Naturalismo no Brasil


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O Naturalismo no Brasil se iniciou com a publicação do romance O Mulato (1881), de Aluísio de Azevedo (1857-1913), no princípio do século XIX.

Saiba mais sobre esse importante movimento artístico que marcou a literatura brasileira.

O que foi o Naturalismo?

O Naturalismo foi uma ramificação (considerado por alguns uma extensão) do Realismo com características muito peculiares. Muitos críticos afirmam que o Naturalismo pode ser lido como uma radicalização do Realismo.

O Naturalismo ganhou contornou mais específicos como, por exemplo, a composição de obras com características exageradas - que ilustravam mesmo uma animalização do homem.

As obras naturalistas costumam com muita frequência abordarem a questão do sexo, justamente por ele despertar o lado animalesco e incontido do ser humano. O instinto - que faz parte do nosso lado animal - é outro norteador desse tipo de literatura. Confira um trecho de O Cortiço que comprova as observações acima:

Também cantou. E cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bêbedo de volúpia, enroscava-se todo ao violão; e o violão e ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos sensuais, num desespero de luxúria que penetrava até ao tutano com línguas finíssimas de cobra.

O objeto do interesse dos escritores dessa geração era a classe operária encarada a partir de uma visão crítica. Vigorava nessa época uma visão determinista.

O Mulato
Capa da primeira edição do livro O Mulato, de Aluísio de Azevedo, que inaugurou o Naturalismo no Brasil.

O determinismo, teoria defendida pelo historiador francês Hippolyte Adolphe Taine, pregava que havia três forças das quais o homem não era capaz de fugir: o meio, o momento histórico e a raça. Essa tese concluía que o homem seria produto do meio, ou seja, se o meio era bom o homem consequentemente seria bom, por outro lado se o meio fosse ruim o homem acabaria por se tornar ruim.

Hippolyte Adolphe Taine
Hippolyte Adolphe Taine, um dos expoentes do determinismo, teoria que serviu de base para o movimento naturalista.

Outra base do Naturalismo foi o darwinismo, nessa literatura vemos como apenas os mais aptos - aqueles que melhor conseguem lidar com o meio adverso - sobrevivem.

Características básicas do Naturalismo

Os autores naturalistas mantinham o foco na classe operária, dominada e explorada, e a observavam com um olhar determinista e positivista. Vigorava entre os adeptos do movimento uma crença comum de que o meio determina o homem (sob a perspectiva naturalista seríamos considerados sempre frutos do meio).

Como possuíam um forte desejo alcançar uma objetividade, em termos literários procuravam ir direto ao cerne da questão (sob esse ponto de vista o Naturalismo se opõe a escola romântica, que prezava a subjetividade). Os naturalistas faziam uso de uma linguagem coloquial e eram profundamente descritivos.

Esse exercício procurava alcançar uma verossimilhança, isto é, transmitir o máximo possível uma noção de realidade. A prática brotava de uma profunda observação do mundo exterior que permitia que o escritor traçasse um retrato preciso das personagens. Os autores tinham a ambição de alcançarem uma universalidade através dos seus livros.

Lemos também nas obras dessa geração a presença de um cientificismo e a ênfase no aspecto biológico. Havia um interesse em compreender as patologias, as doenças que o ser humano carrega tanto físicas quanto psíquicas.

Principal autor naturalista brasileiro: Aluísio de Azevedo (1857-1913)

Aluísio de Azevedo

Retrato de Aluísio de Azevedo, principal autor naturalista brasileiro.

O precursor do Naturalismo no Brasil escreveu romances experimentais e de tese com foco no coletivo (a influência do meio no ser humano). Aluísio de Azevedo foi um dos representantes do determinismo e em suas obras fica clara a noção de que o meio condena o homem. Observe um trecho de O Cortiço onde o personagem Jerônimo (um português), começa a mudar o seu comportamento depois de se mudar para o Brasil:

A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se de seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar de que guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor

Para além do determinismo latente, as obras de Aluísio de Azevedo tematizavam sempre as patologias e o lado obscuro do homem (que muitas vezes se apresentava como cruel, mesquinho, baixo) e também deixava ver as perversões sexuais (o incesto, a pedofilia, os desejos reprimidos).

Entre as principais obras de Aluísio de Azevedo estão:

Contexto histórico

Na época do surgimento do Naturalismo o mundo passava pela Segunda Revolução Industrial, o capitalismo vivia um processo de ascensão. Com o ritmo de produção aumentando havia cada vez mais uma necessidade de maior mão de obra.

No Rio de Janeiro (capital imperial) vigorava o Segundo Reinado, estávamos nas mãos de D.Pedro II.

D.Pedro II
O Naturalismo no Brasil ocorreu durante o Segundo Reinado de D.Pedro II.

Dois eventos chave marcaram o período no Brasil: a Abolição da Escravatura em 1888 (assinatura da lei Áurea) e a Proclamação da República no ano a seguir.

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).