Freud e a psicanálise, as principais ideias


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), um dos principais pensadores ocidentais, revolucionou o estudo da mente e ainda tem muito para nos ensinar.

Acreditando nessa máxima reunimos aqui os principais conceitos desenvolvidos pelo psiquiatra austríaco.

O início da carreira de Freud: os primeiros experimentos com a cocaína

Freud deu os seus primeiros passos estudando a anatomia do cérebro, diversos artigos chegaram a ser publicados pelo pesquisador sobre o tema. Foram horas e horas fazendo dissecações no laboratório tentando compreender o funcionamento desse órgão tão complexo.

Os experimentos primordiais de Freud foram com a cocaína e aconteceram em 1883. A substância tinha como objetivo o tratamento da depressão, da mudança súbita de humor e visava, de um modo geral, obter um aumento de energia.

A cocaína já havia sido usada com algum sucesso por soldados durante a guerra.
A cocaína já havia sido usada com algum sucesso por soldados durante a guerra.

Quando produziu os seus primeiros trabalhos, o médico acreditava que estava diante de uma substância revolucionária e não conseguiu prever que se tratava de um produto viciante.

Quando ainda era residente do Hospital Geral de Viena, em Julho de 1884, Freud publicou um ensaio na revista Therapie chamado Über Coca sobre o uso da cocaína e seus efeitos. Confira um breve trecho:

Existem amplos indícios de que, sob o efeito da coca, os índios podem suportar provações excepcionais e executar trabalhos pesados, sem necessitar de alimentação adequada durante todo o tempo. Valdez y Palacios afirma que, com a utilização da coca, os índios são capazes de viajar a pé por centenas de horas e correr mais depressa que cavalos, sem mostrar sinais de fadiga.

O médico chegou a prescrever a substância para ele mesmo com alguma regularidade - porque sofria com crises de depressão - e também indicou para pessoas próximas.

Com o desenvolvimento das pesquisas, Freud chegou a ser acusado tempos mais tarde pelo também pesquisador Erlenmeyer de divulgar e propagar o uso de uma substância viciante (que viria a se tornar a terceira praga da humanidade, só perdendo para o álcool e para a morfina).

A fim de se defender o psicanalista escreveu um artigo em 1887 chamado Observações sobre o cocainismo e a cocainofobia, onde assumia que a substância causava dependência química.

Os primeiros pacientes de Freud e a sua técnica inovadora

Após anos de dissecação e pesquisa em laboratório, Freud se formou em medicina e passou a atuar como neurologista.

Sua especialidade eram doentes que sofriam com histeria, até então um mal pouco conhecido entre os próprios médicos. Dedicado, ele queria entender a gênese da doença e encontrar uma cura para os seus pacientes.

Dora (nome fictício atribuído à Ida Bauer) foi uma das primeiras pacientes de Freud que sofria com histeria. Os relatos deixados pelo psicanalista contem detalhes sobre o caso.
Dora (nome fictício atribuído à Ida Bauer) foi uma das primeiras pacientes de Freud que sofria com histeria. Os relatos deixados pelo psicanalista contém detalhes sobre o caso clínico.

Uma doença: a histeria

A princípio Freud suspeitou que os doentes com histeria tinham todos sofrido em algum momento da vida algum trauma sexual e associou a neurose a esse componente.

A raiz da doença mental, segundo os primeiros estudos do psicanalista, provavelmente seria um abuso sexual sofrido durante a infância, muitas das vezes cometido pelos próprios pais.

Depois de algum tempo, Freud abandonou essa teoria redutora e passou a questionar se haveria outras origens para a doença mental.

De erro em erro, vai-se descobrindo toda a verdade.

A cura: hipnose e eletroterapia?

Naquela época os doentes histéricos eram tratados apenas com hipnose e eletroterapia. Mas logo o psicanalista percebeu que a eletroterapia não funcionava e por isso passou a buscar novas abordagens para o problema.

Freud continuou fazendo pesquisas com o cérebro - sobretudo dissecações - e, embora tivesse abandonado a eletroterapia, persistiu com a prática de transe hipnótico nos pacientes. Apesar da técnica ter mostrado resultados, o efeito não era duradouro - os pacientes falavam quando estavam em transe, mas quando regressavam o efeito passava. Em busca de uma cura, o médico seguiu a procura de tratamentos alternativos.

Freud desenvolveu então uma técnica inovadora para o seu tempo: ele sugeria que, durante as consultas, os seus pacientes falassem, de preferência de olhos fechados, deitados em um divã, e deixassem o pensamento fluir, através de uma livre associação de ideias.

Assim surgiu a inovadora psicanálise.

Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, se convence que os mortais não podem ocultar nenhum segredo. Aquele que não fala com os lábios, fala com as pontas dos dedos: nós nos traímos por todos os poros.

O divã de Freud
O divã presente no consultório de Freud.

O nascimento da psicanálise

Freud acreditava que o discurso do paciente era uma poderosíssima fonte de informação sobre a sua patologia. O médico solicitava que os seus pacientes se comprometessem a falar tudo o que lhes viesse a mente.

O psicanalista pretendia, como um arqueólogo que trabalha a partir dos vestígios de uma cidade enterrada, escavar o que estava encoberto. A ideia era usar o passado para interpretar o presente.

Freud no seu escritório
Freud no seu escritório.

A conclusão prematura de Freud era que os histéricos estariam doentes porque reprimiam alguma questão.

A solução para o mal seria então tomar consciência, deslocar o que estava no inconsciente para o consciente. Tornar a questão reprimida consciente - essa era a cura que Freud acreditava na época.

As grandes coisas podem ser reveladas através de pequenos indícios.

