Que tal explorar a fundo os filmes da Pixar?


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

As animações da Pixar vêm ganhando, ao longo das décadas, um lugar especial no coração de adultos e crianças.

Selecionamos aqui os seis longas-metragens mais celebrados da produtora para propor uma análise aprofundada.

1. Viva - A Vida É uma Festa (Coco), 2017

Coco

A mais recente produção da Pixar é de levar qualquer um às lágrimas. O longa-metragem de animação toca em temas densos como a perda da memória, a traição e as proibições familiares, mas tudo isso com uma delicadeza ímpar.

Mas vamos lá, começando pelo princípio: Miguel é um jovem menino apaixonado por música. Para seu azar, ele nasceu no berço de uma família onde tocar (e até ouvir) música era proibido. Isso porque a sua trisavô foi abandonada pelo marido, que decidiu largar a família para seguir uma carreira musical.

Tendo como pano de fundo o Día de Los Muertos, a aventura de Miguel transcorre rumo ao seu desejo de perseguir a sua vocação apesar das restrições da família Rivera.

A escolha do Día de Los Muertos não é gratuita: durante o evento os mexicanos são estimulados à cultuar a memória da própria família e a relembrar (e celebrar) os ancestrais.

Viva a vida é uma festa

Ambientado todo no México, a animação faz uma exaltação da cultura local (nota-se mesmo que o filme foi fruto de profunda pesquisa). É de se sublinhar os figurinos, o cenário, a proliferação das cores e a trilha sonora mexicana.

Lupita, a bisavó de Miguel, é uma personagem crucial para a história. Nas cenas em que aparece assistimos ao lento processo de esquecimento que vai se instaurando na idosa possivelmente devido à doença de Alzheimer. Admiramos como a família a trata com imenso carinho, paciência e respeito. Lupita representa o processo de envelhecimento e nos ensina a desmistificar a morte.

Outro ponto importante é o fato de Miguel ser reprimido por toda a família. O filme nos ensina a importância de respeitarmos a individualidade de cada um e acaba por chegar à conclusão que muitas vezes são as crianças a ensinarem os adultos (caso de Miguel Rivera).

Leia uma análise completa do filme Filme Viva - A Vida É uma Festa.

Confira o trailer do filme:

2. Toy Story, 1995, 1999, 2010 e 2019

Toy Story

A franquia mais famosa da Pixar já rendeu quatro filmes, todos à volta dos personagens Woody e Buzz Lightyear.

Os protagonistas das histórias são todos brinquedos que ganham vida própria e interagem entre eles para tornar a vida dos seus donos melhor.

Como são quatro roteiros com histórias distintas, não poderemos aqui nos alongar em cada uma delas, mas analisaremos alguns traços comuns permeiam a saga.

O primeiro denominador comum entre os filmes é a lição de que não se pode julgar pelas aparências. O ensinamento percorreu os vários filmes Toy Story, convém sublinhar no último longa a presença de Forky, um brinquedo feito de improviso a partir de peças encontradas no lixo que era tão importante para Bonnie quanto qualquer outro que a menina tinha.

Forky, por sinal, reforça um outro preceito que se desenvolve ao longo da saga. O brinquedo tem uma crise de identidade porque não sabe se é brinquedo ou se é lixo (porque foi feito de lixo e é lá que se sente confortável). Aos poucos ele vai se dando conta do seu estatuto e se "conforma" com a condição de ser efetivamente um brinquedo.

Fato é que Toy Story nos ensina que as crises de identidade fazem parte da vida: passamos por momentos difíceis e inesperados e é preciso aprender a suportar cada um deles. As fases vão se impondo tanto na vida dos bonecos quanto das crianças: a primeira ida à escola, a primeira vez dormida fora de casa, a primeira consulta do dentista.

Forky

A imagem acima remete para outra lição-chave: solidariedade é essencial. Os brinquedos se protegem e sempre que algum deles está em perigo é montada uma força tarefa para resgatar quem se meteu em encrenca.

Woody, o xerife altruísta, em geral lidera o grupo e coloca a sua própria vida em risco para salvar os outros brinquedos. Ele nos ensina que muitas vezes é preciso sacrificar o seu próprio bem estar em nome do grupo.

Woody, por sinal, é um grande protagonista que é também um poço de ensinamentos. Ele nos lembra, por exemplo, que não seremos sempre os protagonistas da história. Na quarta edição da série, o boneco percebe que perdeu o cargo de brinquedo favorito de Bonnie para Forky, um brinquedo feito de lixo. Ao invés de se revoltar, o xerife generosamente entende que é a hora de Forky brilhar e tenta a todo custo proteger o novo brinquedo eleito para que Bonnie não sofra.

