Música Wake Me Up When September Ends, do Green Day


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Wake Me Up When September Ends é dos maiores sucessos da banda de rock norte-americana Green Day.

Lançada em 2004, a canção, escrita pelo vocalista Billie Joe Armstrong, é autobiográfica e trata da morte do próprio pai.

Quando o pai de Billie faleceu, vítima de câncer, durante o mês de setembro, o menino tinha apenas dez anos.  A dor avassaladora ainda não tinha ganhado forma até que, vinte anos mais tarde, se transformou em uma belíssima canção.

Letra

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Like my father's come to pass
Seven years has gone so fast
Wake me up when September ends

Here comes the rain again
Falling from the stars

Drenched in my pain again
Becoming who we are

As my memory rests
But never forgets what I lost

Wake me up when September ends

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Ring out the bells again
Like we did when spring began

Wake me up when september ends

Here comes the rain again
Falling from the stars

Drenched in my pain again
Becoming who we are

As my memory rests
But never forgets what I lost

Wake me up when september ends

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends

Like my father's come to pass
Twenty years has gone so fast
Wake me up when September ends

Wake me up when September ends
Wake me up when September ends

Análise da letra

A canção se inicia de modo sereno e suave, com uma melodia tranquila. O ritmo assim se mantém até o décimo terceiro verso, quando então a música muda de tom para um registro mais agitado e agressivo.

Nos primeiros dois versos o eu-lírico frisa a passagem do tempo através do ciclo das estações: 

Summer has come and passed (O verão veio e se foi)
The innocent can never last (O inocente nunca sobrevive)

A referência ao inocente permite algumas leituras distintas. Por um lado pode fazer referência ao pai de Billie, que morreu de modo precoce, vítima de câncer. Por outro lado o inocente pode ser o próprio compositor que, com apenas dez anos, ficou órfão.

Depois do lançamento do clipe, que faz uma referência aos atentados de 11 de setembro e à Guerra no Iraque, os inocentes também podem ser identificados como as vítimas dos conflitos. 

O terceiro verso é o título da canção e o mote que irá se repetir ao longo da música, quase como um pedido do eu-lírico a todos que o ouvem:

Wake me up when September ends (Me acorde quando setembro acabar)

O pai de Billie faleceu no dia primeiro de setembro de 1982. O verso acima teria sido uma frase dita pelo compositor - ainda criança - para a mãe, logo depois do funeral do pai.

Billie não queria acreditar no que estava vivendo e, revoltado com a injustiça, fez o pedido desesperado à mãe. Vinte anos mais tarde, a frase foi recuperada pela memória e se transformou na canção.

A memória do pai é revivida de forma mais evidente nos versos a frente:

Like my father's come to pass (Como meu pai veio para ir embora)
Seven years has gone so fast (Sete anos passaram tão rápido)

Para o ouvinte que desconhecia os bastidores da criação da música, o verso acima dá pistas do que se passou na história pessoal do letrista.

Os sete anos, mencionados no verso, fazem uma referência à constituição da banda que tomou corpo sete anos após a morte do pai do vocalista. Inicialmente os Green Day carregavam o nome Sweet Children, apesar de terem a mesma composição.

Depois de relembrar de modo mais direto a morte do pai, a letra desvia o olhar do eu-lírico da sua própria condição emocional e passa a enfocar a paisagem:

Here comes the rain again (Aí vem a chuva novamente)
Falling from the stars (Caindo das estrelas)
Drenched in my pain again (Embebida na minha dor de novo)
Becoming who we are (Tornando-se quem nós somos)

A chuva mencionada pode ser o sinônimo da dor onde o vocalista mergulha novamente ao relembrar o passado. A passagem, extremamente poética, mostra a chuva não caindo do céu, mas sim das estrelas.

A água do lado de fora se mistura com as lágrimas e com o sofrimento do eu-lírico.

A tristeza, ele sublinha, faz do sujeito quem ele é, é parte essencial da construção da identidade. Os nossos traumas, as nossas perdas e os nossos dramas nos constituem enquanto seres humanos. 

As my memory rests (Como as minhas lembranças descansam)
But never forgets what I lost (Sem nunca esquecer o que eu perdi)

Aqui o eu-lírico sublinha que, apesar de ter crescido e experimentado a vida, a memória do pai estará sempre presente.

Por mais que seja uma lembrança descansada - porque já não lateja como nos primeiros tempos de luto - a ferida ainda permanece viva. O esquecimento não paira sobre o acontecimento da morte do pai, que o compositor levará para o resto dos seus dias. 

A letra se repete, com apenas uma pequena grande modificação. Na segunda parte da canção é incluído o verso:

Twenty years has gone so fast (Vinte anos passaram tão rápido) 

Vinte anos é mencionado porque, somente vinte anos após a morte do pai, Billie foi capaz de escrever a canção. Foi preciso respeitar o tempo do luto e do amadurecimento para então o compositor mergulhar novamente nos sentimentos que viveu e conseguir transformar o mar de afeto em música. 

