Música Helena, de My Chemical Romance


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Composta por Gerard Way - vocalista da banda de rock norte-americana My Chemical Romance - , a música Helena foi criada após a morte da sua avó Elena Lee Rush.

Os dois tinham uma relação muito próxima (foi a avó que ensinou Gerald a cantar, a pintar e a desenhar) e o falecimento foi devastador para o neto, que resolveu transformar a sua angústia em música.

O compositor chegou a afirmar em diversas entrevistas que Helena é a música mais importante para ele e para a sua banda.

A canção está inserida no segundo álbum do grupo intitulado Three Cheers for Sweet Revenge, que foi lançado no dia 8 de junho de 2004.

Letra de Helena (So Long & Goodnight)

Long ago
Just like the hearse, you die to get in again
We are so far from you

Burning on, just like a match you strike to incinerate
The lives of everyone you know
And what's the worst you take (worst you take)
From every heart you break (heart you break)
And like a blade you stain (blade you stain)
Well, I've been holding on tonight

What's the worst that I can say?
Things are better if I stay
So long and goodnight
So long not goodnight

Came a time
When every star falls
Brought you to tears again
We are the very hurt you sold
And what's the worst you take (worst you take)
From every heart you break (heart you break)
And like a blade you stain (blade you stain)
Well, I've been holding on tonight

What's the worst that I can say?
Things are better if I stay
So long and goodnight
So long not goodnight
Well, if you carry on this way
Things are better if I stay
So long and goodnight
So long not goodnight

Can you hear me?
Are you near me?
Can we pretend to leave and then
We'll meet again, when both our cars collide

What's the worst that I can say?
Things are better if I stay
So long and goodnight
So long and goodnight
Well, if you carry on this way
Things are better if I stay
So long and goodnight
So long not goodnight

Análise da letra

A letra se inicia já com o tema da morte e com o ritual de sepultamento de alguém próximo:

Long ago (Há muito tempo)
Just like the hearse, you die to get in again (Assim como no carro funerário, você morre para entrar nele de novo)

Na frase a seguir temos mais pistas de que se trata do falecimento de um ente querido, mas de quem o eu-lírico estava fisicamente distante. É interessante ressaltar que se usa na letra o Nós ao invés do Eu, o que pode ser uma referência ao compositor Gerard Way e ao irmão, o baixista Michael Way:

We are so far from you (Nós estamos tão longe de você)

Esse trecho pode possuir duas interpretações distintas. Por um lado ele pode se referir a situação de afastamento antes da morte (a distância proporcionada devido as rotinas da banda), por outro lado já pode se referir à separação causada pelo próprio falecimento.

A letra continua com o tom de lamento e o trecho a seguir trata justamente da efemeridade da vida:

Burning on just like a match you'll strike to incinerate (Queimando, assim como o fósforo)
The lives of everyone you know (Que você risca para incinerar)

A imagem do fósforo queimando nos lembra da transitoriedade do tempo e da finitude de todos nós.

Apesar de estar em profundo sofrimento, o eu-lírico declara que está conseguindo suportar a dor pelo menos provisoriamente (Well, I've been holding on tonight / Bem, eu estive aguentando firme esta noite).

A seguir o sujeito se pergunta qual é a pior coisa que poderia dizer e suspeita que, se ficar, a situação irá melhorar.

What's the worst thing I can say (Qual é a pior coisa que eu poderia dizer?)
Things are better if I stay (As coisas seriam melhores se eu ficar)

A canção dos My Chemical Romance pode fazer uma referência à uma das peças mais famosas de Shakespeare. Em Sonho de Uma Noite de Verão há uma personagem chamada Helena que, quase ao final da peça, cai em um sono profundo. A história coincide com parte da letra da banda norte-americana:

So long and Goodnight (Até mais, sem boa noite)

Pleno de saudade o eu-lírico chama por aquela que não está, desejando sentir-se próximo dela:

Can you hear me? (Você pode me ouvir?)
Are you near me? (Você está perto de mim?)

Quando o sujeito afirma que "Came a time / When every star fall brought you to tears again" (Chegou uma hora em que cada estrela caía novamente) sublinha-se que a tristeza se agravou e a hora da partida está próxima. É esse o caminho de todas as estrelas e todos os seres vivos: seguirem em direção à morte. Essa consciência do fim - quando se perde alguém querido ou se vê o seu próprio fim se aproximar - traz lágrimas aos olhos.

O trecho abaixo pode estar se referindo aos caminhos das vidas de avó e neto se cruzando novamente, quando ambos talvez se encontrem no Céu após a morte de Gerard:

Can we pretend to leave and then (Nós podemos fingir que partimos e então)
We'll meet again, when both our cars collide (Nós nos encontraremos de novo, quando nossos carros colidirem)

Curiosamente foi avó que deu o primeiro carro a Gerald: a van branca que aparece no vídeo original I'm Not Okay (I Promise), provavelmente por isso há uma alusão à veículos na letra de Helena.

A canção Helena, composta por Way, é uma bela homenagem à avó ao mesmo tempo que é absurdamente honesta e deixa transparecer a raiva, o medo e a saudade presentes em quem perde uma pessoa querida.

