Clarice Lispector: vida e obra


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Clarice Lispector (1920-1977) foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira e criou obras-primas como A Hora da Estrela, A Paixão Segundo G.H. e Laços de Família.

Formalmente a escritora é considerada como pertencente a terceira fase do modernismo, no entanto é possível afirmar que a escrita de Clarice é atemporal e atravessa gerações.

Biografia

O nascimento de Clarice

Clarice na realidade nasceu Haia Lispector, a terceira filha de um casal composto por Pinkouss, comerciante, e Mania Lispector, dona de casa. Antes da menina nascer a família já tinha duas meninas: Leia e Tania.

Clarice Lispector irmãs
As irmãs Lispector: Tania (esquerda), Leia (centro) e Clarice, em 1927

Viviam todos em Tchetchelnik, uma pequena aldeia da Ucrânia que até então pertencia à Rússia. Cada filha nasceu em uma cidade: Leia, a primeira, em Savran, Tania em Teplik e Clarice já em Tchetchelnik.

A mudança da família Lispector para o Brasil

Judeus, a família decidiu emigrar rumo à uma vida melhor fugindo especialmente do antissemitismo na terra natal.

A família Lispector então pegou o navio Cuyabá rumo Maceió em 1926. Lá os esperavam Zina e José Rabin (tios de Clarice), comerciantes da cidade. O pai de Clarice começou logo a trabalhar com José Rabin como mascate.

família Lispector
Retrato da família Lispector

Foi em solo brasileiro que a maior parte da família adotou um novo nome: o pai virou Pedro, a mãe Marieta, a irmã mais velha Elisa e Haia se tornou Clarice.

Em 1925 o pai da família resolveu se mudar de Alagoas para Pernambuco, onde se estabeleceram no bairro da Boa Vista.

Quando Clarice completou nove anos ficou órfã de mãe. A seguir, em 1934, migram para o Rio de Janeiro.

Formação

Clarice faz exame de admissão no Ginásio Pernambucano e é aprovada. Tenta publicar uma série de pequenos contos e é recusada todas as vezes.

Ingressa na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (no Rio de Janeiro) em 1941. Durante esse período trabalha como secretária, depois em um escritório de direito, em um laboratório e finalmente na redação da Agência Nacional. Para sobreviver faz também algumas traduções de textos científicos.

Retrato de Clarice Lispector
Retrato de Clarice Lispector

Obras publicadas

  • Perto do Coração Selvagem (romance, 1944)
  • O Lustre (romance, 1946)
  • A Cidade Sitiada (romance, 1949)
  • Alguns Contos (contos, 1952)
  • Laços de Família (contos, 1960)
  • A Maçã no Escuro (romance, 1961)
  • A Paixão Segundo G.H. (romance, 1961)
  • A Legião Estrangeira (contos e crônicas, 1964)
  • O Mistério do Coelho Pensante (literatura infantil, 1967)
  • A Mulher Que Matou os Peixes (literatura infantil, 1969)
  • Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (romance, 1969)
  • Felicidade de Clandestina (contos, 1971)
  • Água Viva (romance, 1973)
  • Imitação da Rosa (contos, 1973)
  • A Via Crucis do Corpo (contos, 1974)
  • A Vida Íntima de Laura (literatura infantil, 1974)
  • A Hora da Estrela (romance, 1977)
  • A Bela e a Fera (contos, 1978)

Jornalismo

Em 1959, depois de uma temporada no exterior ao lado do marido diplomata, Clarice regressa ao Brasil e passa a trabalhar no Jornal Correio da Manhã onde conduz a coluna Correio Feminino.

No Diário da Noite também assina a coluna uma coluna (Só para Mulheres).

Clarice sindicato jornalistas
Clarice Lispector e a sua carteira do sindicato dos jornalistas

Publicou crônicas no Jornal do Brasil a partir de 1967, o que lhe deu imensa visibilidade. É convidada para fazer parte do Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro.

Prêmios recebidos

  • Prêmio Graça Aranha de melhor livro do ano pela obra Perto do coração selvagem
  • Prêmio Jabuti pelo livro Laços de família
  • Prêmio Carmen Dolores Barbosa pelo livro A maçã no escuro
  • Prêmio Jabuti pelo livro A hora da estrela
  • Prêmio Golfinho de Ouro pelo romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres
  • Prêmio oferecido pela Campanha Nacional da Criança pelo livro O mistério do coelho pensante
  • Prêmio pelo conjunto da obra oferecido pela Fundação Cultural do Distrito Federal

Casamento

Clarice Lispector se casou com o amigo de turma Maury Gurgel Valente, que viria a se tornar diplomata.

