Lupicínio Rodrigues: músicas e biografia


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Lupicínio Rodrigues (1914-1974) foi um grande sambista, cantor e compositor brasileiro. Suas canções românticas dedicadas aos amores mal resolvidos deram voz aqueles que sofreram com traições e abandonos.

Lupicínio sofreu as amarguras dos rejeitados e criou letras sentimentais cantadas não só por ele como também por grandes intérpretes como Elis Regina, Elza Soares, Marisa Monte, Gilberto Gil, Gal Costa e Paulinho da Viola.

Biografia de Lupicínio Rodrigues

Lupicínio Rodrigues nasceu no dia 16 de setembro de 1914, no bairro da Ilhota, em Porto Alegre. O menino era filho do casal Francisco Rodrigues (funcionário da Escola de Comércio) e Abigail. A dupla teve dezoito filhos.

O rapaz se tornou uma referência da música popular brasileira no princípio do século XX e um dos maiores nomes do samba-canção. Apesar de ter começado cantando, logo se tornou compositor.

Infância

Durante a vida escolar, Lupicínio frequentou o Colégio São Sebastião da Congregação dos Irmãos Maristas. Foi lá que começou a ter contato com a música.

Por ter vindo de uma família humilde, precisou começar a trabalhar cedo e foi matriculado como aprendiz aos doze anos na Companhia Carris Portoalegrense (administradora de bondes).

A vida boemia de Lupicínio Rodrigues

Boêmio, apaixonado pela vida noturna, o rapaz frequentou o bar de seu Berlamino, na sua região, e, mais tarde, se tornou dono de uma série de bares e restaurantes na sua cidade natal.

O pai de Lupicínio, preocupado com a veia artística e boêmia do filho, o matriculou no Exército e aos 16 anos o rapaz virou soldado do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre.

Dois anos mais tarde se tornou cabo tendo sido transferido para outra cidade (Santa Maria). Lupicínio esteve na vida militar até 1935 quando conseguiu um emprego como bedel na faculdade de Direito.

O descolar da carreira

O cantor ganhou fama maior quando compôs, com o Alcides Gonçalves, um samba chamado Triste História, na ocasião do centenário da revolução Farroupilha (em 1935). A música fez sucesso e venceu o concurso da Rádio Farroupilha.

Com a visibilidade alcançada Lupicínio continuou a criar e deu à luz a uma série de músicas entre elas Se por acaso você chegasse (1938), Quem há de dizer (1948), Cadeira vazia (1950) e Castigo (1953).

Suas músicas falavam de desencontros entre os amantes, casos de traição e abandono, solidão e vingança. O sentimentalismo romântico que retratava teve como inspiração a própria vida: Lupicínio foi apaixonado por Iná, uma jovem de quem ficou noivo, mas que em 1939 rompeu com o rapaz devido à sua incurável vida boemia.

O amor pelo futebol

Gremista doente e apaixonado por futebol, Lupicínio foi autor do hino oficial do Grêmio.

A importância do carnaval

Compositor não só de músicas românticas, o criador foi autor também de uma série de marchas carnavalescas. Lupicínio deu os seus primeiros passos no mundo da música inclusive compondo canções para os blocos de carnaval da sua região.

Em 1935 escreveu uma marchinha chamada Carnaval para o cordão carnavalesco Prediletos e venceu um concurso local.

Lupicínio colunista de jornal

Durante dois anos (1963 e 1964), além de compor e cantar, Lupicínio escreveu todas as semanas uma coluna para o jornal Última Hora.

A mudança para o Rio de Janeiro

Em 1939 Lupicínio decidiu se mudar para o Rio de Janeiro onde virou figurinha cativa nos bares da Lapa.

Vivendo no berço da boemia, conheceu uma série de amigos que viriam a cantar as suas canções ajudando a divulgar o seu trabalho

Pausa na carreira

Em 1947 Lupicínio se aposentou, por motivos de saúde, do cargo que ocupava na Faculdade de Direito de Porto Alegre.

Nas décadas de 1950 e 1960 pouco se ouviu falar do artista, que caiu no ostracismo e permaneceu na sombra durante um período marcado especialmente pela bossa nova.

Fundador do Sbacem

Poucos conheceram a faceta política e engajada do artista. Lupicínio foi fundador da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (Sbacem), criada em 9 de abril de 1946.