Sobre a criação da música

Em entrevista, Gerald confessou que Helena havia sido inspirada na canção Aces high, de Iron Maiden.

Vale lembrar que Elena Lee Rush era também avó do baixista da banda, Mikey Way, que queria igualmente encontrar uma maneira de homenageá-la.

O 'H' foi acrescentado ao nome da música porque muitos amigos próximos chamavam-a de Helen.

Antes de tocar Helena durante turnê americana de 2005, Gerard Way pedia à multidão para olhar para cima e dizia: "Hey, vovó! What's up?"

Quando perguntado sobre o processo de criação da música, Gerald frisou também a questão do ódio pessoal que sentia especialmente por não ter estado próximo da avó nos últimos tempos da vida dela:

"Eu tinha muito ódio contra mim mesmo, o exemplo mais recente foi a canção Helena. É mesmo uma carta aberta de ódio contra mim mesmo. É sobre porque eu não estava por perto para essa mulher que era tão especial para mim, porque eu não estava lá no último ano da sua vida."

A canção Helena é a primeira faixa do álbum Three Cheers for Sweet Revenge, lançado em 8 de junho de 2004.

Capa do álbum Three Cheers for Sweet Revenge.
Capa do álbum Three Cheers for Sweet Revenge.

Tradução

Há muito tempo
Assim como o carro funerário, você morre para entrar novamente
Nós estamos tão longe de você

Queimando, assim como o fósforo que você risca para incinerar
As vidas de todo mundo que você conhece
E qual é a pior coisa que você leva (coisa que você leva)
De cada coração que você parte (coração que você parte)
E como a lâmina, você mancha (lâmina, você mancha)
Bem, eu estive esperando esta noite

Qual é a pior coisa que eu posso dizer?
Tudo fica melhor se eu ficar
Até mais e boa noite
Até mais sem boa noite

Veio um tempo
Quando todas as estrelas caírem
Te fizerem chorar novamente
Nós somos os muito feridos que você vendeu
E qual é a pior coisa que você leva (coisa que você leva)
De cada coração que você parte (coração que você parte)
E como a lâmina, você mancha (lâmina, você mancha)
Bem, eu estive esperando esta noite

Qual é a pior coisa que eu posso dizer?
Tudo fica melhor se eu ficar
Até mais e boa noite
Até mais sem boa noite
Bem, se você continuar nesse caminho
Tudo fica melhor se eu ficar
Até mais e boa noite
Até mais sem boa noite

Você pode me ouvir?
Você está perto de mim?
Nós podemos fingir que partimos e então
Nós nos encontraremos de novo, quando nossos carros colidirem

Qual é a pior coisa que eu posso dizer?
Tudo fica melhor se eu ficar
Até mais e boa noite
Até mais e boa noite
Bem, se você continuar nesse caminho
Tudo fica melhor se eu ficar
Até mais e boa noite
Até mais sem boa noite

Clipe

O clipe de Helena foi filmado em 2005 na Igreja Presbiteriana Immanuel, no Wilshire Boulevard, em Los Angeles, Califórnia.

Nas imagens a banda se encontra no funeral de Helena, uma mulher jovem interpretada por Tracy Phillips.

O cenário gótico, repleto de candelabros e velas, é quase todo negro e vermelho - as cores simbólicas da morte e da paixão.

O espectador é capaz de sentir a atmosfera soturna e misteriosa daquele lugar sinistro e é embalado por vários sentidos, inclusive pelo olfato, através da presença de um defumador que aparece sendo carregado no corredor principal logo no início do clipe.

A identidade visual, especialmente os figurinos e a maquiagem dos participantes é estilo emo e bastante característica do movimento que teve seu auge na juventude dos anos 2000.

A meio de uma ocasião trágica - um funeral, cercado de silêncio e lágrima - surge uma atitude inesperada: as pessoas começam a dançar provocando um choque total de expectativas. Embalados pela música dos My Chemical Romance, os dançarinos fazem coreografias dramáticas sincronizadas.

O diretor Marc Webb, responsável pelo clipe, dirigiu filmes famosos como (500) Dias Com Ela e dois filmes da série O Espetacular Homem-Aranha.

Vemos no clipe uma série de cenas com close, por exemplo, que ressaltam a individualidade dos personagens em questão. Essa proximidade também traz um peso de dramaticidade enfocando nas expressões de cada membro da banda e nos atores, é como se nós fossemos capazes de sentir, ao menos por alguns breves minutos, o sofrimento deles.

As pessoas que estão assistindo o funeral parecem a princípio alheias e apáticas, mas depois surpreendentemente acabam por participar do coro partilhando com os músicos e com os bailarinos um sentimento comum.

Quando todos parecem estar na mesma vibe, Helena se levanta do caixão e passa a dançar como uma bailarina no corredor central. Na verdade, essa atitude trata-se de uma representação simbólica da sua alma passando para a vida após a morte.

Ao final, a banda se reúne para carregar o caixão em um carro funerário e a porta do porta-malas se fecha, com Gerard Way - o compositor e vocalista - espiando.

Nós o vemos a partir da posição do morto, isto é, de dentro do carro funerário. Tal tomada, poderosa, faz com que nos questionemos de que lado da história efetivamente estamos - estaríamos mortos, como a bela bailarina?

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).