A incrível literatura de Monteiro Lobato


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Monteiro Lobato (1882-1948) permanece no imaginário coletivo como autor de dezenas de clássicos da literatura infantil brasileira que chegaram a ser importados para o exterior.

Criador de um mundo fantástico, algumas de suas obras foram adaptadas para o teatro, para o cinema e para a televisão. Relembre agora algumas das suas criações mais famosas.

Principais obras de Monteiro Lobato

Urupês (1918)

Urupês reúne uma série de contos e o título do livro foi retirado do último texto integrante da obra.

O escritor foi considerado pela sua geração um inovador por utilizar vocábulos regionais, valorizando a fala do caipira e muitas vezes ousando na criação de frases de estrutura não habitual.

A novidade se deu, portanto, em termos de conteúdo (por elevar um homem do povo a protagonista), mas sobretudo em termos de linguagem.

Vale lembrar que, na época em que Monteiro Lobato escreveu, a fala informal era malvista na literatura, imagine o quão polêmico não foi o resgate da oralidade e da considerada "cultura inferior". Confira o trecho abaixo: 

"Perguntem ao Jeca quem é o presidente da República.
– “O homem que manda em nós tudo?”
– “Sim.”
– “Pois de certo que há de ser o imperador.”
Em matéria de civismo não sobe de ponto.
– “Guerra? Te esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato pra mais de cinco anos por causa da guerra grande.4 Eu, para escapar do ‘reculutamento’, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço..."

Jeca se expressa sem qualquer preocupação com o português formal, sua fala é transcrita a partir de uma transcrição oral, respeitando as particularidades da fala do sujeito caipira. 

Jeca Tatu foi um dos principais protagonistas de Lobato caracterizado por ser um típico representante da cultura brasileira. O personagem foi descrito pelo próprio autor em Urupês como:

"Jeca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie. Ei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada de esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.

– “Não vê que..."

Urupês foi um dos trabalhos que deu o pontapé inicial no interesse do público pelos assuntos nacionais.

Depois de Monteiro Lobato surgiram muitos autores que aproveitaram a oportunidade despertada pelo escritor precursor, entre eles Mário de Andrade, Lúcio Cardoso, Jorge Amado, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego e Oswald de Andrade.

Urupês abriga os seguintes contos:

  • Os faroleiros (escrito em 1917)
  • O engraçado arrependido (escrito em 1917)
  • A colcha de retalhos (escrito em 1915)
  • A vingança da peroba (escrito em 1916)
  • Um suplício moderno (escrito em 1916)
  • Meu conto de Maupassant (escrito em 1915)
  • "Pollice verso" (escrito em 1916)
  • Bucólica (escrito em 1915)
  • O mata-pau (escrito em 1915)
  • Bocatorta (escrito em 1915)
  • O comprador de fazendas (escrito em 1917)
  • O estigma (escrito em 1915)
  • Velho praga (escrito em 1914)
  • Urupês (escrito em 1914)

O livro Urupês teve uma tiragem inicial de mil exemplares que logo se esgotou.

As vendas foram especialmente impulsionadas pelo comentário que Rui Barbosa teria feito durante a campanha presidencial. Em março de 1919, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, perguntou quem ali conhecia Jeca Tatu.

Em carta para o amigo Godofredo Rangel, Monteiro Lobato confessa estar surpreendido com o resultado das vendas de Urupês:

“Os Urupês vão se vendendo melhor do que esperei e neste andar tenho de vir com a segunda edição dentro de três ou quatro semanas. Há livrarias que no espaço duma semana repetiram o pedido três vezes”

Em 1921 as vendas aumentam ainda mais porque Lobato conseguiu fazer uma edição popular de Urupês a um terço do preço. Segundo Gilberto Freyre, autor do consagrado Casa-grande & Senzala

“Em Urupês surge um escritor brasileiro de um novo tipo, quer pelas atitudes de crítico social, quer pela expressão, pela frase, pela forma, pela retórica: sua argumentação e sua persuasão através de palavras que sugerem gestos. Um ora artista, ora técnico da comunicação”

Primeira edição de Urupês, lançada em 1919.
Capa original de Urupês, lançado em 1918.

Urupês pode ser baixado gratuitamente em formato pdf.

O saci (1921)

Dividido em vinte e oito capítulos, O saci narra uma história voltada especialmente para as crianças que tem como protagonista o Saci-Pererê, um símbolo da cultura nacional.

Ao escolher o personagem para ocupar um lugar de destaque em sua obra o que Monteiro Lobato faz é enaltecer as raízes e o patrimônio cultural do Brasil. Mitos, lendas e superstições são abraçadas pelo escritor que se apropria e faz uso delas em seus livros infantis.