Além de fundador, Lupicínio foi também representante da Instituição.

Vida pessoal

Lupicínio Rodrigues foi casado com Juraci, que veio a falecer. Com ela teve uma filha chamada Tereza.

Em 1949 se casou com a gaúcha Cerenita Quevedo Azevejo, com quem teve um filho (Lupicínio Rodrigues Filho).

A morte do artista

O cantor e compositor faleceu no dia 27 de agosto de 1974 na sua cidade natal (Porto Alegre).

Principais músicas de Lupicínio Rodrigues

Vingança

Reza a lenda que Lupicínio foi apaixonado por uma namorada chamada Mercedes. Ela havia tentado ter um caso com um funcionário do compositor que teria contado tudo ao chefe. Ciente da situação, Lupicínio terminou a relação.

Um tempo depois, durante o carnaval, os amigos encontraram Mercedes em um bar e, como não sabiam do rompimento, perguntaram por Lupicínio. A jovem, então, começou a chorar e, sabendo do fato algum tempo depois, o compositor criou a canção.

Eu gostei tanto, tanto quando me contaram
Que lhe encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar
E que quando os amigos do peito por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar

Gravada em 1951 por Linda Batista, Vingança virou um dos maiores sucessos da carreira do compositor, consta que na época uma série de suicídios chegaram a ser cometidos motivados pela trilha sonora dor de cotovelo.

No ano seguinte da gravação de Linda Batista foi a vez do próprio Lupicínio gravar a sua criação. Mais tarde outros grandes nomes cantaram os versos como Adriana Calcanhotto, Elza Soares e Jamelão.

Nunca

A história de Nunca também está ligada à então namorada Mercedes (conhecida como Carioca).

Inconformada por ter perdido Lupicínio, a moça ainda tentou uma série de vezes reatar a relação. Decidido, o compositor criou Nunca e deu um ponto final no relacionamento.

Nunca!
Quando a gente perde a ilusão
Deve sepultar o coração
Como eu sepultei

Em 1952 Lupicínio Rodrigues gravou Nunca, que mais tarde foi cantada por Dircinha e Linda Batista, Zizi Possi e Fagner.

Esses moços (Pobres moços)

Há rumores de que a canção acima teria sido escrita para um dos grandes amigos do compositor, Hamilton Chaves.

Hamilton tinha na ocasião 22 anos quando resolveu se casar. Lupicínio, por sua vez, achava que o rapaz era muito jovem para contrair o matrimônio e escreveu Esses moços (Pobres moços) em homenagem à situação.

Se eles julgam que há um lindo futuro
Só o amor nesta vida conduz
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz
Eu também tive nos meus belos dias
Essa mania e muito me custou
Pois só as mágoas que trago hoje em dia
E estas rugas o amor me deixou

Em 1948 Francisco Alves lançou a canção Esses moços (Pobres moços), que logo fez sucesso. A música foi trilha sonora do filme A estrela sobe (do cineasta Bruno Barreto).

A música foi também cantada por Fábio Júnior, por Gilberto Gil (no disco Lupicínio Rodrigues - 100 Anos) e por Gal Costa (em 2015 no espetáculo Gal Canta Lupicínio).

Felicidade

O xote-baião Felicidade é provavelmente o maior sucesso da carreira de Lupicínio Rodrigues e o projetou para o Brasil inteiro.

Profundamente sentimental, a letra fala de um momento complicado na vida do eu-lírico que se recorda da alegria de outrora e se percebe no presente magoado e isolado.

Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque eu sei que a falsidade não vigora

Em 1947 o Quarteto Quitandinha gravou pela primeira vez Felicidade. A música foi eternizada por Caetano Veloso em 1974 no LP Temporada de verão ao vivo na Bahia.

Em 2010 Felicidade teve uma nova versão gravada por Dominguinhos e Yamandu Costa no disco Lado B.

Discografia

  • Roteiro de um boêmio (1956)
  • Dor de cotovelo (1973)
  • Lupicínio Rodrigues (1974)
  • Homenagem a Lupicínio Rodrigues (1978)

Ouça Lupicínio Rodrigues no Spotify

Relembre os maiores sucessos de Lupicínio Rodrigues na lista que preparamos no Spotify!

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).