Livro Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto


Narrado em terceira pessoa e dividido em três partes, a história se passa no final do século XIX, na cidade do Rio de Janeiro, e tem como protagonista Policarpo Quaresma. Conheça agora um dos maiores clássicos da literatura brasileira pré-modernista!

Resumo por partes

Parte 1: 

Apesar de não ter pertencido inicialmente às forças armadas, Policarpo Quaresma fora apelidado carinhosamente de Major Quaresma. Ufanista, o funcionário público (subsecretário do Arsenal de Guerra) era cheio de ideologias nacionalistas e possuía uma relação de fanatismo tanto com a cidade quanto com o país.

O primeiro capítulo procura enfocar o cotidiano do major, seus hábitos e suas rotinas, desse modo o leitor se sente mais íntimo do personagem principal da história. Policarpo era tão patriota que procurava adequar o seu dia a dia de modo a se aproximar das origens do país: queria comer comidas tipicamente brasileiras, tocar no violão músicas genuinamente brasileiras, vestir trajes nacionais e, por fim, resolveu aprender tupi-guarani.

Se entusiasmou tanto com o idioma que chegou a escrever para o Ministro em tupi, defendendo que a língua se tornasse o idioma oficial da nação. O caso ficou tão grave que Policarpo foi condenado a seis meses de internação em um hospício. 

Parte 2: 

Após a saída do hospício, Policarpo resolve se mudar com a irmã para um lugar afastado da cidade. O título do primeiro capítulo da segunda parte é "No sossego", nome do sítio para onde Policarpo se muda. No princípio, o major teme ficar entediado, mas acaba descobrindo um novo hobby: a botânica.

O novo lar acaba por agradar tanto Policarpo quanto a irmã, o primeiro problema surge quando um vizinho, o tenente Antonino Dutra, pede ajuda para a realização da festa da Conceição. Policarpo nega o pedido pois é contra politicagem. Os vizinhos, cheios de raiva, tramam um complô contra o major e fazem de tudo para dificultar a sua vida no sítio. 

Parte 3: 

Marechal Floriano, então no comando, convida Policarpo para se juntar a revolta. Cheio de ideologias e ansioso pela mudança de governo, Policarpo Quaresma aceita  convite e é alistado efetivamente como major. O professor de violão Ricardo Coração dos outros também se junta ao grupo.

A grande reviravolta se dá quando Policarpo, no campo de batalha, mata um homem. Profundamente arrependido do que fez, se afasta da rebelião. A revolta finalmente se encerra e o major acaba por ser preso. Ricardo tenta de toda forma ajudar o amigo procurando antigos companheiros de revolta que lhe viram as costas. O protagonista termina a história encarcerado, embora ainda pleno de ideologia. 

Análise

Lima Barreto tinha enorme consciência social, especialmente no que tocava a questão do racismo. Em seu Diário, escrito em 1904, escreveu: "A capacidade mental do negro é medida a priori, a do branco a posteriori." Massaud Moisés, crítico literário, comenta em um dos seus ensaios dedicado ao autor:

"Lima Barreto conhece bem a arraia - miúda, a pequena burguesia, o mundo dos subúrbios: é o ficcionista dos subúrbios, como a crítica tem já assinalado"

Mas não só os preconceitos relacionados à cor eram questionados pelo escritor. Era engajado, denunciava o projeto de urbanização mal planejada da cidade do Rio de Janeiro, os abusos de poder das elites. Afrânio Coutinho afirma:

Lima Barreto deixa entrar o cheiro forte da realidade nos quais destacam-se os preconceitos da sociedade da época contra os mestiços e pobres. Seus romances apresentam sempre indignação contra a insensibilidade dos ricos, a superficialidade dos burocratas, a corrupção dos políticos, a esterilidade dos falsos artistas
 

As obras de Lima Barreto são consideradas pré-modernistas especialmente porque dão um trato mais informal à linguagem (se aproximando da modalidade oral da língua) e se preocupam em denunciar os problemas sociais da época. 

Personagens principais

Policarpo Quaresma

Funcionário público, subsecretário do Arsenal de Guerra, conhecido como major, Policarpo Quaresma era uma homem pequeno, magro, com cavanhaque, que usava óculos pince-nez. Vestia sempre fraque preto, azul ou cinza, com pano listrado, e usualmente carregava uma cartola alta e com abas curtas. Aos 18 anos quis virar militar, mas acabou indo parar na administração do exército. Era a favor de tudo o que fosse nacional e rejeitava aqueles que só tinham olhos para fora do país.

"Ah! Meu Deus! Quando poderei ir à Europa!" O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou fraternal e persuasivo: "Ingrato! Tens uma terra tão bela, tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer a minha de princípio ao fim!"

Ricardo Coração dos Outros

Professor de violão e grande amigo de Policarpo Quaresma. Cantava muitas modinhas, começou a criar fama nos subúrbios da cidade até alcançar reconhecimento entre as famílias do Méier, da Piedade e do Riachuelo.

Marechal Floriano

Membro do exército, Marechal Floriano convida Policarpo Quaresma a ingressar na revolta contra o governo.

Adelaide

Irmã de Policarpo Quaresma, não tinha filhos ou marido e vivia com o irmão. Muda-se inclusive para o sítio com ele.

Olga

Afilhada de Policarpo Quaresma. Além do afeto, tinha profunda identificação com o padrinho, mantem-se ao seu lado até o final, tentando tirar o padrinho da prisão. 

Sobre a publicação

O romance de Lima Barreto foi originalmente publicado em formato de folhetim, em 1911, no jornal do Comércio. O texto, dividido em três partes, só foi reunido em formato de livro quatro anos mais tarde, em 1915, em edição paga pelo próprio autor.

Filme

O romance de Lima Barreto só foi adaptado para o cinema em 1998. O filme, dirigido por Paulo Thiago, contou com roteiro adaptado de Alcione Araújo. 

O filme Policarpo Quaresma, o Herói do Brasil, está disponível online na íntegra:

Sobre o autor

Affonso de Henriques de Lima Barreto, conhecido na literatura apenas pelo sobrenome, nasceu em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. Foi neto de escravos e filho de pais livres - um casal humilde e mestiço, ele tipógrafo e ela professora escolar.

Quando jovem estudou no Colégio Pedro II e na Escola Politécnica. Não conseguiu concluir os estudos porque precisava trabalhar, por isso iniciou carreira pública muito cedo tendo trabalhado no Ministério da Guerra. Se infiltrou, tanto quanto pode, no meio intelectual escrevendo para jornais e se dedicando à literatura. 

Lima Barreto
Lima Barreto

Em 1918, tentou se candidatar à Academia Brasileira de Letras, embora não tenha sido eleito. Publicou cinco romances além de uma série de narrativas breves.

Boêmio, tinha problemas com o alcoolismo, foi internado algumas vez no Hospício Nacional. Morreu jovem, aos apenas 41 anos de idade, em 1922.

Lima Barreto
Foto de identificação de Lima Barreto presente na ficha de internação do Hospício Nacional. 

Leia o livro na íntegra

O romance Triste fim de Policarpo Quaresma está disponível para download gratuito em formato pdf.