Antes de publicar O saci para o público infantil, Monteiro Lobato publicou o resultado de um inquérito intitulado O Sacy-Perêrê. O livro, com 300 páginas, teve tiragem inicial de dois mil exemplares e foi produto de uma densa pesquisa do escritor acerca da cultura brasileira.

É sabido que uma das maiores preocupações do escritor era a transmissão do conhecimento ancestral e a preservação da cultura brasileira. Por esse motivo, não surpreende a escolha de protagonistas caipiras e caboclos como o Saci, a Cuca e o Jeca Tatu. 

Quando, em 1921, Monteiro Lobato transformou os seus estudos em O saci, um livro infantil, o heroi escolhido apareceu suavizado, isto é, com traços de criança e atitudes brincalhonas.

Se na cultura popular muitas vezes o saci aparecia como um capeta num corpo de criança, na versão de Lobato ele já não apresenta chifres, nem porrete, nem qualquer adereço que o fizesse parecer ameaçador.

Tio Barnabé descreve assim o Saci:

"O Saci – começou ele – é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe ... Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do Saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça."

A partir da descrição acima podemos perceber como o Saci é descrito parecendo uma criança arteira e não uma criatura do mal.

Ao lado do Saci são apresentados outros personagens típicos da cultura nacional, a intenção de Monteiro com esse gesto é de caráter educativo, de divulgação das lendas locais. São esses os personagens mencionados:

  • Jurupari;
  • Curupira;
  • Iara;
  • Caipora;
  • Porca-dos-sete-leitões;
  • Negrinho do Pastoreio;
  • Cuca;
  • Boitatá;
  • Mula-sem-cabeça;
  • Lobisomem.

A publicação é dividida em vinte e oito capítulos que narram a chegada de Pedrinho ao sítio do Picapau para passar férias e o encontro com o Saci. 

É em torno do personagem que dá título ao livro que se constroem as aventuras. A obra chegou a ser adaptada para o cinema.

O saci, lançado em 1921.
O saci, lançado em 1921.

O livro O Saci está disponível para download gratuito em formato pdf.

Reinações de Narizinho (1931)

As primeiras histórias do Sítio do Picapau Amarelo foram reunidas na publicação Reinações de Narizinho, lançada em 1931.

O objetivo do autor era produzir livros que agradassem tanto as crianças ao ponto de fazer com que elas quisessem habitar aquele universo imaginário:

“Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora, sim morar, como morei no Robinson e n’ Os Filhos do Capitão Grant”

É neste volume que Emília ganha voz, deixando Dona Benta e Tia Nastácia pasmas com a transformação da boneca que, de muda, passa a falar feito gente. Lá também está o famoso pó de pirlimpimpim fornecido por Peninha.

Encontramos nas páginas igualmente um Pedrinho apaixonado pelo universo da leitura que se identifica profundamente com o personagem Peter Pan porque, assim como ele, não deseja crescer.

É interessante perceber também como os personagens do mundo dito real (Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho) se misturam com criaturas ficcionais das lendas brasileiras (o Saci, a Cuca) e internacionais (a Cinderela, a Branca de Neve) no País das Fábulas.

Dona Benta deixa transparecer em um trecho de Reinações de Narizinho como esses dois universos se mesclam:

"– Já não entendo estes meus netos. Fazem tais coisas que o Sítio está virando livro de contos da Carochinha. Nunca sei quando falam de verdade ou de mentira. Este casamento com peixe, por exemplo, esta me parecendo brincadeira, mas não me admirarei se um belo dia surgir aqui um marido-peixe, nem que esta menina [Narizinho] me venha dizer que sou bisavó duma sereiazinha..."

Na obra também vemos uma crítica aos valores eruditos e ao saber letrando em detrimento da cultura popular e da fábula nacional.

O livro se encerra com Pedrinho retornando para a cidade grande frustrado por ter que abandonar aquele maravilhoso muito de fantasias.

O clássico da literatura infantil Reinações de Narizinho encontra-se disponível para download em formato pdf.

O Picapau Amarelo (1939)

O livro O Picapau Amarelo começa com uma carta de Pequeno Polegar dirigida à Dona Benta. Ao longo da escrita ele pede licença à dona da casa para que os personagens do Mundo da Fábula sejam autorizados a se mudarem para o Sítio do Picapau Amarelo.