Clarice Lispector e o marido
Clarice Lispector e o marido Maury Gurgel Valente

O casamento durou entre 1943 e 1959 e terminou por motivo de divórcio.

Filhos

O casal Clarice e Maury teve dois filhos: Pedro Gurgel Valente (1948) e Paulo Gurgel Valente (1953).

Confira uma entrevista do filho mais jovem de Clarice sobre a sua relação com a mãe escritora:

Doença

Clarice Lispector foi diagnosticada com um câncer de ovário avançado e sofreu uma metástase que levou ao seu falecimento no dia 9 de dezembro de 1977, aos 56 anos, um dia antes de fazer aniversário.

Frases

Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade.

Conheça As frases mais incríveis de Clarice Lispector explicadas.

Poemas

Apesar de ser reconhecida pelo público por poemas, a verdade é que Clarice Lispector não escrevia regularmente sob a forma de versos e muito do que circula nos dias de hoje não é sequer de sua autoria.

Raramente Clarise escreveu poesia no formato clássico, tendo investido ao longo da sua carreira em crônicas, contos e romances que carregavam certo lirismo.

Em um raro momento de exercício poético puro, Clarice chegou a mostrar um exemplar dos seus versos para o então poeta Manuel Bandeira. Respondeu o poeta em carta datada de 23 de novembro dirigida à Clarice Lispector:

Você é poeta, Clarice querida. Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras […] faça versos, Clarice, e se lembre de mim.

Principais criações

Livro A Hora da Estrela

Considerado por muitos como o maior trabalho de Clarice, A Hora da Estrela (publicado em 1977) conta a história da emigrante nordestina chamada Macabéa que se muda para tentar ganhar a vida na cidade grande.

Primeira edição A hora da estrela
Primeira edição de A hora da estrela

Quem narra essa história é Rodrigo S. M., um sujeito que reflete não só sobre a trajetória da pobre moça como também investiga questões relacionadas à própria escrita e aos seus limites enquanto narrador. Rodrigo se questiona: é possível dar voz a dor de outra pessoa?

Macabéia é uma moça humilde como outra qualquer, sem nenhum grande interesse e sem nenhuma grande motivação. O leitor se identifica com a personagem solitária e que parece abandonada a própria sorte.

Apesar de escrito sob a forma de prosa, a obra é pura poesia e foi uma resposta dada por Clarice após uma série de críticas que diziam que ela não retratava o real sofrimento do povo brasileiro.

Conheça uma análise aprofundada de A Hora da Estrela.

Livro Felicidade Clandestina

Publicado em 1971, a obra reúne vinte e cinco contos (alguns deles publicados previamente em jornal, outros inéditos).

Primeira edição de Felicidade Clandestina
Primeira edição de Felicidade Clandestina

Aqui Clarice narra pequenas histórias passadas no Recife e no Rio de Janeiro entre os anos cinquenta e sessenta. Muitas dessas composições tem um forte tom autobiográfico.

Os principais temas abordados ao longo das páginas são a memória da infância, os dilemas existenciais e a solidão. Sua escrita, tradicionalmente reflexiva, convida o leitor a ocupar um lugar de desconforto provisório.

Saiba mais sobre a obra Felicidade Clandestina.

Conto Amor

Publicado no livro Laços de família em 1960, o conto Amor é dos mais celebrados de Clarice Lispector.

A protagonista Ana é uma pessoa comum que um belo dia, a meio da sua rotina vulgar, é interrompida por uma epifania que a faz refletir sobre tudo o que está ao seu redor.

Mãe, esposa e dona de casa, Ana sempre cumpriu as suas tarefas sem grandes questionamentos até que, durante um passeio, vê da janela do bonde um cego mastigando chiclete. Essa simples cena despoleta uma série se sentimentos que vão da inquietação à dúvida.

Descubra o conto Amor.

Modernismo

Clarice Lispector é considerada pelos teóricos da literatura uma escritora pertencente da terceira fase do modernismo brasileiro. A autora fez parte da conhecida geração de 45.

Entrevista

Clarice concedeu a sua última entrevista no dia 1 de fevereiro de 1977 para a TV Cultura. Esse material precioso encontra-se disponível online:

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).