Filme A Favorita, de Yórgos Lánthimos


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A Favorita (no original The Favourite) é uma criação de Yórgos Lánthimos que trata sobre poder, vingança e ambição na corte inglesa do século XVIII.

O filme é baseado no reinado real de Anne (1702-1714) e está centrado no triângulo composto por três personagens femininas: a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz), a Rainha Ana (Olivia Colman) e Abigail (Emma Stone).

A Favorita recebeu 12 nomeações ao BAFTA. O filme levou 7 prêmios para casa incluindo Melhor Filme Britânico, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante. Olivia Colman também recebeu em 2019 o Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz em Comédia ou Musical.

O longa metragem foi indicado para o Oscar 2019 em dez categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz (Olivia Colman), Melhor Atriz Coadjuvante com Emma Stone e Rachel Weisz, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Montagem e Melhor Direção de Arte. A única estatueta que o longa metragem arrecadou foi para Olivia Colman, que recebeu o prêmio de Melhor Atriz.

Resumo

A Duquesa de Marlborough (interpretada por Rachel Weisz) era a confidente, conselheira e amante da Rainha Ana (vivida por Olivia Colman), uma monarca doente e solitária.

A Duquesa Marlborough representava uma enorme influência sob a frágil Rainha Ana.
A Duquesa de Marlborough representava uma enorme influência sobre a frágil Rainha Ana.

Num contexto de hierarquia absoluta, onde a rainha era autoridade suprema e mandava e desmandava não só no seu palácio como na política do país, a Duquesa exercia um papel importantíssimo no reinado.

Por ser extremamente próxima da Rainha, ela acabava tendo influência nas mais variadas questões como a gestão da guerra, a cobrança de impostos e a administração das contas do palácio.

[Cuidado, o texto a seguir contém spoilers]

O princípio da mudança

O cenário muda com a chegada de Abigail (que ganha corpo na pele de Emma Stone).

A ascensão de Abigail muda a dinâmica da corte.
A chegada de Abigail muda a dinâmica da corte.

Inicialmente contratada como uma criada, se aproveitando do parentesco que tinha com a Duquesa, Abigail vai subindo de posto rapidamente.

Esperta, maliciosa e extremamente inteligente, a criada vai tramando formas de se aproximar da Rainha ao mesmo tempo que a afasta da Duquesa de Marlborough.

Observadora, ela repara aos poucos nos movimentos que a Duquesa faz para manter a Rainha sob seu controle. Acidentalmente, numa ida ao quarto da Rainha para buscar um livro, Abigail descobre que as duas têm um caso amoroso.

Gradativamente então se aproxima da Rainha aproveitando especialmente os períodos de distanciamento de Marlborough. A criada, aos poucos, conquista espaço no gabinete e na cama da Rainha.

O cenário muda quando a Duquesa flagra Abigail na cama da monarca. A partir desse momento cria-se uma guerra aberta entre as duas.

A reviravolta

No seu golpe mais baixo para afastar de vez a Duquesa da Rainha, Abigail coloca veneno no chá da primeira. Algum tempo depois a armadilha faz efeito e a Duquesa cai do cavalo, sendo arrastada pela floresta.

A relação da Duquesa com Abigail passa a ser de extrema competição.
A relação da Duquesa com Abigail passa a ser de extrema competição.

Abigail aproveita o afastamento da sua maior rival para mexer os seus pauzinhos no palácio. Ela consegue se casar com um membro da nobreza deixando assim seu status de criada para trás. A jovem também muda a opinião da Rainha a respeito do destino da guerra que o país travava com a França.

Enquanto isso, a Duquesa seguia passando por maus bocados. Ela fora resgatada na floresta e acolhida em um bordel até se recuperar. Com uma enorme cicatriz no rosto - mas já recuperada - Marlborough volta ao palácio para ocupar o seu lugar de poder, agora usurpado por Abigail.

Percebendo a dimensão que Abigail tomou - casando-se e mudando o rumo da guerra - Marlborough chantageia a Rainha com cartas de amor de sua autoria que havia recebido. A Duquesa ameaça divulgar as cartas caso a Rainha não afaste Abigail e continue com a guerra.

Finalmente ciente da chantagem que estava sofrendo, a Rainha resiste e se nega a atender os pedidos da Duquesa. A relação entre as duas piora de vez e Ana a expulsa do palácio.

Abigail, cada vez mais poderosa, passa a ter mais controle sobre a Rainha. Por fim, convencida por Abigail que a Duquesa havia desviado dinheiro, Ana expulsa Marlborough do país.

A história de A Favorita gira em torno do triângulo Abigail, Rainha Ana e a Duquesa Marlborough.
A história de A Favorita gira em torno do triângulo Duquesa de Marlborough, Abigail e Rainha Ana.