Wake Me Up When September Ends é uma canção que elabora o luto, o sofrimento e transporta o ouvinte para um momento de dificuldade. 

Tradução

O verão veio e se foi
O inocente nunca sobrevive
Me acorde quando setembro acabar

Como meu pai veio para ir embora
Sete anos passaram tão rápido
Me acorde quando setembro acabar

Aí vem a chuva novamente
Caindo das estrelas

Embebida na minha dor de novo
Tornando-se quem nós somos

Como as minhas lembranças descansam
Sem nunca esquecer o que eu perdi

Me acorde quando setembro acabar

O verão veio e se foi
O inocente nunca sobrevive
Me acorde quando setembro acabar

Toque os sinos novamente
Como nós fizemos quando a primavera começou

Me acorde quando setembro acabar

Aí vem a chuva novamente
Caindo das estrelas

Embebida na minha dor de novo
Tornando-se quem nós somos

Como as minhas lembranças descansam
Sem nunca esquecer o que eu perdi

Me acorde quando setembro acabar

O verão veio e se foi
O inocente nunca sobrevive
Me acorde quando setembro acabar

Como meu pai veio para ir embora
Vinte anos passaram tão rápido
Me acorde quando setembro acabar

Me acorde quando setembro acabar
Me acorde quando setembro acabar

Bastidores da criação

Quando o pai de Billie Joe Armstrong, vocalista do Green Day, perdeu o seu pai na luta contra o câncer em 1 de setembro de 1982, ele não quis acreditar na dura realidade. Billie tinha apenas dez anos de idade quando ficou órfão.

Após o funeral, o cantor correu para casa e se trancou no quarto. Quando a mãe chegou e bateu na porta, Billie respondeu a frase que viraria título da canção: "Me acorde quando setembro acabar".

A música era para ter sido incluída no álbum Shenanigans, lançado pelo Green Day em 2002. Na ocasião, no entanto, o compositor não se sentiu seguro emocionalmente para gravá-la. Wake Me Up When September Ends foi então incluída no disco American Idiot, lançado em 2004.

Não por acaso a faixa é a décima primeira do álbum, uma referência ao dia dos atentados que mais marcaram a América: 11 de setembro de 2001.

Wake Me Up When September Ends foi gravada no disco American Idiot, lançado em 2004.
Wake Me Up When September Ends foi gravada no disco American Idiot, lançado em 2004.

Clipe

Se distanciando da história real por trás da criação da música (o falecimento precoce do pai de Billie), o clipe é focado numa reflexão mais ampla sobre a fugacidade da vida tendo como pano de fundo o clima nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro.

Aqui, portanto, o mês de setembro passa a ser ressignificado. Setembro foi um mês pessoalmente duro para Billie, que perdeu o pai, mas foi também um mês dificílimo para todos os americanos que passaram pela tragédia do 11 de setembro.

Dirigido por Samuel Bayer (que já havia assinado a direção do clipe Smells Like Teen Spirit, do Nirvana), o clipe dos Green Day começa com um diálogo que transborda afeto entre um casal de adolescentes. A dupla é composta pelos atores Jamie Bell e Evan Rachel Wood. 

Jamie começa o vídeo em uma paisagem descampada, discursando sobre a imprevisibilidade da vida, a ameaça de um dia acordar e perder tudo subitamente - sonhos, planos, desejos. Os dois estão na plenitude da vida: são jovens, bonitos, têm um ao outro e um amor que parece puro e verdadeiro. 

Durante a declaração de amor feita à amada, Jamie sublinha que só quer viver o aqui e o agora e que deseja que aquele momento seja eterno. Ela, em retribuição, promete nunca o deixar.

A partir do abraço dos dois surge a música, que serve, a princípio, como trilha sonora para ilustrar o leve cotidiano a dois. Vemos passar na tela momentos doces entre o casal: aniversários, passeios, gargalhadas. 

A meio do clipe, a jovem aparece subitamente desesperada e frustrada com o parceiro. Ela chora, grita, se descontrola. A partida somos induzidos a crer que se trata de uma traição, mas afinal ficamos sabendo o real motivo: ele se alista para o exército às escondidas e decide participar da Guerra no Iraque. Com o clima de insegurança nos Estados Unidos, ele argumenta que fez isso pensando nela. 

A música se torna cada vez mais agitada e cenas violentas do conflito armado no campo de batalha se misturam com as da amada, sofrendo, em casa, na América. 

As declarações de amor já não aparecem mais e vemos se passar exatamente o que Jamie filosofava no princípio do clipe: a fugacidade da vida, os momentos bons rapidamente dando lugar aos maus. 

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).