Os 7 grandes sucessos dos Novos Baianos


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Um ícone dos anos setenta, quem não se lembra dos Novos Baianos? Originais e revolucionários, o grupo que produziu entre 1969 e 1979 serve de inspiração até hoje para a nova geração de artistas brasileiros.

Que tal relembrar alguns sucessos daquela época?

1. Mistério do Planeta

Vou mostrando como sou e vou sendo como posso.
Jogando meu corpo no mundo,
andando por todos os cantos
e pela lei natural dos encontros,
eu deixo e recebo um tanto.
E passo aos olhos nus ou vestidos de lunetas.

Passado, presente,
participo sendo o mistério do planeta.

A letra de Mistério do Planeta trata da questão da identidade. Aqui o eu-lírico investiga quem é e qual é a sua função no mundo.

O sujeito poético tenta encontrar para si um espaço e procura se definir através das palavras, aceitando e abraçando todas as experiências que passam por ele caracterizando um comportamento jovem, aventureiro.

A composição fala de entrega, de encontro, de parceria e de comunhão com o outro. Só assim o eu-lírico acredita que faz sentido estar no mundo: se envolvendo com o outro.

2. A Menina Dança

Quando eu cheguei tudo, tudo
Tudo estava virado
Apenas viro me viro
Mas eu mesma viro os olhinhos

Só entro no jogo porque
Estou mesmo depois
Depois de esgotar
O tempo regulamentar

A canção composta por Luiz Galvão (letra) e Moraes Moreira (música) foi criada pensando na voz de Baby Consuelo e fala de uma menina cheia de atitude, dona do próprio corpo e plena de vontade.

A música fala de independência e liberdade especialmente da mulher, embora possa ser lida no contexto do ser humano em geral.

Convém lembrar que estamos falando de um período de extrema repressão e censura levadas a cabo pelo governo militar no Brasil. Nesse sentido a canção se mostra também profundamente corajosa e revolucionária.

3. Preta Pretinha

Enquanto eu corria, assim eu ia
eu ia lhe chamar enquanto corria a barca

Por minha cabeça não passava
Só, só, somente só
Assim vou lhe chamar, assim você vai ser

Lá iá lá lá iá, lá lá lá iá, lá iá
Preta, preta, pretinha
eu ia lhe chamar enquanto corria a barca

A canção foi escrita pelo compositor do conjunto (Luiz Galvão) em homenagem à uma jovem que havia conhecido e com quem engatou um romance frustrado. Segundo o letrista, a moça chegou a o apresentar ao pai, mas acabou desistindo da relação e voltou para o namorado, assim surgiu Preta Pretinha.

A barca faz referência a travessia da ponte Rio-Niterói, uma vez que a menina vivia do outro lado da Baía de Guanabara e Luiz morava no apartamento dos Novos Baianos em Botafogo (no Rio). A canção ficou eternizada na voz de Moraes Moreira e se tornou um dos clássicos da música popular brasileira.

Uma curiosidade: a música original era super longa (tinha sete minutos de duração) e acabou ganhando uma versão alternativa mais curta.

4. Swing de Campo Grande

Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual
Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual
Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual

Aqueles que têm uma seta
e quatro letras de amor
por isso onde quer que
eu ande em qualquer pedaço
eu faço

A euforia e a animação são marcas dos Novos Baianos e Swing de Campo Grande traduz bem essa energia. A canção, carregada de metáforas, faz uma referência ao carnaval baiano, terra de origem dos integrantes da jovem banda.

A letra tem um tom místico e espiritual, bastante característico da geração hippie que viveu durante os anos setenta. Nota-se aqui também um espírito festivo e de comunhão típico do grupo.

5. Besta é Tu

Besta é tu, besta é tu, besta é tu, besta é tu, besta é tu, besta é tu.

Não viver nesse mundo, se não há outro mundo.

(Por que não viver?)
Não viver nesse mundo.
(Porque não viver?)
Se não há outro mundo.
(Por que não viver?)
Não viver outro mundo.

A letra acima, composta por Moraes Moreira, contém um mote singelo que é repetido a exaustão ao longo de toda a música. A canção servia como uma espécie de mantra sendo propagado pelos jovens do grupo em uma série de convívios.

O próprio autor assumiu que aquela geração fez uso de LSD e que a composição é consequência de uma dessas viagens coletivas.

Vemos aqui também descrições de cenas banais mas carregadas com um tom de reflexão e tentativa de se encontrar respostas para perguntas filosóficas que nos afligem a todos.