Significado do final do filme

As últimas cenas do filme dão conta do destino da Duquesa, de Abigail e da Rainha. Expulsa da Inglaterra, condenada, vemos a Duquesa e o Duque em casa recebendo a visita de uma comitiva a cavalo.

Marlborough interpreta aquela imagem como a chegada do correio, com a tão ansiada resposta da carta que havia mandado à Rainha. A cena é interrompida e cabe ao público especular o destino do casal após o recebimento da notícia.

Abigail, por sua vez, segue submissa servindo Ana, prestando-lhe favores sexuais e exercendo o poder que antes pertencia à Duquesa. Em uma manhã após as dores terríveis da Rainha, Abigail está sentada, lendo, quando passa perto dela um coelhinho.

Demonstrando aflorar a sua natureza cruel e vingativa, ela pisa no coelho para causar sofrimento por puro deleite. O coelho faz ruídos de dor e a Rainha desperta.

Ana levanta-se e segue em direção à porta em um dos seus surtos de loucura.

Aos gritos, ela ordena que Abigail a massageie. Ajoelhada, ela segue as ordens da Rainha enquanto Ana se apoia na sua cabeça, como se Abigail fosse um mero objeto.

Através de um efeito visual vemos o rosto de Abigail e da Rainha se misturarem e se condensarem com a imagem de uma série de coelhos. É uma composição quase alucinógena que permite múltiplas leituras.

Podemos pensar que a proliferação dos coelhos representa a multiplicação de uma corte submissa que bajula a Rainha - grupo do qual Abigail faz parte.

Por outro lado, a sobreposição com a imagem dos coelhos pode colocar Abigail no papel de um deles: eternamente presa ao quarto da Rainha, sujeita a seu bel prazer.

Uma outra leitura possível investe na inversão de papéis: se na cena anterior Abigail tortura o coelho, no plano a seguir é a Rainha que tortura Abigail, provando que toda ação tem um retorno.

Outro viés interpretativo coloca a Rainha, Abigail e os coelhos na mesma posição: seriam todas criaturas reféns de uma natureza e condenadas a um destino de aprisionamento.

Análise do filme A Favorita

Personagens complexas

No filme do diretor grego Yórgos Lánthimos encontramos personagens extremamente complexas, que não se resumem a vilãs ou mocinhas.

A Rainha, por exemplo, que costumava ter surtos de raiva ou euforia, comporta-se simultaneamente como uma megera e como uma criatura carente.

Temos pena do passado e das perdas que Ana sofreu com os filhos que partiram precocemente, mas ao mesmo tempo identificamos uma criatura extremamente mimada e arrogante.

Extremamente solitária, a Rainha Ana é capaz do melhor e do pior.
Extremamente solitária, a Rainha Ana é capaz do melhor e do pior.

Abigail, por sua vez, começa a história como uma vítima e consegue conquistar o seu espaço apesar de todas as dificuldades. No entanto, em muitas situações acaba por agir com pura crueldade e vingança.

Se em uma das suas primeiras aparições Abigail é enganada por um criado que faz com que ela queime a mão em um balde com ácido, em uma das últimas cenas ela machuca propositalmente um dos coelhos inofensivos da Rainha.

Abigail alterna momentos onde é vítima com períodos em que é algoz.
Abigail alterna momentos onde é vítima com períodos em que é algoz.

A ex-criada parece ir aprendendo com a crueldade alheia e, ao mesmo tempo que aparenta possuir admiração e afeto pela Rainha, também usa todas as oportunidades que tem para manipulá-la e envenená-la contra a Duquesa.

Abigail, ao longo do filme, vai ganhando contornos de crueldade.
Abigail, ao longo do filme, vai ganhando contornos de crueldade.

A Duquesa de Marlborough, a terceira ponta do triângulo, possui, por sua vez, outro perfil extremamente denso. Ela parece ser a única que diz as verdades à Rainha e permanece ao seu lado em momentos de extrema dor.

Por outro lado, por essa dedicação cobra um preço caro: muitas vezes a Rainha parece um fantoche em suas mãos e a Duquesa exige que as suas opiniões sejam seguidas à risca.

A Duquesa apresenta traços de uma personalidade manipuladora e fria, mas ao mesmo tempo parece se importar genuinamente com a Rainha.
A Duquesa apresenta traços de uma personalidade manipuladora e fria, mas ao mesmo tempo parece se importar genuinamente com a Rainha.

A rainha e os seus coelhos

Em uma das primeiras cenas do filme vemos que a Rainha Ana mantem em seu quarto três gaiolas com coelhos que ela chama de "meus pequenos". A Rainha exige que a Duquesa os cumprimente, mas ela se nega porque acha a atitude bizarra.