Ele compreende a passagem do tempo e os imperativos que se vão apresentando. Woody nota quando seu primeiro dono, Andy, o deixa de lado e compreende que é ocasião de encontrar uma outra criança para brincar com ele.

O xerife aceita as mudanças, essa lição é especialmente explorada quando Andy vai para a faculdade. Tanto o próprio Andy quanto toda a sua turma de brinquedos entendem que precisarão mudar de casa e criar uma nova rotina, se reinventando.

Toy story

Aceitar o amadurecimento leva a que cada um chegue à conclusão que é necessário doar os brinquedos que já não usa. O que para alguém é apenas um brinquedo encostado em um canto, pode ser o único brinquedo de outra criança. Toy Story sublinha o fato de que todos os brinquedos devem ter uma segunda (terceira, quarta...) chance.

Por fim, mas não menos importante, no último filme vemos pela primeira vez ser levantada a questão do empoderamento feminino representado pela pastora de ovelhas Bo Peep, namorada de Woody. Apesar de todas as dificuldades, a bela pastora prefere ser livre do que pertencer à uma criança. A independência é a maior das suas conquistas e Bo Peep não aceita perdê-la por nada.

Não perca a leitura do artigo Toy Story: tudo sobre a incrível franquia.

3. Valente (Brave), 2012

Valente

A princesa Mérida é uma heroína fora da caixa e bastante distante do que estamos habituados a ver. A protagonista, que vive nas planícies da Escócia medieval (e a história bebe muito da mitologia da região), é uma rebelde de nascença. Já pelos seus fartos e indomáveis cachos ruivos podemos ter uma pista da personalidade da garota.

Filha do rei Fergus e da rainha Leonor, Mérida se recusa a casar através de um casamento arranjado, ela é dona de um espírito livre. Independente, a jovem deseja seguir o seu próprio caminho e vai muito de encontro aos valores pregados pelo feminismo contemporâneo. Mérida gosta de andar a cavalo, se aventurar para fora das fronteiras e treinar pontaria com o seu arco e flecha.

Não por acaso assim foi concebida a princesa de uma nova geração: emancipada, ciente daquilo que acredita e corajosa.

Valente

Para se libertar do seu destino já traçado, Mérida foge da casa dos pais e acaba se envolvendo em mil e uma aventuras. Não vale a pena ressaltar aqui os imprevistos que surgem a meio do caminho, antes gostaríamos de enfatizar a garra e o desejo de justiça dessa protagonista.

Indo contra a tradição do seu reino, Mérida anseia ser autora da sua própria história. Seu maior sonho está longe de ser o casamento - ao contrário do que lhe ensinou durante toda a vida a mãe -, mas sim se tornar arqueira.

A rainha Leonor durante anos a fio educou a filha a ser uma boa esposa e mãe: Mérida teve lições de bordado, de tarefas domésticas e aprendeu a cuidar dos irmãos mais novos.

Valente fala sobre as tradições familiares e sociais e Mérida representa aquela que deseja seguir as suas próprias escolhas, mesmo que isso signifique precisar lutar contra o status quo.

O filme questiona as imposições familiares e o casamento por obrigação, assim como também enaltece a coragem de quem é capaz de romper com os valores pré-estabelecidos.

Quer se lembrar da história? Então dê uma olhada no trailer de Valente:

4. Divertida Mente (Inside out), 2015

Divertidamente

O filme Divertida Mente tem como protagonista Rilley, uma menininha de 11 anos. Acompanhamos a mudança de Rilley de Minnesota para São Francisco e o turbilhão de sentimentos que essa nova circunstância impõe.

Assistimos, em tempo real, o funcionamento do cérebro de Rilley através de cinco personagens que representam as cinco emoções essenciais do ser humano: Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo.

Os personagens se reúnem, em geral, na sala de controle do cérebro. Vemos no longa não só o que se passa dentro do cérebro da menina como também o que acontece fora dele, de que forma a interação das emoções provoca reações externas.

O roteiro, que foi composto com a ajuda de psicólogos e neurologistas, nos ensina muito sobre como lidamos com o afeto e como interpretamos as memórias.

Divertida Mente

A animação faz também uma crítica à sociedade contemporânea, que prega que estejamos felizes a todo momento.

Vemos também como sentimentos considerados negativos são essenciais para o nosso desenvolvimento: o medo e o nojo nos tiram de verdadeiras enrascadas e Divertida Mente sublinha a importância desses afetos que tanto nos tentamos livrar.