A narrativa se inicia com uma bela definição do que seria o Mundo de Mentira e a sua relação com a realidade, vejamos:

"O Mundo de Mentira, ou Mundo da Fábula, é como a gente grande costuma chamar a terra e as coisas do País das Maravilhas, lá onde moram os anões e os gigantes, as fadas e os sacis, os piratas como o Capitão Gancho e os anjinhos como Flor das Alturas. Mas o Mundo da Fábula não é realmente nenhum mundo de mentira, pois o que existe na imaginação de milhões e milhões de crianças é tão real como as páginas deste livro. O que se dá é que as crianças logo que se transformam em gente grande fingem não mais acreditar no que acreditavam."

Dona Benta concorda com a mudança, mas impõe regras para que os dois mundos possam conviver. No entanto, a senhora não consegue remeter a carta resposta para o Pequeno Polegar porque não possuía o endereço. Quem a ajuda nessa tarefa e faz a mediação entre os dois mundos é Emília.   

Após aceitarem as regras, isso é, cada grupo deve permanecer do seu lado da cerca, os personagens do Mundo da Fábula se mudam para o Sítio.

Entre os novos moradores estão: o Pequeno Polegar, a Branca de Neve, as princesas Rosa Branca e Rosa Vermelha, a Gata Borralheira, a Chapeuzinho Vermelho e o Peter Pan.

Uma curiosidade: o sítio do Picapau Amarelo efetivamente existe e está situado em Taubaté (Estado de São Paulo).

O Picapau Amarelo já faz parte do domínio público por isso pode ser baixado gratuitamente em formato pdf.

A chave do tamanho (1942)

Lançado em 1942, em período de plena Segunda Guerra Mundial, é de se sublinhar o enredo do livro criado por Monteiro Lobato.

Em A chave do tamanho, Emília viaja para o fim do mundo a procura da "casa das chaves", um lugar que supostamente abrigaria todas as chaves do mundo. Seu objetivo era desativar a chave da guerra, para dar fim aos conflitos.

Confusa com a quantidade de chaves presente no local, Emília acaba por desativar a chave do tamanho alterando assim a estatura dos homens.

Embora o seu plano não tenha saído como planejado, a boneca alcança o seu objetivo final:

"Mas a guerra acabou! Ah, isso acabou! Pequeninos como eu, os homens não podem ma- tar-se uns aos outros, nem lidar com aquelas terríveis armas de aço. O mais que poderão fazer é cutucar-se com alfinetes ou espinhos. Já é uma grande coisa... (...) A vida agora vai começar de novo – e muito mais interessante. Acabaram-se os canhões, e tanques, e pólvora, e bombas incendiárias"

O livro A chave do tamanho encontra-se disponível para download em formato pdf.

Monteiro Lobato e a literatura infantil brasileira

O escritor Monteiro Lobato foi um precursor da literatura infantil brasileira. Durante os anos que escreveu - entre 1920 e 1945 - praticamente não existia esse tipo de produto. Os livros que as crianças brasileiras tinham acesso eram apenas adaptações e traduções da literatura europeia ou material didático sugerido pelas escolas.

Monteiro Lobato percebeu logo essa lacuna no mercado editorial nacional. Juntou a sua descoberta o desejo de criar algo voltado exclusivamente para as crianças e o entusiasmo de abrir um novo caminho na literatura brasileira.

O escritor confessou ao amigo Godofredo Rangel:

"Ando com varias ideias. Uma: vestir à nacional as velhas fabulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Coisa para crianças. [...] Ora, um fabulário nosso, com bichos daqui em vez dos exóticos, se for feito com arte e talento dará coisa preciosa. As fábulas em português que conheço, em geral traduções de La Fontaine, são pequenas moitas de amora do mato – espinhenta e impenetráveis. Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada. Fábulas assim seriam um começo de uma literatura que nos falta. Como tenho um certo jeito para impingir gato por lebre, isto é, habilidade por talento, ando com ideia de iniciar a coisa."

O escritor levou o seu projeto a frente e publicou dezenas de obras que tinham como destinatário o público infantil. 

Curiosidades sobre a vida de Monteiro Lobato

  • O escritor nunca foi um grande aluno, especialmente na disciplina de português. Quando era jovem, Monteiro Lobato chegou a ser reprovado justamente na cadeira de línguas; 
  • Além de ser escritor, Monteiro Lobato também tinha muito interesse por pintura e produziu algumas caricaturas e pinturas de natureza morta. Em carta ao amigo Rangel datada de 9 de novembro de 1911, Lobato confessou: “Quando escrevo, pinto – pinto menos mal do que com o pincel”;
  • Monteiro Lobato ficou preso durante três meses durante a ditadura militar;
  • O escritor viveu na Argentina, tendo se mudado para lá em 1946. Seus livros fizeram enorme sucesso em países da América Latina como o Uruguai e a Argentina.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.