As três gaiolas misteriosas repletas de coelhos que a Rainha Ana mantinha em seu quarto.
As três gaiolas misteriosas repletas de coelhos que a Rainha Ana mantinha em seu quarto.

Muito mais tarde, em uma cena com Abigal, o espectador consegue entender a razão da existência de tantos coelhos no quarto da Rainha.

A monarca afirma que perdeu dezessete filhos entre abortos e crianças que nasceram, mas não resistiram durante muito tempo.

Angustiada ela resolveu criar coelhos, dezessete, um para cada filho. Era como se cada coelho representasse uma criança perdida, por isso os animais tinham características especiais (eles faziam aniversário, inclusive).

O gesto de abrigar tantos coelhos em gaiolas dentro do próprio quarto já mostra um indício do desequilíbrio da Rainha Ana, que tinha surtos de raiva e explosões de fúria não justificadas.

Baseado em fatos reais

O longa metragem de Yórgos Lánthimos foi baseado no reinado real da Rainha Anne, que liderou a Inglaterra entre 1702 e 1714.

Anne tornou-se rainha depois de seu pai e de sua irmã. Antes dela, seu pai, James II, reinou durante três anos, tendo deixado o trono após a Revolução Gloriosa no ano de 1688.

A coroa teria passado então para a irmã de Anne, Mary, que era casada com Guilherme de Orange (um holandês). Como o casal não teve filhos, Anne veio a seguir na linha de sucessão e recebeu o trono no ano de 1702.

Registro da Rainha Anne, que teria comandado a Inglaterra entre
Registro da Rainha Anne, que comandou a Inglaterra entre 1702 e 1714.

Historicamente a Rainha Anne foi de fundamental importância porque durante o seu reinado Escócia e Inglaterra se unificaram, fazendo dela a primeira rainha da Grã-Bretanha.

O que é verdade e ficção na história?

O filme, no entanto, se descola da realidade em alguns pontos. Não há qualquer prova, por exemplo, que a Rainha tivesse uma gaiola com coelhos em seu quarto. Já o fato de ter perdido dezessete filhos é verdadeiro, tanto que a linhagem de Stuart, a que pertencia, acabou com ela.

O filme também acerta quando coloca Anne como uma criatura extremamente doente - a verdade é que a Rainha sofria de gota e tinha períodos de extrema enfermidade.

Também não existe qualquer registro confiável que ela tivesse inclinações homossexuais. No entanto, a personagem da Duquesa de Marlborough foi inspirada em Sarah Churchill, uma confidente da Rainha que de fato era casada com um militar e que se elevou a condição de Duquesa com a tomada de posse de Anne.

Sarah Churchill efetivamente passou a ter alto poder na corte controlando as finanças, administrando o palácio e opinando acerca da guerra.

Representação de Sarah Churchill, a verdadeira Duquesa de Marlborough.
Representação de Sarah Churchill, a verdadeira Duquesa de Marlborough.

A personagem de Abigail Masham teria igualmente existido e a criada havia se aproximado da rainha, como conta o filme, através de Sarah Churchill. Ela viria a substituir o seu lugar anos mais tarde.

A maior divergência entre Abigail e Sarah teria acontecido por motivos políticos: Abigail acreditava no partido dos tories e Sarah era entusiasta do partido dos whigs.

Imagem da verdadeira Abigail Masham.
Imagem da verdadeira Abigail Masham.

A divisão do filme

O longa metragem é dividido em uma série de capítulos, a semelhança do que acontece com os livros.

O longa metragem é dividido em capítulos.
O longa metragem é dividido em capítulos.

São entradas precedidas de um número romano e que condensam literal ou metaforicamente o que será apresentado a seguir. Muitas vezes também a frase apresentada é retirada de um diálogo que se dará logo a seguir.

Descrição do capítulo número I.
(Tradução: "Essa lama fede"). Descrição do capítulo número I.

Ficha técnica

Título originalThe Favourite
Lançamento24 de janeiro de 2019
DiretorYórgos Lánthimos
RoteiristasDeborah Davis, Tony McNamara
GêneroDrama histórico, biografia
Duração120 minutos
Atores principaisOlivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone
Prêmios

Globo de Ouro: Melhor Atriz em Comédia ou Musical para Olivia Colman

12 nomeações ao BAFTA. O longa venceu as seguintes categorias: Melhor Filme Britânico, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Design de Produção.

Indicação ao Oscar 2019 em dez categorias (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante com Emma Stone e Rachel Weisz, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Montagem e Melhor Direção de Arte).

Vencedor do Oscar 2019 na categoria Melhor Atriz (Olivia Colman).

Cartaz do filme A Favorita.
Cartaz do filme A Favorita.

Trailer

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).