6. Acabou Chorare

Talvez pelo buraquinho
Invadiu-me a casa
Me acordou na cama
Tomou o meu coração
E sentou na minha mão.

Abelha, abelhinha...
Acabou chorare
Faz zunzum pra eu ver

A faixa acima é das mais importantes do conjunto, tanto que deu origem ao nome do disco lançado em 1972. Escrita por Luiz Galvão e musicada por Moraes Moreira, a composição foi inspirada em uma situação real.

Quando os Novos Baianos viviam juntos (no sítio Casinha do Vovô), Luiz Galvão ficava surpreendido com uma situação que lhe acontecia com certa regularidade: uma abelha entrava pela janela e pousava na sua mão. Intrigado ele viu nesse cenário uma oportunidade para desenvolver uma canção.

A música, que faz uso de muitos barulhos, tem uma estética profundamente inspirada no trabalho de João Gilberto, que era considerado pelo jovens como o guru espiritual do conjunto.

7. Brasil Pandeiro

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá

Em Brasil Pandeiro vemos um resgate do samba feito pelos Novos Baianos. A música foi composta por Assis Valente, amigo de João Gilberto, no ano de 1940. Ela foi feita para Carmen Miranda, mas acabou recusada pela artista.

Depois de ter sido negada, João Gilberto lembrou dos seus discípulos e resolveu enviar a composição para os Novos Baianos, que imediatamente aceitaram a sugestão.

A letra fala da relação dos brasileiros com o exterior e desse trânsito de influências e de musicalidade. Com um tom animado e solar, Brasil Pandeiro tenta resumir a nossa cultura múltipla e multifacetada.

Sobre os Novos Baianos

O princípio

1969 foi o ano de formação do grupo. O pontapé inicial se deu com o projeto O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal, realizado no Teatro Vila Velha, em Salvador (Bahia).

Os Novos Baianos atuaram durante o período histórico marcado pela ditadura militar. O grupo, que ficou marcado pela mistura de ritmos (bossa nova, frevo, baião, rock, choro), foi diretamente influenciado pela Tropicália.

Os Novos Baianos foram um marco dos anos setenta no Brasil
Os Novos Baianos foram um marco dos anos setenta no Brasil

Os principais membros do grupo eram: Moraes Moreira (vocal e violão), Luiz Galvão (compositor), Paulinho Boca de Cantor (vocal) e o casal Baby Consuelo (vocal) e Pepeu Gomes (guitarra).

O disco de estreia, É Ferro na Boneca, ficou marcado pela sonoridade pesada do rock com tons locais.

Capa do disco É Ferro na Boneca
Capa do disco É Ferro na Boneca

Por que o nome Novos Baianos?

A origem do nome da banda é curiosa: quando os músicos se inscreveram no V Festival de Música Popular Brasileira, em 1989, sem carregarem propriamente um nome, Marcos Antônio Riso, o então coordenador do evento, gritou na hora da apresentação:

“Chama esses novos baianos”

E assim ficou batizado o grupo. Confira o vídeo da ocasião:

A vida em conjunto

Quando se mudaram da Bahia, os Novos Baianos foram para São Paulo viver em conjunto em uma comunidade anárquica.

O outro destino foi o Rio de Janeiro (mais precisamente um sítio em Jacarepaguá) quando todos escolheram passar ainda mais tempo juntos coabitando de um modo hippie com o objetivo de alcançar um maior entrosamento. O plano parece ter dado certo.

O auge e a dissolução

O terceiro disco da banda Acabou Chorare (1972) foi eleito pela revista Rolling Stones como o melhor disco da história da música brasileira.

No ano a seguir eles lançaram Novos Baianos F.C. (1973) seguido de Novos Baianos (1974).

Capa do CD Acabou Chorare
Capa do CD Acabou Chorare

O conjunto continuou criando e se apresentando durante algum tempo até optarem pela dissolução completa em 1979.

Moraes Moreira foi o primeiro a desistir do projeto ao resolver seguir carreira solo. Os outros integrantes acabaram cedo ou tarde optando pelo mesmo caminho.

Os Novos Baianos se reuniram novamente em 1997 para lançar o disco duplo Infinito Circular. Em 2016 se uniram outra vez para realizarem uma série de shows.

Os Novos Baianos se reuniram novamente no final dos anos noventa.
Os Novos Baianos se reuniram novamente no final dos anos noventa.

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).