Apesar de ser um filme voltado para as crianças, a animação trata de assuntos complexos e densos como a importância da memória. Refletimos, por exemplo, sobre o imperativo de se esquecer, fundamental para que sejamos criaturas emocionalmente saudáveis.

Com o desenvolvimento da menina Rilley vemos como os sentimentos se revezam ao longo do crescimento e como a sua personalidade vai se moldando desde o nascimento até a adolescência. Igualmente testemunhamos como se dá a relação da garota com aqueles que estão à sua volta - os pais, os amigos, os professores, as pessoas mais próximas.

Relembre o trailer de Divertida Mente:

Não perca uma análise aprofundada do Filme Divertida Mente.

5. Up - Altas Aventuras (Up), 2009

Up

Carl Fredericksen é o senhor que aparece na imagem acima: um viúvo solitário de 78 anos que passa os seus dias na casa que partilhou com a sua falecida esposa Ellie. Rabugento e saudosista, ele não tolera a companhia de mais ninguém.

A casa em que o casal vivia começa a ser cobiçada por um empreendimento imobiliário, mas Carl se recusa veementemente a vendê-la. Vendo-se sem saída, ele resolve migrar a casa. O plano de Carl, que enquanto trabalhava era um vendedor de balões, era erguer a casa através de balões de gás hélio.

O objetivo era fazer a casa flutuar até a América do Sul, lugar onde o casal sonhava em viver.

Up

Mas, para a surpresa do protagonista, o plano não corre bem como era esperado. Enquanto flana no céu, Carl descobre que a sua viagem não é solitária, afinal ele tinha companhia: um menino escoteiro gordinho que estava na entrada da casa quando ela começou a levantar voo.

O menino Russell, de oito anos, dialoga ao longo de todo o filme com o idoso sobre temas difíceis. Fala-se aqui do luto, do distanciamento social e da saudade, assuntos duros abordados com extrema delicadeza.

Russell aprende aos poucos a lidar com a frieza da Carl e o menino elétrico o apresenta a um lado mais luminoso da vida.

A senilidade e a solidão também são temas recorrentes, assim como a tendência do ser humano de adiar os seus maiores sonhos. Vemos em Carl o arrependimento e a culpa por não ter realizado a sua viagem tão ansiada quando ela ainda era possível.

Up venceu o Óscar, o BAFTA e o Globo de Ouro 2010 nas categorias Melhor Filme de Animação e Melhor Trilha Sonora. Descubra o trailer dessa obra-prima da Pixar:

6. Procurando Nemo (Finding Nemo), 2003

Procurando Nemo

A história de Nemo se passa no fundo do mar e tem como protagonistas uma família de peixe-palhaço.

Marlin, o pai de Nemo, após ficar viúvo (com a súbita morte da esposa Coral) se torna super protetor do filho.

Para agravar o quesito da superproteção, Nemo têm uma deficiência em uma das nadadeiras, que acaba por ser bem menor do que era suposto. Alheio as suas limitações, o filho parece ser um jovem como outro qualquer: curioso, aventureiro, rebelde, perigosamente sem medos.

Nemo é levado por pescadores, e aí começa a aventura do pai em busca do filho. Para ajudar Marlin na procura, ele conta com a ajuda de Dory, uma peixinha bem humorada e com uma grave perda de memória.

Procurando Nemo

De modo bastante genérico é possível afirmar que Procurando Nemo é um filme sobre o amor parental. Ele vai muito de encontro ao desejo contemporâneo de ser inclusivo para todo tipo de família, das tradicionais as fora do convencional (caso da família de Nemo, que conta com a presença de um dos pais apenas).

A animação trata também de aceitar as diferenças: nem Nemo nem Dory são como os outros peixes, Nemo tem uma deficiência física e Dory uma mental.

Outro ponto importante que o filme da Pixar pretende transmitir é a importância de compreender a superproteção dos pais (atenção, compreender não significa não questionar). Também se sublinha a necessidade de se lidar de maneira saudável com a tendência rebelde e o desejo de libertação dos filhos.

No final da história, Marlin aprende a confiar mais nas decisões do filho e Nemo percebe melhor a preocupação do pai.

Os dois personagens amadurecem de forma impressionante. Marlin começa a história como um medroso e durante a aventura para salvar o filho torna-se um peixe mais seguro e confiante. Nemo, por sua vez, aprende a lição de que o seu desejo de explorar deve manter-se dentro dos limites do responsável.

Outro grande ensinamento que podemos tirar do longa-metragem é a importância dada à liberdade e a necessidade de sermos livres (o que se traduz no contexto da história no fato de se ser contra a prisão de peixes nos aquários).

Escute a trilha sonora dos filmes da Pixar no nosso Spotify

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).