com o sujeito poético comunicando uma decisão: está de partida para Pasárgada. As vantagens do local parecem ser diversas: desde logo, porque ele ocupará uma posição de poder na sociedade (será "amigo do rei").

Essa vida social agitada parece contrastar com a realidade do sujeito, que podemos assumir que é solitária. A ideia é reforçada logo depois, com os versos:

Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

A passagem sugere a necessidade de afeto e contato físico, temas sensíveis para o autor evocados adiante. Mais do que um lugar para a satisfação dos desejos eróticos, Pasárgada é uma espécie de paraíso na terra onde não existe solidão.

Estrofe 2

O sujeito poético passa a expor os motivos que o levam a querer viajar, desabafando sobre seu estado de espírito atual:

Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente...

Fica explícita a tristeza e também a falta de entusiasmo pela vida que leva, em contraste direto com aquela que teria lá, onde tudo é uma grande aventura. O apelo do desconhecido parece cativá-lo e o sujeito manifesta a sua vontade de estar em um local onde tudo é diferente, beirando mesmo o absurdo.

Estrofe 3

Nestes versos, enumera as atividades com que vai ocupar os seus dias, descrevendo um ritmo de vida harmonioso e saudável, com bastante exercício físico e proximidade com a natureza. Existe também uma notória relação com os tempos da infância, o que é confirmado logo em seguida.

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe - d’água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Como se pudesse, magicamente, voltar a ser criança, o sujeito busca em Pasárgada o conforto da sua infância. A mãe d'água, criatura fantástica, surgiria para contar histórias, assim como Rosa, uma figura feminina do passado, costumava fazer. Desta forma, é representada a sua necessidade de proteção e de carinho.

Estrofe 4

O discurso do sujeito vai, gradualmente, tentando convencer aqueles que o escutam sobre as vantagens do local. Trata-se de um lugar muito mais avançado, não só a nível tecnológico mas também socialmente. Referindo a existência de métodos anticoncepcionais e "prostitutas bonitas", sugere que ali teria uma liberdade sexual que não tem na vida real.

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade

Estrofe 5

Mesmo em um lugar assim, o sujeito tem consciência que por vezes ficará triste, a ponto de querer se matar. Aqui, podemos depreender a confissão de uma profunda melancolia que beira o desespero. No entanto, em Pasárgada tudo passaria depressa porque lá ele seria "amigo do rei".

Deste modo, a terra se configura como um local de escape, um refúgio imaginário onde o sujeito pode se esconder da realidade monótona e dolorosa.

Significado de Vou-me embora pra Pasárgada

Pasárgada, a terra idealizada por Manuel Bandeira, existiu mesmo. Era uma cidade persa, tendo sido capital do Primeiro Império, cuja construção foi ordenada pelo imperador Ciro II. Como o próprio poeta explicou, a imagem dessa cidade ficou em sua cabeça desde a adolescência, inspirando a composição.

Sem dúvida, um dos elementos mais marcantes do poema é o escapismo. Comum na literatura, teve uma forte influência na produção do romantismo e do arcadismo. Para os românticos, o escapismo era uma forma de aliviar a dor do amor não correspondido, procurando refúgio em lugares distantes ou na morte.

Para o arcadismo, a fuga era em direção ao bucólico e rural. Em uma época de adensamento urbano, o campo era visto como forma de inspiração e pureza. Contudo, Manuel Bandeira usa essa figura de uma forma genial, afastando-a dos lugares comuns. A poesia é construída com redondilhas, da mesma forma que os poemas árcades, porém a fuga é para uma cidade tecnológica.

O sujeito lírico foge em direção à independência, procurando a aventura, o risco, a diversão. Ali, poderia estar livre das obrigações e das limitações da sua vida. O lugar transcendeu a própria poesia e se tornou parte do nosso imaginário, um oásis onde vida é melhor, um símbolo da liberdade.

Vou-me embora pra Pasárgada é uma espécie de grito de libertação. Mesmo sendo um lugar inalcançável, ele existe na nossa imaginação para nos fazer sentir melhor quando precisamos de um refúgio da vida real.

Música Vou-me embora pra Pasárgada

Uma composição fundamental da literatura nacional, Vou-me embora pra Pasárgada continuou fazendo sucesso ao longo das décadas. Gilberto Gil, cantor e compositor brasileiro, musicou e gravou o poema com Olivia Hime em 1987, para o álbum estrela da vida inteira.

Ainda antes disso, em 1976, o cantor Paulo Diniz lançou a sua versão musicada do poema. Escute abaixo:

Manuel Bandeira e o autobiográfico

Libertinagem é o livro mais modernista de Manuel Bandeira, mas mesmo assim ele usa diversos elementos autobiográficos na obra. Em Vou-me embora pra Pasárgada é evidente a sua frustração perante uma vida repleta de medos e limitações de saúde depois de uma tuberculosa mal curada.

Segundo Alfredo Bosi, em História Concisa da Literatura Brasileira, "o adolescente mal curado da tuberculose persiste no adulto solitário que olha de longe o carnaval da vida e de tudo faz matéria para os ritmos livres do seu obrigado distanciamento".

Sobre a composição, Manuel Bandeira declarou:

Foi o poema de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego (...) Mais de vinte anos quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me Embora pra Pasárgada!”

Manuel Bandeira e o modernismo brasileiro

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira foi um poeta brasileiro, que nasceu em 19 de abril de 1886 no Recife, e morreu em 13 de outubro de 1968 no Rio de Janeiro. Fez parte da Semana de Arte Moderna de 1922 e foi um dos grandes poetas da geração heroica do modernismo brasileiro.

Suas primeiras obras possuíam influência simbolista. Foi em Libertinagem (1930) que o poeta aderiu totalmente ao modernismo. Neste mesmo livro ele publicou a Poética, onde explica suas intenções líricas.

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas


Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

Antes do surgimento das vanguardas no Brasil, o parnasianismo era a corrente literária mais seguida na época. Os parnasianos pregavam uma poesia com rimas ricas e versos metrificados. O principal tema da poesia era a apreciação do belo e a linguagem era muito formal e rebuscada.

Esse é o lirismo "comedido" que Manuel Bandeira critica. Um lirismo que é feito de dicionários e manuais e que dão pouco espaço para a poesia mais íntima e livre. O poeta defende uma liberdade estética e de temas.

Manuel Bandeira tem como matéria prima para as suas poesias uma enorme variedade temática. É, acima de tudo, um artesão da palavras, que busca por meio delas construir imagens bonitas, extraindo lirismo até mesmo de cenas banais.

Curta-metragem O poeta do Castelo (1959)

O poeta do Castelo é um curta-metragem documental de Joaquim Pedro de Andrade rodado em 1959. Nesse filme, o diretor segue Manuel Bandeira enquanto o poeta realiza atos banais do cotidiano em uma manhã qualquer. O poeta também recita alguns de seus poemas, como o Vou-me embora pra Pasárgada.

Assista ao curta na íntegra:

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Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.