Belchior: melhores músicas e biografia


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes (1946 – 2017) foi um cantor, compositor, instrumentista e produtor musical brasileiro que marcou profundamente a nossa cultura.

Um dos grandes nomes da MPB (Música Popular Brasileira), o cantor nordestino também foi professor de artes, pintor, desenhista e caricaturista.

Capa do disco Belchior.

Compositor de alguns hinos que marcaram o seu tempo, Belchior foi um dos porta-vozes da juventude que estava sendo reprimida pela ditadura militar brasileira, relatando suas consequências políticas e sociais.

Sujeito de Sorte

Sujeito de Sorte é, atualmente, a música mais escutada de Belchior. Lançado em 1976, no disco Alucinação, o tema tem um tom otimista, que procura motivar e transmitir forças para quem escuta.

Este sujeito não esconde que sofreu muito no passado recente, chegando a comparar a dor com a própria morte. No entanto, agora ele se sente vivo e tem esperança de novo, confia na vida.

Além de deixar explícito o seu espírito de resistência, também demonstra fé em Deus e no povo brasileiro, afirmando que melhores dias virão.

Em 2019, Emicida usou o refrão de Sujeito de Sorte como sample no sucesso AmarElo, com a participação de Majur e Pabllo Vittar.

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado

Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro

Coração Selvagem

Outro som imperdível de Belchior é Coração Selvagem, lançado em 1977, no disco homônimo, o terceiro da sua carreira. Talvez a razão da sua popularidade seja o tema da composição, um sentimento universal e intemporal: o amor.

A música é uma declaração apaixonada para alguém que o sujeito designa de “meu bem” e se foca nas particularidades do relacionamento que eles vivem. Embora a sociedade ditasse como os namorados deveriam se comportar, este eu-lírico deixa claro que está buscando coisas diferentes.

O tema retrata uma paixão da juventude, sua vontade viver tudo e aproveitar cada momento sem pensar no futuro. Em Coração Selvagem, o sujeito afirma que quer viver de um jeito aventureiro e que precisa de uma companheira que se adapte ao seu modo de vida "errante".

Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem
E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver

Como Nossos Pais

Parte do disco Alucinação, Como Nossos Pais foi um êxito incontornável da década de 70, na voz de Elis Regina, que gravou a música no ano em que ela saiu (1976).

Na composição, Belchior está se manifestando sobre o retrocesso mental, cultural e social que estava tomando conta do Brasil durante a ditadura. Expressando o clima de repressão e censura, deixa evidente que não pode se comunicar de forma livre.

Se focando neste conflito geracional, explica que a juventude está estagnada, parada no tempo. Embora pensassem de formas diferentes, tivessem novas perspectivas e experiências, eram forçados a viver segundo a moral da geração passada, como os seus pais.

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

Como Nossos Pais se tornou um importante hino da resistência brasileira.

Apenas um Rapaz Latino Americano

Também de 1976, a canção é um retrato bastante honesto da realidade, relatando aquilo que o artista estava vendo e vivendo.

Assim como o sujeito da composição, Belchior também se mudou do interior para a "cidade grande", motivado pelos sonhos, num caminho marcado pela dureza da vida. Aqui também fica evidente o poder da música e o modo como ela nos inspira, com uma referência a Divino Maravilhoso, de Caetano.

Alertando sobre o clima opressivo (“tudo é proibido”), o eu-lírico quer transmitir a mensagem oposta, de libertação. Ao mesmo tempo que narra as suas experiências, utiliza o seu canto como instrumento de denúncia, mesmo que isso o transforme em um alvo.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior

Mas sei que tudo é proibido
Aliás, eu queria dizer que tudo é permitido

Divina Comédia Humana

Incluída no disco Todos os Sentidos, de 1978, esta é uma música que reflete sobre o amor e os diferentes tipos de ligações românticas que podem se formar.

Mesmo sendo censurado pelos outros, que acham que ele deve investir num relacionamento mais estável, o sujeito canta sobre um encontro súbito que o encheu de alegria.

Mesmo que a sociedade não aprove o seu modo de amar, ele argumenta que nada é eterno e isso deve ser encarado com naturalidade.

Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como o sol no quintal

Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda
Que um encontro casual

À Palo Seco

Outro êxito de 76, a música parece ser um recado de Belchior para seus companheiros de profissão. "Palo" é um tipo de flamenco que, quando não é acompanhado por um violão, se designa "a palo seco".

Assim, o cantor anuncia que tem algo para dizer e vai ser sem rodeios, "na lata". Logo depois, ele começa a criticar os artistas que estavam fazendo canções de protesto por moda.

Belchior se distancia dessa postura e fala que está cantando porque acredita na transformação social, quer realmente que as coisas mudem.

Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Mas por força do meu destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues


Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês
E eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês

Velha Roupa Colorida

Velha Roupa Colorida, de 1976, foi gravada por Elis Regina no mesmo ano e lançada no disco Falso Brilhante. Embora o povo ainda se encontrasse nas garras do governo autoritário, Belchior mais uma vez transmitia mensagens positivas, de coragem e esperança.

Na canção, o sujeito declara que ainda acredita no futuro, na liberdade. Apesar de todas as dificuldades, não se dá por vencido porque espera a mudança, a chegada de novos ideais e paradigmas que irão transformar a sociedade.

Você não sente, não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança, em breve, vai acontecer
E o que algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer

Belchior: biografia resumida

Infância e juventude

Antônio Carlos Gomes Belchior nasceu no dia 26 de outubro de 1946, em Sobral, no Ceará. Desde cedo, a música esteve presente na vida do garoto: a sua mãe, Dolores, cantava no coral da Igreja e o avô era instrumentista.

Durante a infância, Belchior aprendeu a cantar e a tocar piano, passando a se apresentar também como repentista e cantor nas feiras locais. Na adolescência, se mudou para Fortaleza, com o intuito de prosseguir os seus estudos em Filosofia, frequentando um colégio religioso.

A sua ligação com a fé era tão grande que o jovem chegou a passar uma temporada no mosteiro de Guaramiranga, onde aprendeu latim e canto gregoriano com os frades.

Depois disso, voltou para Fortaleza, onde passou a cursar Medicina. Nesse período, Belchior também fazia alguns shows na região e trabalhava na rádio.

Carreira música e chegada do sucesso

Em 1971, Belchior abandonou a faculdade, no quarto ano de Medicina, para se dedicar à carreira artística. Foi durante essa fase que ele se mudou para o Rio de Janeiro e conheceu alguns cantores e compositores, como Fagner, que também tinham chegado do Nordeste e ficaram conhecidos como "Pessoal do Ceará".

Nesse ano, o artista ganhou o Festival Universitário da MPB e em 1972, se mudou para São Paulo, onde trabalhou com trilhas sonoras para curtas-metragens. Nesse tempo, Belchior compôs vários sucessos que viriam a ser gravados por artistas de renome como Elis Regina.

Em 75, Elis lança a sua versão de Como Nossos Pais, tema que entrou para a história da música nacional. No ano seguinte, o cantor lançou o álbum Alucinação, seu disco de maior êxito, que projetou o nome de Belchior para a fama internacional.

Foi também nessa época que Belchior casou com Angela Henman e, em 1983, fundou a sua gravadora e produtora musical, a Paraíso Discos.

"Por onde anda Belchior?": desaparecimento e polêmicas

A partir dos anos 2000, a vida do artista passou a estar envolta em mistérios e controvérsias. Em 2005, Belchior teria conhecido outra mulher, Edna Prometheu, e se divorciado da esposa dois anos mais tarde.

Em 2008, o cantor abandonou de repente a cidade de São Paulo, o que acarretou vários processos judiciais relacionados com funcionários e também com a própria família. Embora tenha sido encontrado em Porto Alegre, logo voltou a sumir.

O seu "desaparecimento" chegou mesmo a ser anunciado nas notícias, mas logo se descobriu o seu paradeiro: Belchior estava no Uruguai, trabalhando em canções novas.

O final da sua vida

Em 2012, foi reportado que Belchior e Edna também deixaram o país, envolvidos em algumas confusões. O casal se mudou para o Rio Grande do Sul e, dia 30 de abril de 2017, Belchior morreu de aneurisma da aorta.

O artista nordestino recebeu incontáveis homenagens e o seu corpo se encontra sepultado na cidade de Fortaleza.

Discografia de Belchior

  • 1974 - Belchior
  • 1976 - Alucinação
  • 1977 - Coração Selvagem
  • 1978 - Todos os Sentidos
  • 1979 - Era uma Vez um Homem e Seu Tempo
  • 1980 - Objeto Direto
  • 1982 - Paraíso
  • 1984 - Cenas do Próximo Capítulo
  • 1986 - Um Show: 10 Anos de Sucesso (ao vivo)
  • 1987 - Melodrama
  • 1988 - Elogio da Loucura
  • 1990 - Trilhas Sonoras (ao vivo)
  • 1991 - Divina Comédia Humana
  • 1993 - Baihuno
  • 1995 - Um Concerto Bárbaro: Acústico ao Vivo
  • 1996 - Vício Elegante
  • 1999 - Auto-retrato

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Aproveite para escutar as melhores de Belchior nesta playlist que preparamos para você:

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.