Filme Divino Amor


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O longa-metragem Divino Amor é um filme futurista do diretor pernambucano Gabriel Mascaro que faz uma crítica social à religião e ao poder do Estado numa realidade distópica do Brasil em 2027.

O filme estreou no festival de Sundance e de Berlin, já recebeu uma série de prêmios e foi selecionado para mais de 40 festivais nacionais e internacionais.

(cuidado, esse artigo contém spoilers)

Resumo do filme Divino Amor

Contexto político e social

Divino Amor se passa em 2027, altura em que mudanças significativas se encontram instauradas no Brasil.

O carnaval já não é mais a maior festa do país, há as raves religiosas - como a "festa do amor supremo" - regadas ao tecnogospel e a religião passa a ocupar um lugar de centralidade no país.

divino amor

No filme encontramos uma narração em off feita por uma voz infantil, robótica, que não sabemos bem quem é e só se revela nas últimas cenas do filme. A voz funciona como um narrador que situa o espectador por oferecer explicações sobre o funcionamento daquela sociedade ao longo do filme.

É essa voz que dá conta das principais mudanças do país e apresenta as personagens. A história contada em Divino Amor se baseia no tripé política-nacionalismo-religião.

Joana e Danilo: os personagens principais

Joana é funcionária pública de um cartório responsável por deliberar divórcios - o que é, de certa forma, irônico porque ela é radicalmente contra separações.

Fazendo uso do seu lugar de poder, Joana tenta manipular os membros do casal em crise de modo a tentar convencê-los a reatarem.

Divino amor

Joana no seu dia-a-dia procura dificultar o processo de divórcio e orientar os casais a encontrarem a solução na religião, ela genuinamente acha que está pregando o bem ajudando os casais a se reunirem novamente.

Bem-sucedida na sua missão, Joana consegue unir marido e mulher e converter vários desses casais para a sua religião. Ela guarda um registro desses pequenos milagres em um discreto altar em casa - a moça coleciona porta-retratos com as fotos daqueles que ajudou a conciliar.

Joana é inteiramente guiada pela fé, e isso influencia enormemente o seu dia-a-dia: ela só ouve louvores religiosos, usa roupas comportadas e se resume a uma rotina pacata. Seu marido, Danilo, é um florista que faz coroas de flores para funerais.

O casal é um típico representante da classe média brasileira e os personagens vivem afundados numa rotina trabalho-casa-igreja.

Os encontros no Divino Amor

Danilo e Joana frequentam um encontro de casais semanal chamado Divino Amor.

Nas reuniões só é possível ir em par - é preciso mostrar o documento do casamento e as respectivas identidades para se entrar no espaço.

DIvino amor

No encontro, que tem uma orientadora, os casais fazem uma série de exercícios em conjunto além de lerem a bíblia em voz alta e trocarem de casais. A prática inesperada do swing nesse contexto é explicada a partir da crença de que "Quem ama não trai, quem ama divide", repetida à exaustão pelo narrador.

O objetivo maior do grupo Divino Amor é manter os casais unidos fazendo com que superem as crises conjugais.

O drama central

O principal problema de Joana e Danilo é que os dois não conseguem ter filhos. Em um contexto conservador eles não são capazes de levar a frente o mandamento da igreja de procriar, aumentando, assim, a família.

Sabe-se que Danilo tem problemas de fertilidade e por isso recorre a um método caseiro tecnológico bizarro para tentar fazer com que o seu sêmen se torne eficiente.

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Afinal Joana engravida, mas descobre que Danilo não é o pai do feto assim como nenhum homem com quem ela se deitou.

Ninguém acredita na versão dela: nem o pastor, nem o marido - que acaba por pedir o divórcio e sair de casa. Sozinha e grávida, Joana segue em frente firme na sua fé. A trama sugere, portanto, que o bebê que Joana traz ao mundo é o novo Messias.

Crítica de Divino Amor

A centralidade da fé

Divino Amor dá conta do crescimento da igreja neopentecostal no nosso país. Na realidade futurista não tão distante assistimos a imposição da religião e a hipocrisia religiosa (simbolizada, por exemplo, pelas cenas do drive thru de oração).

A personagem Joana representa o fanatismo ao buscar todas as respostas para os seus dilemas pessoais no mundo espiritual - a fé ocupa um lugar de centralidade na sua vida e na vida de grande parte daquelas pessoas com quem convive. O longa-metragem discute, portanto, numa realidade não tão distante, o fundamentalismo religioso.

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A questão do ultra-nacionalismo

Vemos no longa uma série de situações onde é possível testemunhar um nacionalismo exacerbado (repare, por exemplo, na profusão de cenas onde aparecem bandeiras do Brasil).

O cartório, por sua vez, figura como símbolo da burocracia no país. A atuação de Joana faz com que o espectador se pergunte até que ponto, naquele contexto, o Estado acaba por ser verdadeiramente laico.

O filme tece uma crítica velada à bancada religiosa e à crescente onda de fundamentalismo religioso no Brasil (embora tenha sido realizado antes da eleição do atual presidente).

O avanço da tecnologia e a sua capacidade de controle

No filme há a presença de máquinas como os detectores de metais capazes de identificarem o nome da pessoa, o estado civil, a profissão e, se a mulher estiver grávida, a gravidez e o registro do respectivo feto.

O emprego da tecnologia abre um debate sobre a relação entre o corpo e o Estado.

Divino amor

A importância que a tecnologia ganha faz com que o Estado tenha ainda mais poder, invocando assim um questionamento sobre o controle biopolítico da vida.

O conservadorismo neopentecostal

Divino Amor apresenta o casamento heterossexual como uma instituição sagrada, a base da sociedade brasileira. A igreja, que ganha um papel central, orienta os seus fiéis a casarem-se e multiplicarem-se como lema de vida.

A gravidez, diante desse cenário, passa a ser sobrevalorizada devido à necessidade de se procriar.

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Trailer

Ficha técnica

Título original

Divino amor

Lançamento

27 de junho de 2019

Diretor

Gabriel Mascaro

Roteirista

Gabriel Mascaro, Lucas Paraizo, Rachel Daisy Ellis e Esdras Bezerra

Gênero

Ficção científica / Drama

Duração

1h41m

Atores principais

Dira Paes, Júlio Machado, Mariana Nunes, Thalita Caraura, Emílio de Mello, Teca Pereira, Thiago Justino

Prêmios

Melhor Filmes e Melhor Atriz no Festival de Cinema Luso Brasileiro de Santa Maria da Feira

Prêmio Feisal (recebino no Festival de Guadalajara)

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).