Freud reduziu a importância das vivências reais e passou a dar protagonismo ao processamento interno que as pessoas davam aquilo que tinham vivido. Para isso o analista deveria prestar extrema atenção ao relato dos seus pacientes e não se fixar no evento em si, mas no modo como o doente absorveu tal situação.

A ideia era estimular o fluxo de pensamento dos doentes e compreender de que forma o discurso se organizava com repetições, lacunas e, por vezes, imagens desconexas.

Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais: somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos 'sem querer'.

O trabalho essencial do psicanalista deveria ser, portanto, observar a fundo a linguagem utilizada.

O funcionamento do aparelho psíquico

Os poetas e filósofos que me antecederam descobriram o inconsciente: o que eu descobri foi um método científico de estuda-lo.

Já médico, Freud ganhou uma bolsa para estudar em Paris por alguns meses. Lá acabou por ser orientado por Charchot, um pesquisador incansável que passou a vida tentando descobrir o que havia por trás da consciência.

Com o professor e orientador Freud aprendeu que existiam níveis de consciência e, ao contrário do que se costumava pensar, nossa mente não era propriamente transparente.

Instigado por Charcot, o psiquiatra procurou compreender a fundo o mecanismo do funcionamento psíquico e sistematiza-lo para poder aliviar o sofrimento dos seus pacientes que sofriam com neuroses.

A conclusão que Freud chegou foi assustadora para o seu tempo: afinal não eramos os senhores das nossas vontades porque uma enorme parcela das nossas decisões são guiadas pelo inconsciente. A tese freudiana, amplamente rejeitada a princípio, colocava em cheque a noção de livre arbítrio e de inteira racionalidade.

Se o primeiro objetivo de Freud era inicialmente desvendar a histeria, encontrar a raiz da doença e consequentemente encontrar a cura, logo o psicanalista descobriu que precisava ir mais fundo e conhecer de fato o nosso aparelho psíquico.

Freud foi um estudioso compulsivo ao longo de toda a vida.
Freud foi um estudioso compulsivo ao longo de toda a vida.

Freud dividiu o aparelho psíquico em três camadas: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O psicanalista focou a sua atenção e os seus trabalhos especialmente para essa última instância, que era onde acreditava que estariam as questões recalcadas.

Para acessar o inconsciente e consequentemente o que foi recalcado, os psicanalistas deveriam observar a linguagem dos pacientes (os desvios, os lapsos, as repetições, os impulsos reprimidos, a linguagem corporal) e também investigar os sonhos dos doentes, que se revelaram como fontes preciosas de informação.

A importância dos sonhos

Freud desconfiava que os sonhos continham mensagens secretas. Enquanto os seus contemporâneos médicos descartavam os sonhos como fonte de informação confiável e não lhe relegavam qualquer importância, o psiquiatra, num movimento inovador para o seu tempo, resolveu se debruçar sobre o assunto:

a pesquisa psicológica mostra que o sonho é o primeiro membro de uma classe de fenômenos psíquicos anormais, da qual outros membros, como as fobias histéricas, as obsessões e os delírios, estão fadados, por motivos práticos, a constituir um tema de interesse para os médicos (...) Quem quer que tenha falhado em explicar a origem das imagens oníricas dificilmente poderá esperar compreender as fobias, obsessões ou delírios, ou fazer com que uma influência terapêutica se faça sentir sobre eles.

O psicanalista queria respostas para perguntas-chave: o que o cérebro produz enquanto está adormecido? E por qual motivo o corpo gasta energia produzindo os sonhos? Qual o significado dessas mensagens transmitidas enquanto dormimos?

Para Freud os sonhos poderiam ser uma ferramenta para se perceber as inquietações dos indivíduos: as manias, os traumas, as fobias. Interessava a ele descobrir sobretudo o que não se conseguia acessar quando se estava acordado.

Os sonhos, Freud acreditava, poderiam conter as chaves do segredo da mente. Caberia então aos analistas interpretar essa informação, especialmente percebendo o caminho trilhado durante a livre associação de ideias.

Um dos trabalhos mais importantes do pai da psicanálise foi o livro A interpretação dos sonhos, publicado em 1899 e atualmente disponível em pdf.

Afinal, quem foi Freud?

Sigmund Schlomo Freud nasceu em Freiberg no ano de 1856. Era filho de um casal judeu que teve sete filhos, Sigmund era o mais velho.

O pai de Freud era um pequeno comerciante e, quando o menino tinha quatro anos, a família se mudou para Viena.

Estudioso e compenetrado, com 17 anos Sigmund entrou para a faculdade de Medicina de Viena e começou a trabalhar no laboratório dirigido pelo Professor Doutor Brucke. Em 1881 virou neurologista.

Três anos mais tarde trabalhou com o médico Josef Breuer em casos de histeria fazendo uso de hipnose. Foi durante esse período que a psicanálise deu os seus primeiros passos.

Retrato de Sigmund Freud
Retrato de Sigmund Freud.

Em 1885 Sigmund foi estudar em Paris com o neurologista francês Charcot onde desenvolveu sobretudo o seu interesse pelo inconsciente.

Ao longo de toda a sua vida seguiu pesquisando possíveis curas para os seus doentes psiquiátricos e se debruçou especialmente sobre os casos de histeria.

Vanguardista, ele desenvolveu - a princípio sozinho - a psicanálise.

Freud foi casado com Martha Bernays. Juntos tiveram seis filhos: Anna, Ernst, Jean, Mathilde, Oliver e Sophie.

Freud morreu em Londres no dia 23 de setembro de 1939.

Se quiser saber mais sobre o psicanalista francês assista o documentário O jovem Dr.Freud:

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).